Desde 2002, o palco da Companhia Nacional de Bailado está virado para o Rio Tejo, em pleno Parque das Nações. Fundada em 1977 e responsável pelas primeiras produções integrais de O Quebra-Nozes, Giselle ou Lago dos Cisnes em Portugal, a Companhia abre as portas do Teatro Camões em visitas guiadas ao público em geral.

As visitas são gratuitas e têm um limite de 25 pessoas, para que exista uma movimentação mais facilitada pelos bastidores. De acordo com Cristina de Jesus, coordenadora de Comunicação da CNB, estas visitas permitem  “perceber o processo de criação até ao produto final.” Os visitantes poderão observar o trabalho do técnico de som, dos técnicos de luzes, das costureiras, do Gabinete de Comunicação, do Gabinete de Produção, assim como a orquestra, coreógrafo, figurinista, cenógrafo e todos os bailarinos. Por norma, estas visitas realizam-se no dia do primeiro ensaio de palco do próximo espetáculo da Companhia e o público poderá desvendar por alguns minutos a próxima produção da CNB.

Isto faz-se muito lá fora. Não somos inovadores neste tipo de atitude”, revela Cristina de Jesus, relativamente às visitas. Aliás, há muito tempo que esta iniciativa está presente na atividade da Companhia. Anteriormente, era maioritariamente direcionada para escolas. O público em geral apenas teria direito a esta iniciativa muito esporadicamente. A partir de junho deste ano, as visitas ao Teatro Camões começaram a acontecer antes de cada espetáculo. A adesão do público tem-se confirmado, com uma média e 11 pessoas por cada visita.

Edifício do Teatro Camões, situado no Passeio do Néptuno, Parque das Nações.

Edifício do Teatro Camões, situado no Passeio do Néptuno, Parque das Nações.

Conversa inicial

Cristina de Jesus e Pedro Mascarenhas são ex-bailarinos da Companhia Nacional de Bailado e os responsáveis pela desmistificação do trabalho da mesma nestas visitas. Numa primeira parte da visita, é realizada uma conversa mais teórica com o público. Após a Expo 98, o Teatro Camões era um dos edifícios que deveria ser destruído. Mas foram feitos projetos de transformação nos bastidores e na sua estrutura, que permitiram que se tornasse na residência da CNB, até então sem espaço próprio.

Mas como um dos objetivos desta visita é a criação da curiosidade sobre os espetáculos da Companhia, falou-se de Quebra Nozes Quebra Nozes. Este é um bailado datado de 1892 e mal recebido na sua estreia. O bailado, inspirado nos contos de Hoffmann e Alexandre Dumas, apenas conheceu o sucesso quando foi adaptado nos EUA e associado à figura do Pai Natal e a marcas como a Coca Cola.

André e. Teodósio é o encenador responsável pela dramaturgia do Quebra Nozes Quebra Nozes da CNB. Apesar de estreado no final do século XIX, o encenador irá rebuscar o bailado para o século XXI. Hoje em dia, estamos perante um Mundo influenciado por marcas e tecnologias. Será que a linguagem do século XXI estará associado a uma história do século XIX? E porquê Quebra Nozes Quebra Nozes? Crianças e Adultos encontrarão um significado conforme às suas expetativas e reflexões, daí a expressão dupla no título. Quanto à dança, manter-se-à clássica. Poder-se-à ver em palco sapatilhas de pontas e tutus. A coreografia pertence a Fernando Duarte, que também é mestre de bailado da CNB.

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Primeira versão do Quebra Nozes estreada em 1892 pelo Imperial Mariinsky Theatre de São Petersburgo.

Primeira versão do Quebra Nozes estreada em 1892 pelo Imperial Mariinsky Theatre de São Petersburgo.

Nos bastidores

Percorrendo os corredores, podemos observar vários cartazes das temporadas da CNB, mas são os camarins que fascinam os visitantes. Os vários bailarinos da Companhia Nacional de Bailado, separados por hierarquias (Bailarinos estagiários, Corpo de Baile, Bailarinos Corifeus, Bailarinos Solistas e Bailarinos Principais, em ordem crescente), dividem os camarins, com excepção dos bailarinos principais, que têm camarins mais pequenos, pois necessitam de uma maior reflexão e mudanças mais rápidas de figurinos no espetáculo.

A nossa segunda casa é o camarim”, referiu o ex-bailarino Pedro Mascarenhas. Os bailarinos passam grande parte do dia na CNB. Às dez da manhã têm uma aula de aquecimento. Depois de um intervalo de 15 minutos têm ensaios até às 13h30. Às 14h30 retomam até às 18h para fazer mais ensaios.

O sub-palco é outro dos sítios mostrados aos visitantes. Muitos efeitos na cena só são permitidos nas entranhas do palco, através das quarteladas. Ainda no interior do palco se pode ouvir o ritmo dos passos dos bailarinos, que já começaram o seu ensaio.

Além das mudanças de figurinos e maquilhagem, os camarins são espaços de reflexão antes do espetáculo.

Além das mudanças de figurinos e maquilhagem, os camarins são espaços de reflexão antes do espetáculo.

A utilização de água na peça 'Pedro e Inês' só foi possível devido à estrutura do sub-palco.

A utilização de água na peça ‘Pedro e Inês’ só foi possível devido à estrutura do sub-palco.

