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Boca de Cena #3: A versátil simpatia de Rui Mendes

Eis que após um hiato prolongado, o Boca de Cena regressa revigorado e re-imaginado num novo formato quinzenal para escrutinar o génio criativo das inúmeras figuras que coloriram, e ainda coloram, o nosso teatro das mais vibrantes cores. O escolhido para protagonizar o arranque da nova temporada desta rubrica é Rui Mendes.

No passado, a secção Palcos havia estreado uma nova rubrica de teatro. Boca de Cena era um espaço mensal onde se homenageavam figuras proeminentes do teatro português. Para se figurar nos anais destes artigos de fundo era necessário ser-se um individuo inconfundível dentro do meio, ter oferecido bastante à arte do teatro e ter enchido a memória colectiva dos lusófonos de variadas emoções e gigante apreço. Atores como Eunice Muñoz e João Perry certamente fizeram isso e mais que mereceram este mero gesto simbólico. Hoje, é a vez de Rui Mendes.

Presença assídua quer na televisão, quer no teatro, Rui é um dos actores mais adorados de Portugal. E a sua notoriedade é algo que transcende mais do que uma geração. Seja pelas gargalhadas em Duarte e Companhia na televisão ou pelas emoções que despontou no seu vasto espólio teatral, a presença simpática de Rui Mendes merece uma revisita alargada e é para isso que esta rubrica regressa.

O actor nasce em Coimbra, em 1937, filho de pais lisboetas. Alias, Lisboa será a cidade que o acolhe por grande parte da sua vida e onde desenvolverá a sua carreira artística, ainda por vir. Em 1955, esta dita carreira começaria a dar os passos embrionários quando, após terminar o Liceu em Lisboa, cria os cenários para a peça de estreia do grupo de teatro da Faculdade de Direito de Lisboa. Tratava-se de As Surpresas do Regresso, uma obra de Plauto, e foram feitos em colaboração com o pintor Rafael Calado. Já aqui se podia evidenciar a visão de Mendes no teatro. Visão alargada, pois como sabemos, veio a desempenhar diversas funções nesta arte para além de actor, entre as quais encenador e professor na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Um jovem Rui Mendes prepara-se para construir uma agora lendária carreira
Um jovem Rui Mendes prepara-se para construir uma agora lendária carreira

O ano seguinte vê o ainda-para-ser-ator a dar entrada na Belas Artes de Lisboa para tirar o curso de arquitectura. Paralelamente, figura no elenco de A Ilha do Tesouro no Teatro da Trindade. Esta peça marca sua estreia no teatro profissional onde um ainda tímido Rui Mendes se fazia notar, dentro da Companhia Teatro do Gerifalto. E foi nesta organização que permaneceu durante cinco anos a desempenhar funções como actor e cenógrafo. Durante este período trabalhou também na empresa Vasco Morgado, no Teatro Popular de Lisboa e figurava em várias peças de teatro radiofónico para a RTP. Tudo isto enquanto investia na sua formação académica. Em 1961 estreia-se no ecrã prateado com o filme D. Roberto. A carreira de actor de Rui Mendes a este ponto ia lentamente tornando-se mais prolifera e activa até que neste mesmo ano foi forçado a interrompe-la, juntamente com os estudos. Em causa estava o serviço militar que teria de vir a cumprir em Portugal e Angola entre 1961 e 1964.

O curso de arquitectura, perto do fim, nunca viu efectivamente a sua conclusão, isto porque, em ’64, altura do seu regresso dos afazeres militares, Rui Mendes decidiu ocupar-se exclusivamente do teatro. Ingressa no Teatro Moderno de Lisboa e em 1966 forma com Irene Cruz, João Lourenço e Morais e Castro, o Grupo 4, que estreia a peça Knack em 1967 no ilustre Tivoli. Pontualmente ia intercalando esta actividade artística com trabalhos de arquitectura ou ilustração. É principalmente a partir desta década de 60 que vemos o nosso actor a inserir-se gradualmente neste meio, piscando o olho à parte da escrita criativa dos espectáculos e conceptualizando ele próprio alguns espectáculos, ao mesmo tempo em que integrava várias e distintas companhias, como o Teatro Monumental e o Teatro Nacional Popular.

Uma dos seus contributos mais proeminentes na área. O Teatro Aberto estava nesta altura a ser conceptualizado.
Uma dos seus contributos mais proeminentes na área. O Teatro Aberto estava nesta altura a ser conceptualizado.

