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Carvão Negro, Gelo Fino: um outro tipo de investigação

Um filme de crime e mistério, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim e do Urso de Prata para Melhor Ator. Carvão Negro, Gelo Fino é uma história mais ou menos convencional, contada com o auxílio de técnicas menos usuais nos filmes do género, que passou cá primeiro pelo Lisbon & Estoril Film Festival, e que agora chega ao circuito das salas, num lançamento da Alambique.

É uma história que mostra vários crimes ligados por circunstâncias semelhantes, mas que estão separados por dois períodos temporais: em 1999, após separar-se da esposa, o detetive Zhang (Fan Liao) investiga um caso de homicídio, onde é gravemente ferido. É obrigado a retirar-se, e leva uma vida decadente até quando, em 2004, apercebe-se que aconteceu mais assassínios semelhantes depois daquele que investigou há cinco anos, e volta ao ativo. Entretanto, Zhang apaixona-se por uma mulher que tem uma estranha ligação com todos os crimes…

Carvão Negro, Gelo Fino começa em circunstâncias insólitas. Vemos a despedida, muito pouco formal, entre Zhang e a sua mulher, numa cena que marca o desespero do protagonista, num acontecimento que justificará o aspeto deprimente e desequilibrado do seu espírito, daí para a frente, na narrativa. Foi um divórcio, logo percebemos, e é isto que marca o início de um percurso atribulado, que quer demonstrar algo que vai mais além do que os crimes que têm de ser resolvidos no filme – porque evidencia, também, uma interessantíssima desconstrução psicológica das personagens.

E é aí que assenta a originalidade de Carvão Negro, Gelo Fino: na forma como as figuras da história se movem, sem dizerem ou fazerem aquilo que estamos à espera de ver, ou que pelo menos, encontramos regularmente em muitas “detective stories” cinematográficas (que hoje são predominantemente televisivas) do género. E para isso contribui, também, o tipo de realização que Diao Yinan impôs no filme, e que nos surpreende ao mostrar elementos fundamentais destas histórias de crime com uma outra roupagem (a cena em que vemos o desfecho da primeira investigação, que envolve algumas tragédias, está filmada num impressionante plano fixo em sequência, por exemplo).

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Apesar de várias falhas pontuais na reprodução de algumas ideias mais interessantes, não deixa por isso de ser justificável a descoberta desta peculiar peça de cinema (e que, por ter características tão próprias – e uma distribuição menos alargada – é capaz de passar ao lado de muita gente). Porque este é um dos poucos filmes que têm chegado às nossas salas e que ainda tentam fazer isso… cinema, através da transmissão de mensagens, símbolos, imagens em constante movimento, e que pedem pela nossa descodificação. Mesmo que seja elaborado com meios que, em parte, possam descaracterizar a própria arte cinematográfica (como o facto de ter sido filmado em digital), é de facto importante salientar esta preocupação do realizador em tentar fazer um filme que seja mais do que um “mero” filme.

E essas intenções não saem sempre vencedoras, mas quando acertam, acabam por criar momentos de grande impacto visual, que não podem deixar nenhum espectador indiferente. Perante tamanha estranheza sensorial, Carvão Negro, Gelo Fino aprofunda um caso criminal, não esquecendo a dimensão psicológica das situações que vai narrando, situações essas que nunca são tratadas como se de peças acessórias se tratassem. Há um cuidado e uma atenção ao pormenor notáveis que acabam por fazer a diferença – e que até nos conseguem fazer compreender as razões pelas quais o filme foi tão aclamado na sua passagem pela Berlinale.

Envolvente e intrigante, filosófico e imprevisível, Carvão Negro, Gelo Fino é um filme que revitaliza um género que se encontra, ao que parece, num estado de coma profundo no cinema – poucas são as obras que se arriscam a abordar histórias de crime, caminhando numa perspetiva mais essencialmente cinematográfica (que, como já referimos, anda a fazer muita falta), obedecendo a algumas regras clássicas e dando a volta a outras tantas, através de uma série de boas interpretações que destacam a ambiguidade das personagens, das fatalidades que as rodeiam, e dos mistérios que encerram (e que tão dificilmente poderão ser descobertos antes do desfecho).

Uma proposta curiosa e relevante para o nosso tempo e para a nossa sociedade, através daquilo que é igualmente explorado através dos crimes a serem investigados: um ambiente  urbano constantemente hostil e fechado em si próprio, que parece não ter resolução, à medida que o desespero dos seus habitantes não para de crescer. Carvão Negro, Gelo Fino é sobre isso, o desespero e a maneira como nos podemos tornar facilmente decadentes sem sequer darmos conta. Um filme que brinca ao mundo do cinema de mistério clássico sem deixar de ser contemporâneo, e uma pequena preciosidade a descobrir neste último mês do ano.

8/10

Ficha Técnica:

Título: Bai ri yan huo

Realizador: Diao Yinan

Argumento: Diao Yinan

Elenco: Fan Liao, Lun Mei Gwei, Xuebing Wang

Género: Crime, Drama, Mistério

Duração: 106 minutos

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