Filipe da Rocha Narciso foi um dos primeiros bailarinos a integrar a companhia de dança Contemporânea Quorum Ballet. Desde então, participou e é professor na Academia da Companhia. Foi entre o final do espetáculo A Cidade Verde e a Cidade Azul, coreografado pelo bailarino,  o início de uma aula na Quorum Academy e os ensaios da nova peça Rights, que o Espalha-Factos conseguiu falar com Filipe Narciso.

Espalha-Factos: Quando começou a sua carreira de bailarino?

Filipe Narciso: Desde pequenino que queria ser bailarino. A minha mãe diz que desde os 2 anos, acordava e dizia que queria  ser bailarino. E chateei-a até conseguir entrar numa escola, que se chamava o Estúdio de Dança Jazzbel. Depois a minha mãe percebeu que era uma coisa a sério e entrei para o Conservatório. Estive lá os 8 anos do Curso. Depois, estive a estagiar na Companhia Nacional de Bailado. E depois fiz a audição para o Quorum e entrei.

EF: Nunca sentiu dificuldades em assumir que queria ser bailarino?

FN: Desde criança que tinha uma opinião muito forte. Entre amigos era um bocadinho mais difícil, como é obvio. As minhas tias também me diziam:  “Mas bailarino? Isso é profissão? Então não vais estudar?” Hoje em dia são as minhas maiores fãs.

EF: Quais foram as Companhias onde atuou?

FN: Eu estive com a Companhia Nacional de Bailado a estagiar durante um ano. Todos os bailados que eu fiz lá foram Clássicos. Depois foi aqui no Quorum.

EF: Quais foram as dificuldades que foi sentido?

FN: No primeiro ano em que estive na Nacional de Bailado, o mais difícil mesmo, foi sobreviver numa Companhia tão grande. Eu comecei a perceber que aquele ambiente, se calhar, não era tanto para mim. Depois , se há coisa que eu mais odeie na Dança é a competição. As pessoas costumam dizer a famosa frase da Competição Saudável. Para mim, não existe Competição Saudável. Eu tento todos os dias ser melhor do que eu próprio e não que os outros. É isso que eu acho que me vai fazer melhor para mim mesmo. Eu tenho pensado sempre assim. E é uma busca pela perfeição.

EF: Mesmo a nível do Corpo. Já houve dificuldades?

FN: Ah, isso sim. Quando comecei a trabalhar com o Quorum e com o Daniel, eu não estava habituado ao trabalho físico dele e aos espetáculos.  A dificuldade maior foi ganhar o ritmo dele.

EF: Quando entrou mesmo na Quorum?

FN: Entrei dia 18 de setembro de 2006, é uma data que eu não me esqueço.

EF: Porque escolheu o Quorum Ballet?

FN: Foi um tiro de sorte! Eu já conhecia o trabalho do Daniel. Tinha visto umas coreografias que ele tinha feito. Antes de 2006, era algo que estava em bruto, ainda não era uma Companhia formada. Realmente pensei, Ballet Clássico não é para mim. Eu gosto muito, mas não é excitante suficiente. Quando estava um dia na CNB, vi que havia audições para o Quorum Ballet, que precisam de dois bailarinos homens. Fiz a audição, entrei e hoje me dia costumo dizer que foi a melhor coisa que fiz na minha vida profissional .

EF: É a liberdade da Dança Contemporânea que o motiva?

FN: É! Um exemplo muito estúpido que eu costumo dar é que num Bailado Clássico, o foco está sempre na Mulher. Na Dança Contemporânea não. Tanto pode haver um grupo de homens, como um grupo de mulheres, o foco tanto pode estar no homem ou na mulher e é esse tipo de diversidade que me fez muito vir para a Dança Contemporânea.

EF: Lembra-se da sua estreia na Companhia?

FN: Não me esqueço. Isto porque eu tive uma semana e meia para aprender os bailados. Na altura foi completamente louco. Hoje em dia se for para aprender um bailado numa semana e meia, sim. Mas chegar à Companhia e ter de aprender duas peças de 20/30 minutos numa semana e meia, eu pensei: “isto é uma loucura, eu não vou conseguir. “ E nunca mais me esqueço, eu estava habituado a ter ensaios gerais. Naquele dia, houve complicações técnicas no Teatro e nós não tivemos ensaio geral. Mas depois foi um espetáculo muito giro.