Esta parte directiva e criativa assume a sua estreia quase na viragem para a década seguinte. 1968 é o ano em Rui Mendes assume deveres de encenador para dar vida e cor a O Mestre, de Ionesco. Este foi um espectáculo inserido nos anais de mais uma instituição teatral entre as já inúmeras onde colaborava: O Grupo de Teatro da Philips Portuguesa. Como se isso não bastasse, o actor decide passar um atestado de pro-actividade ao embarcar num frenesim teatral entre 1969 e 1973. Neste período, ressuscitou a actividade do Grupo 4 e apareceu em duas revistas para o Teatro ABC. O Teatro era definitivamente a causa que Rui Mendes pretendia defender e o meio por onde pretendia obter reconhecimento. Mais tarde, neste período participou ainda num curso de actores dirigido por Adolfo Gutkin.

É por esta altura de intensa actividade teatral que Rui Mendes vinca a sua figura como uma das mais proeminentes e dinâmicas dentro do meio. A sua capacidade e talento são reconhecidos e aplaudidos pelo público nos anos derradeiros do Estado Novo ao lado de personalidades igualmente aclamadas como João Perry e outras que já demonstravam serem donas de um futuro gigante como João Lagarto. Este reconhecimento chegou até ao SNI e, naquela altura chamado SEIT,e à Crítica, que decidiram contemplar o artista com os prémios de Melhor Actor do Ano em Teatro Musical. Rui Mendes mostrou aqui a sua atitude vincada e revolucionária ao recusar publicamente estes dois galardões por repudiar a Censura e protestar contra o Regime e a falta de apoio que o mesmo prestava ao teatro português. Isto levou a que ele, tal como outro, fosse proibido de trabalhar na RTP, a emissora nacional, devido às suas posições políticas assumidas, que obviamente chocavam com as dos órgãos institucionais.

Uma das muitas peças que encenou, As Três Irmãs, no Teatro da Cornucópia
Uma das muitas peças que encenou, As Três Irmãs, no Teatro da Cornucópia

Não foi, contudo, esta situação, que reduziu o fluxo criativo do artista. Seguem-se colaboração com grandes encenadores como Luís Miguel Cintra, João Mota, Francisco Ribeiro, entre outros, com os quais produziu e figurou em grandes momentos de teatro português. Foi nestes anos de 1969 a 1972 que peças como Amanhã digo-te por Música, Saídas da Casca e Insulto ao Público viram a luz do dia com o contributo do sempre entusiasta Rui Mendes. Esta vertiginosa actividade sucedeu-se até ao fim do regime em ’74, ano que viu o actor ajudar a criação da fundação Adóque para além da construção do Teatro Aberto (projecto que também conceptualizou). O ano seguinte preconiza a actividade contínua do Grupo 4, que conta com a participação do actor até 1980, grupo este, responsável por tratar da estreia do Teatro Aberto em 1976, com um espectáculo de Bretold Brecht, O Círculo de Giz Caucasiano.

Em 1979 casa com Maria José Junqueira Mendonça, de quem tem um filho e uma filha, constituindo assim, num período mais calmo e mais afixado, uma família, entre 1979 (primeiro filho) e 1984 (segundo filho). Período este, também corresponde à sua popularidade massas ao figurar assiduamente na televisão, graças a notórias séries como Gente Fina é Outra Coisa e Duarte e Companhia (série televisiva de tremendo sucesso que cimentou o seu lugar na memória e adoração do público português, graças à carismática personagem que representava).

http://youtu.be/lkT0m97a-hU

Nos últimos tempos, Rui Mendes continua a tendência que iniciou em 1975, focando-se muito na encenação e a representação em companhias e instituições de grande porte e história, como o Teatro da Cornucópia, o Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro da Malaposta, o Teatro da Trindade, entre outros. O actor destacou-se não apenas por ser um trabalhador extremamente prolífero, mas também pela variedade dos projectos em que inseria. Como verificamos por esta pequena listagem acima, Rui Mendes ora colaborava no teatro de massas, nas revista e em espectáculos mais populares, como também se aventurava no teatro jovem, mais arriscado e experimental. Por isso é que no seu repertório, o interprete pode incluir autores tão distintos como Shakespeare, Beckett, Cocteau e Plauto; bem como peças variadas como As Três Irmãs (1988), A Louca de Chaillot (1995) e Vermelho Transparente (2006).

Um defensor acérrimo da arte de fazer teatro e um dos seus maiores dinamizadores a nível nacional, Rui Mendes é uma máquina da representação e conta com um dos catálogos mais ricos dentro da sua área. Conhecido por todos nós pela sua figura simpática e personagens carismáticas e bem dispostas que representa, é um actor que já merecia ser aqui referenciado pelo seu contributo, quer na representação, quer na encenação, quer na parte técnica e criativa que desempenhou em alguns espectáculos. Aqui está um artista que certamente será recordado por muitos anos com boas memórias. O Boca de Cena regressa daqui a duas semanas. Até lá, as cortinas fecham, prometendo uma subida muito em breve.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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