A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Com 5 anos apareceu pela primeira vez no grande ecrã. E apesar de serem participações sem o maior relevo, Natalie Wood começou a dar nas vistas logo nos primeiros anos de carreira. Aliás, Wood destacou-se por ter recebido 3 nomeações aos Oscars antes de ter 25 anos. Uma atriz que acompanhou a evolução da era clássica de Hollywood (mais as revoluções que sofreu o establishment), e que nela brilhou, até à década de 60, como poucas outras artistas da sua geração. Colaborando com grandes realizadores e fazendo par com algumas das maiores estrelas da época, Wood sobreviveu ao tempo graças ao imaginário cinematográfico que cresceu do seu trabalho. Hoje recordamo-la como uma atriz que entrou em alguns dos mais célebres e imitados filmes americanos.

Nasceu a 20 de julho de 1938, com o nome Natalia Nikolaevna Zacharenko. Viria a morrer demasiado cedo, aos 43 anos, em circunstâncias que, até hoje, são desconhecidas. Mas o facto de ter começado logo tão cedo uma carreira na indústria do cinema ajudou a que esta atriz desenvolvesse competências precoces. Nos últimos anos de vida, participou em projetos no cinema e na televisão menos prestigiados, mas nunca perdeu o engenho. Porque ela não foi apenas um fenómeno juvenil, à semelhança de Shirley Temple, mas um outro fenómeno, que cresceu a acompanhar a cada vez maior espectacularidade dos filmes de Hollywood, e que soube escolher alguns dos maiores projetos de cada década.

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Após alguns papéis menos reveladores, é no ano de 1947 que encontramos os primeiros filmes que chamaram a atenção dos meios de comunicação social para Natalie Wood, que rapidamente se aperceberam que aquela era a maior estrela infanto-juvenil do seu tempo. Com 9 anos de idade, Natalie Wood teve a oportunidade de trabalhar com algumas das maiores vedetas de Hollywood, como Maureen O’ Hara e George Sanders, em três filmes de sucesso que marcaram esse ano: Driftwood, uma história familiar realizada por Alan DwanDa Ilusão Também se Vive, de George Seaton, uma comédia dramática que é hoje um dos maiores clássicos da quadra natalícia; e O Fantasma Apaixonado (o filme mais aclamado deste trio), de Joseph L. Mankiewicz, a história clássica de uma jovem viúva que cria uma relação com o fantasma que vive na sua casa de praia.

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Depois de alguns anos a desempenhar personagens secundárias, é na década de 50 que Natalie Wood começa a ganhar um estatuto e uma fama semelhante aos maiores atores da época, deixando de ser apenas uma “estrela jovem com talento” e tornando-se numa artista requisitada por vários grandes realizadores. Um deles foi Stuart Heisler, que a escolheu para contracenar com a magnífica Bette Davis no filme A Estrela, de 1952. É uma história sobre Margaret Elliot, uma estrela de cinema decadente que busca uma nova ascensão mediática. Nela, Wood é Gretchen, a filha de Margaret. Dela, a protagonista tenta esconder os seus problemas e desesperos.

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Três anos depois, Natalie Wood encarna uma das suas personagens secundárias mais memoráveis, que lhe valeu a primeira nomeação ao Oscar, num filme em que esteve ao lado de um dos atores mais imitados de todos os tempos. Realizado pelo Mestre Nicholas Ray, Fúria de Viver é o retrato de uma juventude em revolta, de “rebeldes sem causa” que se queriam libertar das contradições sociais e familiares que os envolvem. O filme foi uma pedrada no charco naquele tempo, e as suas repercussões continuam, surpreendentemente, a fazer-se sentir hoje, à medida que as novas gerações se identificam com o estilo das personagens interpretadas por James Dean e Wood. Fúria de Viver é um hino à juventude como poucos no cinema clássico norte-americano, e talvez por isso conseguiu envelhecer tão bem passados tantos anos.

