Nos dias 28 e 29, o Vodafone Mexefest coloriu Lisboa de tons de vermelho mas sobretudo de sons variados que ressoaram nos vários palcos da Avenida da Liberdade e zonas envolventes.  

Às primeiras horas da noite de sexta-feira, dia 28, a Rua das Portas de Santo Antão, onde fica situado o Coliseu de Lisboa, local de encontro para colocar pulseiras do festival, encontrava-se já numa agitação invulgar. Ainda que o Teatro Politeama e os turistas animem, geralmente, aquela rua, naquele dia havia muito mais gente que, entre uma cerveja e um chocolate quente, ia consultando horários e fazendo escolhas.

Pelas 20h30, já uma longa fila se fazia para tentar entrar na Igreja de S. Luís dos Franceses, onde tocava a dupla sueca JJ. Na impossibilidade de entrar, muitos rumaram ao S. Jorge, onde Capicua dava show de rap e intervenção social e outros à Estação Vodafone.FM, onde Sinkane, vindo de Brooklyn mas com sangue do Sudão, seduziu os presentes com sons quentes africanos misturados com eletrónica, funk, soul e jazz.

Sinkane 6

Mantendo o ritmo, rumamos ao Coliseu dos Recreios, sala demasiado grande (mesmo assim) para o vozeirão de Merrill Garbus. Em palco tUnE-yArDs apresentou-se com o apoio de mais duas vozes, que contribuíram igualmente na percussão e na performance para um momento de festa e celebração da vida.

Tune-Yards 2

De seguida, enquanto uns escolheram ver Kindness (e dizem alguns que terá sido o melhor concerto do festival), outros escolheram os sons psicadélicos dos australianos com o nome mais cool da edição: King Gizzard & The Lizard Wizard. Em palco sete elementos de tenra idade mas maturidade musical inundaram a Garagem da Epal, com riffs esquizofrénicos e viagens alucinogénicas. Um nome a seguir.

King Gizzard & the Lizard Wizard 2

A noite haveria de terminar (para muitos) com o concerto mais produzido do festival. St. Vincent chegou, viu e venceu num Coliseu praticamente cheio para a ver apresentar os temas do seu registo homónimo, lançado este ano. Num impecável vestido à anos 20, com collants rasgados, empunhou a guitarra com uma classe que (quase) só ela tem e que fez vibrar a sua voz para um público dedicado e conhecedor da artista.

Com cada passo impecavelmente medido, cada história narrada (e foram várias) meticulosamente estudada, cada pormenor pensado (desde a pose com a guitarra passando pelos degraus instalados no meio do palco, ou até o crowdsurf que fez nos braços das primeiras filas), Annie Clark esqueceu-se do mais importante: a espontaneidade e o talento que lhe escorrem da guitarra, que acabou por se dispersar no meio de tanto adereço.

St Vicent 11

No sábado, o pontapé de arranque foi dado por Adult Jazz, no Cinema S. Jorge. O quarteto de Leeds veio apresentar o seu disco de estreia Gist Is e, pelo que vimos, tem já um conjunto assinalável de fãs em Portugal. Com construções musicais complexas e uma estrutura formal pouco vulgar no indie pop, chamam a si uma atenção que vamos querer seguir.

Adult Jazz 5

Apanhando o shuttle que a organização disponibiliza para facilitar o esforço físico aos festivaleiros, chegamos de seguida ao Coliseu dos Recreios, para ver um dos concertos mais desejados deste festival. Sharon Van Etten, dona de um dos discos mais intensos do ano – Are We There – chega ao palco acompanhada de mais músicos, onde se destaca a voz feminina de Heather Woods Broderick, que a acompanhou também nos sintetizadores.

Bem disposta com a vida, Sharon fala muito com o público, brinca com o homem que quer ter os filhos dela (“Vocês estão muito à frente, Portugal!“), e até se espanta por alguém ter o nome dela escrito na face. Parece compreender mal como conhecemos a música dela (“Viva o YouTube”, diz) e as letras de fio a pavio.

Mal sabe ela que ouvimos o seu disco um cento de vezes e que queríamos ir ali reviver a dor que ele nos transmite e libertar as mágoas da mesma forma que fizeramos há dois anos no Lux, por altura do lançamento de Tramp. Mal sabe ela que precisávamos de ter chorado as pedras das infindáveis calçadas de Lisboa ao som das dilacerantes Taking My Chances, I Love You But I’m Lost ou Your Love is Killing Me (uma das músicas do ano). Mal sabe ela que não conseguimos desenlaçar o nó da garganta porque a sua boa disposição, a sua voz confundida no meio de tantos arranjos musicais e a falta da crueza da guitarra não nos permitiram isso. Foi bom, mas queríamos que tivesse sido inesquecível.

Sharon Van Etten 1

Pouco depois, haveríamos de ser salvos por Perfume Genius, também ele autor de um dos discos do ano e que mostrou ao S. Jorge cheio e com grande fila de espera, que apesar da fragilidade da sua figura e das letras das suas canções, quando se senta ao piano ou dança invulgarmente em cima dos seus saltos, torna-se um animal feroz e destemido. Passou pelos temas de Too Bright deixando para o fim a fabulosa Queen. Maneira perfeita para encerrar o Vodafone Mexefest deste ano.

Perfume Genius 6

 

Fotos de Cátia Duarte Silva