O aproximar do final do ano é sempre aquela altura em que olhamos para trás e assinalamos os melhores momentos. A secção de Música do Espalha-Factos não foge à regra e decidiu escolher quais os melhores concertos a que cada um dos membros assistiu.

André Franco:

Massive Attack, Super Bock Super Rock

Foi para os lados do Meco que se deu um dos concertos mais intensos deste ano em terras lusas. Robert Del Naja e Daddy G regressaram a Portugal (onde já estiveram mais de uma dezena de vezes) e trouxeram com eles um novo desenho de palco preparado de raiz para a mais recente digressão. Entre a estreia de novo material e mordazes farpas ao consumismo dos dias de hoje, os ingleses trouxeram-nos as vozes angelicais de Martina Topley Bird, Horace Andy, entre outros… bem como momentos de pura beleza e requinte num alinhamento que contemplou temas nas linhas de Angel, Teardrop e da sempre bela Unfinished Sympathy. Tudo isto a ser adornado por um dos melhores desenhos de luz dos anos recentes. Uma sublime visita. Voltem sempre.

Dead Combo, Coliseu dos Recreios

Para se despedirem da digressão de promoção do mais recente Bunch of Meninos, o duo luso escolheu um cenário idílico: a zona central do Coliseu dos Recreios foi o palco onde dois milhares de fãs rodearam Tó Trips e Pedro Gonçalves para os ver erguer filmes in loco através das suas divagações sonoras. O resultado? Um dos concertos mais incríveis do ano. Num circo burlesco onde nem sequer faltou um anão anfitrião e uma secção de sopros na tribuna presidencial, os Dead Combo fizeram o público viajar por diferentes décadas, lugares e épocas. O Coliseu foi um western, foi uma cozinha de restaurante chinês, foi uma intimista casa de fados, foi uma despedida no cais e tudo mais. Uma noite irrepetível e certamente histórica para a banda. Tão cedo não volta a acontecer algo parecido.

2014-12-04 Dead Combo 117-

Mac DeMarco, Paredes de Coura

O festival minhoto não é nenhum estranho em estreias nacionais épicas. Afinal foi nele que bandas como Queens of The Stone Age, Arcade Fire e The National fizeram as suas apresentações em Portugal. Em 2014 vai rezar na História de PdC a estreia deste jovem canadiano de 24 anos. Com uma tshirt XL da tour de ’95 do Elton John, boné virado ao contrário e cigarro na boca, Mac DeMarco deu aos seus fãs tudo o que eles poderiam querer de um concerto: reboliço, boa disposição, invasões de palco, crowdsurfing e o espírito livre e jovem que é a sua música. Numa hora e pouco de profunda sintonia com um público que igualava a sua faixa etária, o músico provou porque é que o seu charme de desleixado atrai tanta gente. Porque é, acima de tudo, divertido.

Neutral Milk Hotel, Primavera Sound

Das n reuniões que foram possíveis de testemunhar este ano no Parque da Cidade, nenhuma foi tão cândida e etérea como a de Jeff Mangum e companhia. Os Neutral Milk Hotel foram recebidos de braços abertos e girassóis na mão para agraciarem uma plateia com o bizarro e belo mundo do seminal álbum In The Aeroplane Over The Sea, bem como outras paisagens igualmente preciosas e emotivas. Uma leve chuva de cânticos em uníssono vinda do público abateu a banda e deixou-os profundamente satisfeitos à medida que canções como Oh Comely, Two Headed Boy e Engine se desdobravam e floresciam tranquilamente num fim de tarde quente de junho. A voz carregada de sentimento e a altivez dos instrumentos de sopro variados conferiam tons dourados a um concerto que com certeza perdurará na memória de quem lá esteve. Belo, é a palavra correta.

Beatriz Vasconcelos

Darkside, NOS Primavera Sound

Darkside foi um concerto inesquecível que teve tudo aquilo queum concerto deve ter. Só de pensar nele para escrever volto a ficar arrepiada. Quem diria que um circulo espelhado conseguisse hipnotizar tanto alguém? Nicolas Jaar deve ser um dos músicos com maior presença em palco e esta sua colaboração com o multi-instrumentalista Dave Harrigton foi das melhores decisões que tomou na vida. Pyschic é um álbum sobre o qual é difícil falar, tenho medo de que me falhe algo porque toda a complexidade e harmonia que possui fazem dele um álbum perfeito.

Assim que o concerto começou não me arrependi um segundo deter deixado Mogwai para traz, fazia-o de novo as vezes que fossem precisas. Darkside no Primavera Sound não foi dos melhores concertos do Primavera, não foi dos melhores concertos do ano mas um dos melhores concertos a minha vida.

The National, NOS Primavera Sound

Um dos concertos mais bonitos a nível visual a que jáassisti. É verdade que muitos disseram ser mais do mesmo, mas para mim foi uma estreia e adorei.