EF: Qual foi a peça?

FN: A peça chamava-se 5 peças de Daniel Cardoso. Das 5 eu dançava 2.

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EF: O que é que a Companhia veio acrescentar?

FN: Para já, eu acho que veio acrescentar um tipo de movimento que não existia em Portugal. Aquilo que o Daniel dá às coreografias existe, mas diferente. Muito daquilo que nós fazemos é trabalhar à séria.

EF: Quando diz trabalhar à séria diz o quê?

FN: Número de peças, número de espetáculos, número de viagens, tudo. É o volume total de trabalho que nós temos comparado com outras Companhias em Portugal. Também a nível internacional, porque nós fazemos 4 a 5 digressões internacionais. As outras Companhias fazem 1, 2, 3, por aí.

Em Correr o Fado, uma das peças mais requisitadas em digressões.

Em Correr o Fado, uma das peças mais requisitadas em digressões.

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EF: Nestes 9 anos, quais foram as peças mais estimulantes para si?

FN: As duas primeiras (5 peças de Daniel Cardoso), porque foram completamente novas. Eu costumo dizer que tenho 3 momentos na Companhia. Tenho o início. Depois o Impacto, onde eu tive em destaque, porque a peça girava toda à minha volta. Agora o mais recente, o Lago dos Cisnes. É um papel onde eu não danço assim tanto. Tenho uma carga dramática imensa. Foi uma personagem completamente diferente. Realmente tive de trabalhar com uma pessoa a parte dramática durante horas. Eu gosto imenso da pessoa que trabalhou connosco, a Ana Lázaro. Mas no final eu só lhe dizia, eu já não te quero ver mais à minha frente. Eu já não aguento! Porque era o Daniel em cima de mim com a coreografia e a Ana em cima de mim com a carga dramática. Já nem sabia para onde me havia de virar. Acho que foi dos momentos da minha carreira que cresci mais. É das peças que me vai marcar para sempre.

Impacto, uma das peças que mais marcou o bailarino na Companhia.

Impacto, uma das peças que mais marcou o bailarino na Companhia.

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Em Lago dos Cisnes protagonizou uma personagem com uma forte carga dramática.

Em Lago dos Cisnes protagonizou uma personagem com uma forte carga dramática.

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EF: Como estão a correr os ensaios de Rights?

FN: Estão a correr bem. O programa começou a ser preparado antes do verão. Ou seja, o Donald Byrd esteve cá em julho para montar a peça. Foi desgastante para nós como bailarinos, porque o método de trabalhar dele é completamente diferente e faz-nos pensar imenso. Monta a coreografia duma maneira e depois de repente diz-nos: “Não, agora o que as pernas estão a fazer, fazem os braços e o que os braços estão a fazer, fazem as pernas.” E como é que isso se faz? E ele não faz. Ele diz-te e tu tens de pensar e tens de fazer. Mas está a correr super bem, agora não tem estado cá, mas a peça está montada e ensaiada. Agora é só ele chegar e ver se não nos vai mudar nada. Esperemos que não!

EF: Em relação aos conceitos, acha que vai ser estimulante para o público?

FN: Não sei. A peça do Daniel ,nós já  estreamos, que é a do Aristides de Sousa Mendes. Acho que essa vai ser super aceite. As pessoas vão adorar. Agora a outra, estou um bocadinho reticente. Tem a ver com o tráfico humano, as coisas são ditas tal e qual como elas são e são feitas tal e qual como elas são. Eu não sei se o nosso público está preparado para isso. Não sei.

EF: Também tem tido a oportunidade de coreografar. Está agora a decorrer a Cidade Verde e a Cidade Azul, é uma das ambições da sua carreira?