Na próxima fase da visita, os visitantes podem desvendar a produção do espetáculo. Numa das salas onde estão guardados adereços de figurino e guarda-roupa, trabalha Nuno Alexandre Ferreira, o figurinista de Quebra Nozes Quebra Nozes. Os figurinos desta produção serão outra das grandes surpresas. O público poderá esperar uma inovação no vestuário habitual nesta peça, onde poderão existir várias associações a situações e personagens contemporâneas. Assim como uma liberdade total de imaginação.

Também foi possível contemplar figurinos que fizeram parte da atual temporada da CNB, assim como de peças de temporadas anteriores ou pertencentes ao antigo Ballet Gulbenkian. Questionada sobre a eventualidade desta visita marcar um percurso na história da dança e o facto de não existir um museu da dança em Portugal, Cristina de Jesus responde: “Há quem já tenha pensado num museu da dança. Há propostas, mas até agora ainda não se conseguiu. E sim, a Companhia Nacional de Bailado já tem um percurso, é a única nacional. Infelizmente o Ballet Gulbenkian acabou. A responsabilidade da Companhia penso que está acrescida, muito embora o lugar da Gulbenkian é dela e o nosso é nosso. Nós não temos a presunção de ser Gulbenkian.

De figurinos mais clássicos a contemporâneos, também é desmistificada a utilização do tutu. No período mais romântico do ballet, o tutu era usado até ao tornozelo. Com a evolução da técnica, o tutu fica mais curto. Outro mito desvendado é a matéria das sapatilha de pontas. A sapatilha que permite a elevação do corpo é feita de colagens, serapilheira e adaptada ao pé de cada bailarina.

Passando pelos corredores, onde os visitantes podem observar os fatos de Quebra Nozes Quebra Nozes, visita-se o estúdio das costureiras. Todos os fatos idealizados pelos estilistas e figurinistas convidados pela Companhia são executados aqui.

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Figurinos da Peça 'Tempestades'

Figurinos da Peça ‘Tempestades’

Figurinos do Ato II do 'Lago dos Cisnes'. Este é o tutu do período romântico.

Figurinos do Ato II do ‘Lago dos Cisnes’. Este é o tutu do período romântico.

Figurinos do 'Lago dos Cisnes'. O casaco utilizado pelo bailarino é designado de gibão.

Figurinos do ‘Lago dos Cisnes’. O casaco utilizado pelo bailarino é designado de gibão.

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15 minutos de Quebra Nozes Quebra Nozes

Após a passagem pelos bastidores, chegou o momento de desvendar um pouco de Quebra Nozes Quebra Nozes em palco. Este foi o dia do primeiro ensaio de palco, o dia do primeiro confronto entre o elenco da Companhia Nacional de Bailado e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida por José Miguel Esandi.Este é um momento de pára-arranca”, explica Cristina de Jesus. Os bailarinos têm de transferir os movimentos do estúdio para palco, adaptar-se aos ritmos de uma orquestra ao vivo e aos figurinos.”

Na sala estão todos os bailarinos, coreógrafo, figurinista, cenógrafo e técnicos. Pela primeira vez, está a observar-se um trabalho que se iniciou em junho, quando se começaram a apresentar os figurinos, a encomendar a roupa, ou a fazer apontamentos coreográficos. O trabalho de estúdio está a decorrer há dois meses.

Quebra Nozes Quebra Nozes leva a palco, a partir de dia 5 de dezembro, quase todo o elenco da CNB. Os bilhetes da estreia já estão quase esgotados. Cristina de Jesus evidencia que os espetáculos mais clássicos da Companhia Nacional de Bailado têm maior afluência, em comparação com as peças mais contemporâneas. Contudo, para a coordenadora de Comunicação da CNB “A nossa função também é dar a conhecer o outro lado. Não é só dar a conhecer o que já se conhece.”

A próxima meta será conquistar o público estrangeiro, algo que já aconteceu nesta temporada. Para Cristina de Jesus, será algo que acontecerá progressivamente: “As peças das Companhias não são faladas nem em português, nem em espanhol, nem em francês, nem em inglês… A linguagem  da Dança é universal, é o corpo que fala.”

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Imagem do primeiro ensaio

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Imagem do primeiro ensaio

Outros Projetos de Aproximação

A Companhia Nacional de Bailado tem vindo a criar um processo de aproximação ao público. Além destas visitas, também já se realizam conferências – conversa com especialistas sobre os temas transmitidos em palco. “O espetáculo é um todo. Tem música, tem literatura, há sempre matemática, tem história e dança obviamente”, explica Cristina de Jesus. Nestas conversas, o público tem a oportunidade de fazer questões e contactar diretamente com coreógrafos ou encenadores do espetáculo. Em média, têm estado presentes 20 pessoas por conferência. A CNB pretende ainda atrair mais público para este registo reflexivo e descontraído da compreensão da peça.

Outro dos projetos acontece com as escolas. Durante uma tarde, os alunos têm a possibilidade de contactar com alguém ligado ao espetáculo e, depois, podem assistir gratuitamente ao mesmo. Afinal, “A Companhia Nacional de Bailado funciona como serviço público. Nisso nós estamos muito orgulhosos”, acrescenta Cristina de Jesus.