Matt Berninger deu conta do recado e com as suas constantes interações com o público conquistou a grande massa que correu no último dia do festival ao parque da cidade do Porto. Num concerto que se diz ser típico desta banda, com sonoridade constante não houve nenhum fã que não ficasse satisfeito porque aquela música não passou. Um concerto especial que tocou a cada pessoa de uma forma especial.

Movement, Primavera Club (Barcelona)

Poucas pessoas podem conhecer esta banda, mas aviso desde já que estão a perder muito! Este banda de Sydney, composta por Jesse James Ward (baixo e vocais), Lewis Wade  (vocais e teclados) e Sean Walker (beats), chegaram a Barcelona e arrasaram a plateia. O concerto acabou e eu não consegui falar, dos momentos mais bonitos a que assisti e que transformou numa maior fã destes meninos. Com uma atitude descontraída nem eles sabiam bem o que lhes estava a acontecer, os aplausos e “oohhhhh” eram tantos que os próprios Movement ficaram emocionados. O concerto dos Movement foi das maiores surpresas que tive, nunca pensei ser tão bom ao vivo, a perfeição técnica era evidemte. Tenho de admitir que passei o concerto de Jungle com estes Australianos na cabeça… Na verdade, ainda hoje não sei o que foi tudo aquilo que senti.

Caribou, Razmatazz (Barcelona)

Depois de me terem feito quase ir de propósito ao NOSAlive, Caribou fizeram-me largar a nota sem que pensasse duas vezes para os ver no Razzmatazz. As expectativas estavam ao máximo para ver a apresentação no novo álbum Our Love. Assim que entramos na sala um nervoso miudinho apoderou-se de mim e sem deixar cair logo nas primeiras músicas tocaram a Our Love. Que lindo! Sem nunca esquecer os clássicos como Odessa ou a famosa Sun, não deixaram ficar ninguém parado. Tirando a mãe, que ali ao meu lado só ficou contente quando ele usou a flauta de bisel. Sim, eu vi Caribou com os pais de Daniel Snaith ao meu lado, tenho quase a certeza disso.  Caribou dão sempre um concerto memorável e não há outra forma de lhes agradecer se não dizendo I can’t do it without you.

Joaquim Pedro Santos:

Arctic Monkeys, NOS Alive
Se há alturas em que o trabalho se confunde com prazer, o concerto dos Arctic Monkeys no NOS Alive, foi sem sobra de dúvida uma dessas alturas. Depois de quase um ano a ouvir o AM em constante repetição, estava mortinho para ver Alex Turner e companhia a mostrar o que valia o álbum ao vivo. Do I Wanna Know marcou o início, e que início!, para uma verdadeira festa rock. Sem ligar muito ao espetáculo visual, afinal estávamos lá para ouvir música, os Arctic foram mostrando as suas obras e o público sempre a acompanhar com um coro verdadeiramente arrepiante. Nenhuma das 55 mil almas presentes no Passeio Marítimo de Algés deixava Alex Turner a cantar sozinho.

Arctic Monkeys

Alexandra Silva

Bill Callahan, Cinema S. Jorge
Noite encantadora, em fevereiro, aquecida pela voz dengosa de Bill Callahan, um dos maiores cantautores deste tempo. Incrivelmente bem disposto (contrariando a ideia de habitual mau feitio que o acompanha) sorriu, conversou, refletiu sobre a vida e sobre o amor, e fez-nos viajar por uma América perdida, que podia ser o nosso lugar. E aquela frase “If you could only stop your heart beat for one heart beat” ainda ressoa na minha cabeça.

Damon Albarn, SOS 4.8, Múrcia
Damon Albarn é uma espécie de Midas e todos os projetos em que toca transforma em ouro. Este ano surpreendeu-nos com Everyday Robots, um disco mais maduro e intimista (um dos melhores da produção de 2014, sem dúvida) e ao vivo, além das belíssimas canções do registo tocadas com os Heavy Seas of Love, ainda nos presenteou com alguns temas dos Blur. Fui às lágrimas. Perfeito!

MogwaiPrimavera Sound
Arrasador este concerto do coletivo escocês que apresentou Rave Tapes, um dos seus melhores discos (e já contam com oito!). Descargas de luz e som na fria noite do Porto encheram-me o coração e a incursão a Young Team (de 1997) não podia colocar este concerto noutro lugar que não no de melhor do festival e um dos melhores do ano.

Hamilton LeitheuserVodafone Paredes de Coura
Pode ser um pouco egocêntrico achar que Alexandra foi um dos pontos altos da edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura, mas a verdade é que, este tema, como outros de Black Hours, nos faz aceitar a paragem dos The Walkmen e abraçar de alma e coração este novo projeto de Leitheuser. Dono de uma voz e alma incríveis foi arrebatador naquele fim de tarde na tenda. Imaginem se tivesse sido no anfiteatro.