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No ano seguinte, foi a vez de trabalhar com John Ford, naquela que é vulgarmente considerada a sua maior obra-prima, influência para vários cineastas: A Desaparecida. Western negro e profundo protagonizado por John Wayne, é uma travessia lendária pelo Monument Valley em que Ethan Edwards (Wayne) procura, durante anos, a sua sobrinha Debbie (Wood), que fora sequestrada por uma tribo de índios. Numa jornada por montes e vales, Ford filma um drama sobre preconceito genial, nas belíssimas paisagens do Monument Valley, que marcou esta nova etapa fulgurante da atriz, num desempenho incrível que, tal como o de Wayne, mostra a dualidade psicológica das personagens que compõem esta narrativa.

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Outro papel de relevo surgiria já no princípio da década de 60, quando o realizador Elia Kazan decidiu escolher Natalie Wood para fazer par com Warren Beatty, no mítico Esplendor na Relva [1961]. Um filme controverso, que gerou um grande culto ao longo dos anos, sobre um romance clandestino, controlado por uma sociedade estritamente ligada ao poder  e à reputação de uma classe dominante sobre todas as outras. Uma obra inesquecível de um novo cinema que queria emergir em Hollywood, e que valeu a Natalie Wood mais uma nomeação para os Oscars, desta vez na categoria de Melhor Atriz Principal.

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Apesar de Esplendor na Relva ter sido nomeado aos prémios da Academia, quem viria a vencer na edição desse ano seria West Side Story – Amor Sem Barreiras, um filme que arrecadou dez estatuetas… e que foi também protagonizado por Natalie Wood! Numa outra história de amor, num estilo inspirado no celebérrimo romance trágico shakespeariano, Wood contracena com Richard Breyner, num musical realizado por Robert Wise que, tal como em Romeu e Julieta, centra-se nas lutas entre dois gangs rivais, e neste romance que acontece entre um membro de um dos grupos e uma rapariga pertencente ao oposto. Com as fabulosas composições de Leonard Bernstein, West Side Story é um dos musicais mais conhecidos de Hollywood, e um dos papéis mais surpreendentes de Natalie Wood.

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Ainda nessa década, Natalie Wood destacou-se por outros papéis, como em Gypsy, a Cigana [1962], um filme assinado por Mervyn LeRoy, baseado no sucesso dos palcos da Broadway, sobre a vida da dançarina Gypsy Rose Lee. Mas em 1963, Wood tem um desempenho que lhe proporcionou, pela terceira e última vez, uma nomeação da Academia, em Amar um Desconhecido. Neste filme comovente de Robert Mulligan, ela protagoniza, ao lado de Steve McQueen, uma história cómica e dramática sobre um romance atribulado entre um médico e uma mulher.

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Por fim, vale a pena destacar, ainda, dois outros desempenhos dos anos 60: o primeiro é o de A Grande Corrida à Volta do Mundo, comédia de Blake Edwards de 1965, que se passa no início do século XX, e em que Natalie Wood atuou ao lado de Tony Curtis e Jack Lemmon; o segundo é de 1966, no filme Flor à Beira do Pântano, realizado por Sydney Pollack, um drama romântico onde o par principal é interpretado por Wood e Robert Redford.

Estes são alguns dos filmes essenciais para se descobrir o lado marcante de uma atriz única no panorama de Hollywood. Natalie Wood foi um enorme e lindíssimo talento de Hollywood que irá reaparecer em breve nos cinemas, quando for lançada, em 2015, a versão recuperada de The Other Side of the Wind, filme inacabado de Orson Welles, rodado nos anos 70. Mas desde a década de 30 até à sua morte (com aparições cada vez menos regulares no cinema e na TV a partir dos anos 70, quando decidiu afastar-se mais da vida artística), Natalie Wood nunca parou de impressionar os seus seguidores. Uma jovem estrela que cresceu no cinema e que deixou, para a posteridade, um conjunto inigualável de fitas importantes na evolução do cinema americano.

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