FN: Não tinha muito essa ambição, mas essa peça .. Primeiro, é uma história escrita pela minha mãe. Desde pequenino que oiço a Cidade Verde e a Cidade Azul. E disse à minha mãe: “ um dia vou coreografar isto.” Quando surgiu a oportunidade de fazer uma peça para crianças, eu disse logo ao Daniel que tinha uma história. Ainda não sei muito bem se o que eu quero fazer é coreografar, após ser bailarino. É uma das coisas que eu estou a tentar explorar neste momento.  Sei que quero ser Professor. Mas também acho que gostaria da parte de ensaiador. O Daniel tem-me dado a oportunidade de quando ele não está cá de me pôr à frente dos ensaios. E é uma parte que me estimula imenso.

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EF: Esta peça é para público mais infantil, como se pensa em coreografar para este público?

FN: A minha grande preocupação é que as crianças entendam a história. Ao qual, eu vim a descobrir no fim, que as crianças talvez entendam melhor a história que os adultos… Outra das coisas era não ser chata! Eu em criança vi muitos espetáculos e …   para crianças eu acho que não pode ser chato. Não pode perder o ritmo. Não pode ser muito longa, tem de ser meia hora / 40 minutos. Depois o Daniel gosta muito que haja interação com o público. Isso foi a parte mais difícil de pensar.

EF: O objetivo da Companhia é também de começar a educar as crianças na linguagem da Dança?

FN: Completamente! As pessoas educam-se, como se costuma dizer e de pequeninas. Ao nós fazermos isto, e irmos às escolas e trazermos as escolas até ao Teatro, os miúdos começam a habituar-se desde pequeninos à Dança. Um dos objetivos que eu adorava que acontecesse, era que a Dança fosse como o Cinema. Olha, vamos ao Cinema. Olha, vamos ver um espetáculo de Dança.

EF: Em relação aos cenários e figurinos, foi o Filipe que fez?

FN: Tive ajudas. Uma das razões pela qual tive de ser eu a fazer tanto o cenário como os figurinos porque não havia dinheiro na Companhia para gastar em cenógrafo. E não cabia no orçamento. Então, há imensa coisa na minha peça que são de peças antigas da Companhia, mesmo de peças para adultos. Depois com as ajudas que tive desde um amigo meu que é arquiteto e designer e me veio ajudar nos cenários e mesmo com os figurinos e nos textos. Mas neste momento posso dizer que a peça é toda minha.

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EF: Dá aulas na Academia?

FN: Sim, as minhas aulas são de Contemporâneo. Eu gosto muito de dar Contemporâneo. Se calhar até tenho o Clássico muito mais no meu corpo, porque são 20 anos de Clássico, mas acho muito mais estimulante ensinar Contemporâneo.

EF: A maioria dos alunos nem quer ser profissional?

FN: Já tive casos em que me disseram que realmente que queriam era poder dançar. A maior parte deles não consegue porque quando me vêem dizer estas coisas têm 18/ 20 anos e são muito raros os casos onde a partir dos 18 / 20 anos conseguem ser bailarinos profissionais do nada. Há quem consiga, mas normalmente é mesmo só na desportiva.

EF: Quais as dificuldades de lecionar dança a pessoas que não são profissionais?

FN: O nível de concentração, principalmente. Nós, profissionais , estamos habituados a isto todos os dias. Temos uma coisa que se chama memória física. Claro que as pessoas que consoante as aulas, vão aprendendo, mas para mim o mais difícil é a diversidade de pessoas que vêem e às vezes umas conseguem fazer muito uma coisa, mas depois não conseguem fazer outra. Mas lá está, estimula-me!

EF: Costuma ter muitas críticas?

FN: Imensas! Já estou vacinado desde os 10 anos! Houve um ano em que eu disse: “vou desistir. Não quero isto para nada. Ninguém gosta de mim, os meus professores são horríveis. “ Porque estavam-me sempre a criticar todos os dias. Principalmente quando somos mais novos, é difícil. Mas quando são críticas construtivas é maravilhoso, porque nos faz crescer mais. Não me vejo a fazer outra coisa. Eu se não fosse bailarino, estava no desemprego, porque não sabia o que havia de fazer da vida.

EF: Em relação ao futuro da Companhia, o que pode ser acrescentado?

FN: Podem-se acrescentar bailarinos. Era uma coisa que eu sei que o Daniel gostava. Claro que não é fácil! Há peças que se calhar com mais bailarinos ganhavam uma dinâmica e dimensão muito maior.

Na peça Mesa.

