É pela segunda semana consecutiva que o Espalha Factos se rende ao hip-hop e ao rap para mostrar o que de melhor se tem feito neste campo nos últimos tempos.Na edição passada da Lista Polifónica escrutinámos nomes como Yung Lean, Danny Brown ou Flatbush ZOMBiES. Mas existe muito mais neste tão vasto universo que ainda não foi mencionado.

Desde os projectos mais experimentais aos artistas mais nostálgicos que pretendem reavivar a estrutura clássica do género. Esta semana, a secção Música traz-te mais cinco sugestões frescas para ouvires. Vamos então proceder aos nomes:

Earl Sweatshirt

Thebe Neruda Kgositsile reúne todas as condições que o colectivo Odd Future preconiza: letras confessionais, de tom gráfico e negro; um timbre assombrado, céptico e bruto; e como não podia deixar de ser, uma produção de luxo feita de beats ora ácidos e cerebrais, ora oníricos e nebulosos. A sua mixtape, Earl, valeu-lhe o reconhecimento e aclamação internacionais, bem como uma situação bastante peculiar: a sua mãe colocou-o num colégio interno em Samoa até ao seu 18.º aniversário. Depois disso, lança o seu primeiro disco, Doris. Vívido, mordaz e fluente, Earl Sweatshirt, a solo ou com os seus Odd Future, permanece como dos talentos jovens mais  brilhantes do género.

clipping.

Vindos de Los Angeles, California, clipping. é um trio de hip-hop experimental e um dos raríssimos casos de projectos relacionados com o rap a serem representados pela mítica Sub Pop (reconhecida precisamente por ser uma editora orientada para o rock alternativo). Deste grupo retira-se a atitude desafiadora com que encaram a arte de fazer beats, com as composições a roçarem o campo do noise, o que já lhes garantiu comparações aos defuntos Death Grips e até a projectos que nada têm a ver com o universo hip-hop, como os My Bloody Valentine. O primeiro disco, CLPPNG, saiu este ano e trouxe consigo uma tempestade de beats industriais altamente agressivos. Por cima disto, temos os autênticos trava línguas e o flow supersónico do MC Daveed Digs. Ouvir clipping. É de homem.

Stereossauro

Agora uma entrada portuguesa. Stereossauro tem atingido proeminência no plano nacional ao colaborar em produções com nomes como Valete e Orelha Negra. Mais recentemente, tem acompanhado Capicua em algumas digressões. Este artista distingue-se dos restantes da lista por ter se destacar predominantemente na parte da produção, tendo geralmente vozes convidadas para dar mais vida aos seus temas cheios de cor e boa onda, entre as quais se destacam Dealema e Xeg. Stereossauro assume-se como um dos nomes mais refrescantes do hip-hop português dos últimos tempos precisamente pelo estilo variado e geralmente acessível do seu trabalho. Esta semana, poderás certamente espreitar o seu valor no Vodafone Mexefest. O seu primeiro disco, Bombas e Bombos, está disponível na NOS Discos.

Joey Bada$$

Voltamos agora ao lado Este. Jo-Vaughn Scott é um dos pontas de lança do colectivo Pro Era, que reúne alguns dos talentos mais jovens e promissores do hip-hop nova iorquino. E é vindo directamente de Brooklyn que este jovem de 19 anos lança a sua primeira mixtape, 1999, e atinge uma enorme aclamação crítica. Ao ouvirmos o corpo do seu trabalho, somos convidados a recordar ecos de alguns dos projectos mais gigantes dentro deste género. Em Bada$$, ouvimos a insatisfação revolucionária de Public Enemy, o flow de patrão de Biggie e a dinâmica sonora e frenética de Wu Tang. Contudo, há muito mais para descobrir na música deste nova-iorquino. Resta aguardar o lançamento do primeiro disco que está previsto para janeiro do próximo ano. Até lá, temos as mixtapes sucessivas para aguçar o apetite.

Ab-Soul

A rubrica despede-se com o sol do lado californiano da vida. Ab-Soul forma ao lado de nomes como Kendrick Lamar e Schoolboy Q, o colectivo Black Hippy, e segue a mesma escola dos seus colegas: letras autobiográficos e introspectivas e um estilo clássico da West Coast, inspirado sobretudo no espólio de Tupac. Onde Soul se distingue, no entanto, é numa veia ligeiramente mais comercial e espampanante, principalmente na produção dos seus beats, que são geralmente estridentes e feitos para os passos de dança. Contudo, existem aqui três álbuns independentes de qualidade sólida que servem como uma boa alternativa para se ouvir dentro do género, ou mesmo dentro do mesmo movimento de onde Ab-Soul está inserido.

A residência do hip-hop na Lista Polifónica chega assim ao fim. Pega nestas sugestões e diz da tua justiça. Para a semana, há nova edição, com uma nova temática.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945