Black Angels Reverence Valada
Na primeira edição do festival voltado para sons mais psicadélicos, os reis foram os americanos The Black Angels que se estrearam em território nacional. E que excitação! Um concerto em que a expressão “malha atrás de malha” não poderia ter melhor significado e me proporcionou uma alucinante viagem sóbria e inesquecível.

Cátia Rocha

Chet FakerNOS Alive

Foi dos concertos onde me senti mais desconfortável, devido à confusão entre o público (experimentem ser arrastados, ter um casal meloso que não se cala ao lado e ainda um grupo de adolescentes a tirar selfies em todas as direções à vossa frente), mas entrou para o top dos melhores concertos a que assisti devido à irrepreensível performance de Chet Faker. Em 70 por cento dos casos, existe sempre aquele receio de que o espetáculo ao vivo não corresponda à sonoridade de estúdio. Algo que não aconteceu neste concerto. Já era fã, mas depois de o ver ao vivo, fiquei ainda mais conquistada, se é que isso era possível. A voz, a interação com o público, a presença… Recomendo!

Imagine Dragons – NOS Alive

Nunca os achei a última bolacha do pacote e só a Radioactive é que me fazia mexer. No entanto, vi o concerto de mente aberta e saí surpreendida. Uma excelente prestação vocal de Dan Reynolds, que percebe como ninguém que a magia de um concerto não é só chegar à boca de palco e… cantar. Há muito mais em jogo. Memorável: a cover de Song 2, dos Blur, ainda que isso seja sinónimo de ter descoberto que a grande maioria do público acha que existem mais “Whoo whoo” do que na realidade. Ainda que não se tenha tornado aquela banda que me emociona profundamente, sou obrigada a dar o braço a torcer e a reconhecer-lhes valor.

Ben Howard – NOS Alive
Imaginem que os unicórnios existem e que habitam a terra. Ben Howard foi mais ou menos isso, é a melhor explicação que consigo dar. Resolução para 2015: se vier a Portugal apresentar o álbum I Forget Where We Were, já lá estou.

Ben Howard

Marta Andrade

Tendo em conta que a lista já vai longa, a escolha do melhor concerto a que assisti este ano recai sobre a atuação de James Blake em Paredes de Coura. A quarta visita a terras lusas do prodígio do post-dubstep/soultronica/qualquer que seja o género em que o queiram inserir foi, no mínimo, uma experiência transcendental: ora subíamos calmamente à estratosfera, embalados pelas árias mais suaves de Overgrown, ora estremecíamos em consonância com os mais profundos sons do universo durante I Never Learnt to Share ou a aclamada cover de Limit to Your Love; passando por momentos de pura pândega eletrónica dançante, como em CMYK; para depressa nos despedirmos em lágrimas, depois da entrega total em Measurements. Paraíso? Não existe. Mas o ‘’Couraíso’’, durante cerca de duas horas, foi brindado com a presença de um anjo britânico de 1,95m.

james blake 2

 

 

Pedro Miranda

Unknown Mortal OrchestraNOS Alive

Apesar de eclipsado pela sobreposição de horários com os Bastille, o concerto dosUnknown Mortal Orchestra não deixou de ser um dos mais visivelmente deliciantes para a pequena multidão que se juntou para os ver junto do Palco Heineken do recém-batizado NOS Alive.  Em partes iguais graciosa e aterradora, a performance  dos neo-zelandeses passou por grandes interpretações dos mais conhecidos temas da ainda curta discografia da banda,sendo o público português agraciado com os hipnóticos motifs de Ffunny Ffrends,viciantes arpeggios de From the Sun ou a peculiar influência barroca de Jello and Juggernauts,sempre prolongados em bem-recebidas deambulações. Uma notável demonstração devirtuosismo lo-fi por parte de Ruban Nielson, Jake Portrait e Riley Geare, num espectáculo que acabou cedo demais para os boquiabertos espetadores.

GOAT – Vodafone Paredes de Coura

Se é verdade que o festival mais acarinhado do país não raro constitui um convite à descoberta de novos atos, nenhum concerto terá sido mais surpreendente nesta vigésima edição do Paredes de Coura do que o dos místicos GOAT. Com uma reputação relativamente limitada e procurando publicitar-se o menos possível, os mascarados suecos fizeram transbordar o Palco Vodafone FM com a sua mistura entre tendências ocidentais eritmos africanos tradicionais, aliada a um jogo de luzes e guarda-roupa que materializou o verdadeiro sentido da palavra espetáculo. Apesar de pontuais defeitos técnicos, as abismais rendições dos principais temas de World Music e a apresentação do, na altura, ainda desconhecido Commune valeram a deslocação ao palco secundário do festival nortenho. Como reis e rainhas num palácio, os GOAT maravilharam.