O Espalha-Factos foi ao encontro de Nelson Freitas, autor do hit Bo Tem Mel, para saber qual foi o background deste cantor cabo-verdiano que nasceu na Holanda. Nos escritórios da SONY Portugal, onde Nelson Freitas nunca sonhou estar, contou-nos como foi o início do percurso musical até a carreira a solo que sempre quis e que conquistou.

Espalha-Factos: Como foi crescer na Holanda com as influências musicais da altura, nomeadamente Michael Jackson?

Nelson Freitas: Eu comecei a ouvir Michael Jackson porque tinha músicos cabo-verdianos a frequentar a minha casa […] Eu comecei como bailarino, depois tive um grupo de dança e depois uma banda com uns amigos […] Começamos de brincadeira mas depois deu-se o ‘boom’ e fizemos um CD. Foi o início de tudo. Se a primeira música não tem sucesso, hoje não estaria aqui.

EF: Qual era o nome da música?

NF: Hoje Em Dia.

EF: E quais foram as influências que te levaram até aí?

NF: Hip-hop… os produtores do Michael Jackson, muito hip-hop mesmo. E R&B. […] Na primeira música, fazia rap com a batida por baixo e a cantar o refrão. Mas eu não sou um bom rapper [risos] Hoje já não dá, não dá.

EF: Como é que conseguiram chegar até as editoras?

NF: Nesta altura, na Holanda, só existia uma editora que fazia todos os discos de Cabo-Verde. Todo o mundo assinava com eles. Para nós era a única possibilidade… e depois viajar porque a nossa ambição, nessa altura, era mesmo viajar. Não era ganhar dinheiro. Era só viajar e ver o mundo. Tivemos sucesso em Angola, Moçambique, aqui em Portugal – mais em Lisboa e Porto…

EF: No entanto, a carreira em grupo fica por aqui. Quando é que decidiste dar o salto para uma carreira a solo?

NF: Quando nós estávamos a fazer o último CD, eu já tinha decidido que queria uma carreira a solo. Para não deixar assim de repente, ainda fiz aquele último CD com eles. Depois lancei o meu disco, em 2006, porque já tinha outras ideias. Um outro estilo, um outro caminho. Isto porque num grupo de quatro elementos todos tem os seus 25%. Eu preferi dizer: “I’m the boss!” [risos]

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EF: Mas tiveste de aprender a parte da produção. Era algo que já sabias?

NF: Eu estive muitos anos em casa da minha avó, onde morava o meu tio, que era DJ e produtor. Perguntava sempre: “como é que se faz isto assim?” e ele ensinou-me. Ele pegava naquilo, mexia nos botões e vinha música. Para mim era uma coisa estranha. De onde vinha aquele som para a minha cabeça? Para ouvir música, ouvia-a no rádio ou na televisão. Ali eu comecei a mexer também e, com mais experiência, comecei a saber fazer também. Agora eu consigo fazer uma música! [risos] Tive aulas de piano, tive aulas de voz, para saber como adaptar a voz. Se eu estiver constipado, eu canto de forma diferente. Se tenho dor de garganta, eu consigo cantar, mas tenho de cantar diferente. O piano foi mais para saber a questão do tom, das notas [musicais], e assim.  […] Há pessoas que tem voz mas não sabem se estão no tom. Eu aprendi isso através do piano.

EF: Quanto estás a solo, no início, decides que o Nelson Freitas vai ser o quê? Que artista?

NF: Passo a passo. Quando eu comecei no grupo era só para curtir e viajar, vamos as discotecas… tem álcool e não é preciso pagar? Boa! [risos] Depois quando comecei a carreira a solo, eu ainda não sabia se ia ser uma profissão… Depois dou o passo em frente: como é que vamos gerir a imagem, os vídeos que custam dinheiro, etc. Passo a passo. Nada passa daqui para ali [gesticula].

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EF: Quais foram os teus primeiros passos?

NF: Quando eu fiz o meu disco, o Magic, tive de ser eu, o meu irmão e o meu tio porque ninguém acreditava nisso. As editoras não estavam nessa onda…

EF: Mas em termos de estilo de música?

NF: Sim, imagina a SONY Music há dez anos com kizomba. Nunca… Bati em todas as portas [simula o gesto e som]. Mas agora eles vêm. Querem porque agora está na moda, mas eu gosto de acreditar que o melhor foi eu ter de criar a minha editora. Tudo o que eu aprendi foi ali. Eu sei escrever, produzir, qual é a fábrica para enviar: “you name it and I know it” [risos].

Nelson Freitas atua hoje o MEO Arena.