Depois de não reunir consenso nem no Festival de Cannes nem no LEFFEST, Mapas Para as Estrelas, o mais recente trabalho do sempre polémico David Cronenberg, chega finalmente ao circuito comercial português.

O filme funciona como uma montra do que se passa por detrás das aparências das estrelas de Hollywood. Entramos nos lares de Havana Taggart, atriz a entrar na fase descendente da sua carreira, e da família Weiss, formada por um casal que esconde um segredo ao seu filho ator e ex-toxicodependente.

Com estes protagonistas Cronenberg constrói uma história chocante e trágica, desumanizando o star system através de uma narrativa sombria e perturbadora. Aliás, todos os acontecimentos de Mapas Para as Estrelas são um verdadeiro murro visceral no estômago conduzido por um argumento minado de pequenos diálogos não aconselháveis aos mais sensíveis, quer pela sua vertente dramaticamente mais forte quer pelo seu humor negro. Pode dizer-se  (e não há como negá-lo) que o realizador caiu nuns quantos lugares comuns, estereotipando um pouco o backstage de Hollywood (não é a primeira vez que vemos “o outro lado das celebridades”) e não sendo totalmente original na abordagem do tema.

Mas Cronenberg introduz aqui e acolá uns quantos pormenores que fazem do seu filme uma experiência um pouco mais singular que a maioria de outras fitas. Os fantasmas do passado das personagens, por exemplo, vão protagonizando algumas das cenas mais perturbadoras e igualmente surreais de Mapas Para as Estrelas, e as várias revelações que se vão fazendo ao longo da história sobre os segredos que cada personagem esconde, quer dos media, quer daqueles que lhes são mais próximos, apanham o espectador de surpresa de vez em quando.

Ao longo da narrativa ficamos então presos ao ecrã com uma história que, não sendo totalmente imprevisível (numa ou noutra cena são até dados muitos indícios e pistas do que irá acontecer nos minutos seguintes), acaba por se tornar bastante interessante, graças à meia dúzia de personagens mais complexas do que parecem, à realização inteligente e aos momentos arrepiantes (física e psicologicamente) que se introduzem no enredo. Enredo esse que, devido especialmente às brilhante prestações de Julianne Moore e Mia Wasikowska, não deixará ninguém indiferente.

E talvez seja também pela inclusão de variadíssimas referências a algumas das nossas estrelas favoritas de televisão e cinema que fazem do filme um retrato mais tocante do backstage do star system. Muitos nomes famosos e reconhecidos de Hollywood são pronunciados, por vezes de uma forma não muito vantajosa, e é isso que faz com que algumas pessoas sintam mais proximamente a crítica do realizador do que aconteceria se esta fosse feita através de umas quantas personagens fictícias. Para além disso, fica sempre a dúvida se aquilo que se diz sobre este ator ou aquela atriz será mesmo verdade ou se é simplesmente alguma provocação de Cronenberg.

Fica no entanto a sensação de que o desfecho do filme foi feito muito apressadamente e que deixou muitas pontas soltas. E a cena final acaba por ser uma desilusão, não só por ser algo desinspirada mas por ser ligeiramente anti-climática, o que é dizer muito tendo em conta o tom monótono com que toda a história é contada, já que não há uma grande banda-sonora de fundo que diferencie os segmentos mais potentes e aqueles menos importantes para o seu desenvolvimento.

Mas o que fica não é um filme com um final fraco, mas sim uma obra corajosa que expõe aquilo que as grandes estrelas tentam esconder. É algo que nunca vimos antes? Não. Mas em Mapas Para as Estrelas vemos essa crítica de uma forma mais explícita que o normal, com uma história muito interessante de fundo ilustrada com imagens viscerais e alguns momentos mais fortes capazes de chocar qualquer um.

8/10

Ficha Técnica

Título: Maps to the Stars

Realizador: David Cronenberg

Argumento: Bruce Wagner

Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Evan Bird, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Sarah Gadon

Género: Drama

Duração: 112 minutos