O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos estreia agora nas salas de cinema portuguesas. O último capítulo da trilogia é finalmente desvendado e o final épico prometido por Peter Jackson não se concretiza, resultando antes num denunciar de todas as más decisões tomadas na realização desta saga que, dois anos depois de estrear, não acrescentou nada à História do Cinema.

Ao sucumbir ao mal do dragão, o Rei Debaixo da Montanha, Thorin Escudo-de-Carvalho, sacrifica amizade e honra na sua busca pela lendária Arkenstone. Incapaz de ajudar Thorin a ver a razão, Bilbo tem de fazer uma escolha desesperada e perigosa, ignorando que perigos ainda maiores ainda estão para vir. Um inimigo antigo regressou à Terra Média. Sauron, o Senhor das Trevas, enviou legiões de Orcs num ataque furtivo à Montanha Solitária. Enquanto as trevas convergem para enfrentar o conflito em escalada, as raças de anões, elfos e homens têm de decidir se vão unir-se ou ser destruídas. Bilbo vai ter de lutar pela sua vida e pelas vidas dos seus amigos, enquanto cinco grandes exércitos se dirigem para a guerra.

Estávamos em dezembro de 2012 quando o primeiro filme da saga Hobbit chegou aos cinemas. O entusiasmo era imenso, dos fãs mais acérrimos àqueles mais distraídos, o facto é que Uma Viagem Inesperada era dos filmes mais antecipados do ano e a curiosidade sobre ele era enorme. Peter Jackson era o protagonista de imensas publicações dedicadas à sétima arte e o realizador estava em pleno palco, alvo dos mais fortes holofotes mediáticos nesse ano. Mas como não poderia isto acontecer? Afinal era ele o realizador da maior saga de fantasia da História do Cinema. Os seus épicos inspirados pela obra de J. R. R. Tolkien foram grandes marcos no novo cinema do século e, inclusive, o seu último filme da saga do Senhor dos Anéis entrou para a História como um dos filmes mais premiados pelos Oscars da Academia, recebendo 11 estatuetas douradas.

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Isto tudo para dizer basicamente que Jackson, desde o início desta saga – que se assume como uma prequela aos eventos vividos por Frodo em Senhor dos Anéis – sempre se viu atado pelas imensas expectativas e condenado a viver na sombra dos seus próprios filmes. O realizador elevou a fasquia a tal altura que o Hobbit, desde muito cedo, vem sendo a ser criticado por alguns  fãs, críticos, e o público no seu sentido mais lato. Longe de ser um fracasso de bilheteiras ou de crítica, os Hobbit estavam também longe de garantir a unanimidade que a anterior saga garantia. Este filme, o capítulo final, em vez de contrariar essa corrente veio ainda reforçar essa ideia e assume-se, sem qualquer dúvida, como o pior filme da saga Hobbit. Mas onde e como é que a Terra Média perdeu a magia? Qual foi o grande erro de Peter Jackson?

O maior e gritante erro de Jackson foi a divisão da acção pelos três filme. Esta tecla está mais que batida, mas por alguma razão ainda continua a ser mencionada. O facto de Jackson se inspirar num livros de contos infantis de Tolkien e com isso criar três filmes foi fatal para toda a saga. O material era mais que escasso para o tipo de projecto que ele próprio idealizou e todos os filmes sofrem de graves problemas na linha da narrativa graças a esta adaptação medíocre e gananciosa do trabalho de Tolkien. A Batalha dos Cinco Exércitos é o culminar de todas as incongruências que se sentem desde o primeiro filme.

THE HOBBIT: THE BATTLE OF THE FIVE ARMIES

As personagens principais, algumas, parecem mudar. Voláteis como as vontades de Jackson. As que se mantêm iguais, tornam-se chatas. O argumento é fraco, a intriga é quase inexistente e confusa, a acção incoerente e causa, acima de tudo, tédio ao espetador. As componentes técnicas são quase perfeitas e, nesse aspeto, a magia da Terra Média continua a preencher o ecrã, mas se bastasse isso para se fazer um filme… Este último capítulo revela-se na maior desilusão de ambas as sagas e a sua pouca profundidade é berrante e apenas revela a verdadeira motivação de Peter Jackson ao dividir o Hobbit em três filme: fazer dinheiro.

A maneira como o segundo e o terceiro filme se interligam é deplorável. A personagem Smaug, dada até aqui como o grande anti-herói da saga é o tal elo de ligação. O último filme acaba com o mesmo a voar sobre a cidade de Lake City, mas acham mesmo que o grande final épico é a lutar contra esta criatura? Não, ela é despachada nos primeiros minutos da película, antes mesmo do título do filme aparecer no ecrã. Este momento é horrivelmente anti-climático e faz-nos questionar o porquê de Peter Jackson estar há dois filmes, cada um de três horas, a construir a acção para culminar, simplesmente, numa fraca, desinteressante e curta cena que nos faz esquecer do dragão – monstro máximo desta saga, Smaug está para Bilbo como a Hidra para Hércules.

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E momentos como este, de horríveis escolhas de realização e argumentação temos nós há mão cheia nesta obra. Desde um dragão ignorado a uma catarse que demora meio filme a chegar mas que, quando chega, é despachada em dois minutos numa cena sem lógica, passando por batalhas e mais batalhas desinteressantes – com a pior coreografia alguma vez vista nos filmes do género de Peter Jackson -, tudo se vai construindo e abrindo caminho à maior e mais épica desilusão de 2014.

Depois temos duvidosas escolhas no departamento dos atores. O trabalho de casting, a escolha e direção de atores por vezes foram infelizes. Desde os novatos que pensam que se encontram numa qualquer peça de teatro da escola básica aos com mais experiência que simplesmente se revelam enfadados nas suas desgastadas personagens – estou a falar com vocês, Orlando Bloom e Cate Blanchett. E, como acima um pouco referido, os aspectos positivos encontram-se, principalmente, na fotografia. Fabulosa como Jackson já nos habitou, os trabalhos com as landspaces são bem efetuados e a mixagem de som algo interessante.

Em suma, um produto de entretenimento que pode alegrar um pouco as salas de cinema neste natal. Mas acima de tudo uma das maiores desilusões do ano numa saga pouco marcante e que encerra da pior forma. Peter Jackson diz agora que vai abandonar a Terra Média e nós não podíamos estar mais gratos.

5.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Hobbit: The Battle of five armies

Realizador: Peter Jackson

Argumento: Fran WalshPhilippa BoyensPeter Jackson e Guillermo del Toro, baseado na obra The Hobbit de J. R. R. Tolkein

Elenco: Ian McKellenMartin Freeman, Richard Armitage, Benedict Cumberbatch, Stephen Fry, Orlando Bloom, Evangeline Lily.

Género: Aventura, Fantasia

Duração: 144 minutos