Na peça Mesa.

Dois Séculos, uma peça das Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes.

Dois Séculos, uma peça das Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes.

EF: Na aceitação do público estão bem encaminhados?

FN: Eu acho que sim. Antigamente havia muito pouca gente que conhecia a Companhia e hoje em dia ainda há imensa gente que não conhece. Acho que o público português aceitou muito o nosso trabalho. Se calhar o Mundo da Dança não tão bem ao início, porque era uma coisa nova e em Portugal cada vez que há uma coisa nova é um filme, porque vêm roubar o lugar aos outros. Não! Até é pena que não existam mais Companhias de Dança Contemporânea, porque faz falta.

EF: Em relação à Dança em Portugal, o que pode ser melhorado?

FN: Ah, tudo! Desde o pequeno exemplo da Reforma. Nós, bailarinos de privado, temos a Reforma na mesma altura que as outras pessoas. E um bailarino não se vai reformar com mais de 60 anos. Não dá! O que é que ele vai fazer aos 60 ? Nessa altura só mexo os dedinhos. Isso para mim era uma das grandes lutas que todo o Mundo da Dança se devia juntar. Se houvesse também um apoio maior do Estado, se calhar as pessoas diziam: “espera lá, se isto vai para as Artes, porque é que não vamos ver? É porque realmente vale a pena.” Porque há pessoas que trabalham. Porque temos imensos bailarinos , imensos coreógrafos e muita gente no desemprego e a fazer outro tipo de trabalhos porque simplesmente não dá. Os países desenvolvidos têm a Cultura no seu expoente máximo. É a Cultura e a Educação. O país devia ir por aí. Mas lá está, é uma coisa que se tem de educar durante muitos anos.

EF: Acha que o Mundo da Dança devia ser mais ativo?

FN: Completamente! Quando os meus colegas dizem: “Ah, isto está muito mau!”  Mas o que é que nós fazemos contra isso, não fazemos nada. Queixamo-nos sim, mas ninguém faz nada. Por exemplo, podíamos fazer uma manifestação à porta do Parlamento a dizer que queremos uma reforma para os bailarinos todos. As pessoas não têm noção que é como ser um atleta de alta competição. Chegamos a uma certa altura e não dá. Eu estou a trabalhar com o meu corpo, eu tenho de descansar o meu corpo para no dia a seguir fisicamente possível para ensaios e atuações. Um bom exemplo, foi quando me fui inscrever-me nas Finanças a  recibos verdes e disse: “A categoria que quero abrir é para artistas de bailado. “ E lá: “Mas isso não existe”! E eu: “Mas no sítio onde me estão a contratar, deram-me isto, por isso quer dizer que existe.”  E lá voltaram a dizer: “Ah, mas não, olhe que isso não existe para artistas de bailado, isso é uma coisa que as pessoas fazem como hobby, não é uma profissão.” A senhora das Finanças foi ver e pediu-me desculpa. Outro exemplo foi quando fui abrir uma conta num Banco e me perguntam a profissão e eu digo: “Bailarino.”   E no Banco: “Não não, a profissão.” E eu (risos): “É bailarino. “ E lá: “Bailarino mesmo? Mas pagam-lhe para dançar?”  E eu: “Pagam.” E a senhora ficou muito chocada. Depois foi ver um espetáculo e adorou. O país não está educado para tal.

EF: O que é que o estimula mais em Palco? 

FN: São as palmas. Um bailarino vive para as palmas. Nós literalmente trabalhamos para o público. Claro que todos os dias trabalho para mim próprio. O trabalho é meu. Claro que quando trabalhamos em grupo é diferente. Mas eu trabalho para ser melhor. As palmas no fim são o reconhecimento do que estamos a fazer. Nas peças de criança são os risos dos miúdos e as perguntas que eles fazem no fim. É muito giro. A maior parte deles não têm perguntas, mas dizerem-nos que gostaram muito da peça. Isso aperta-nos o coração. Ainda por cima nesta peça, faz-me babar. Foi uma peça toda feita por mim. A reação do público é o melhor, se as pessoas não gostam, o que é que eu estou aqui a fazer? Se houver quem me goste de ver dançar, já vale a pena.

Fotografias  Quorum Ballet