Antes das luzes se apagarem, Buffalo pode chamar a atenção pelo casal lésbico a ser interpretado em cima do palco e pela natureza amorosa entre as três personagens. Mas o enredo vai muito além desse pormenor. Tal como o criador afirma, a emoção é intensa neste “casal do mesmo sexo, como o seria de outra forma” e todos os acontecimentos colocam centenas de questões nos espectadores.

Entra pouca luz no pequeno Teatro-Estúdio Mário Viegas, nas traseiras do São Luiz, à medida que as pessoas vão entrando. Resguardado nas traseiras do edifício, quem sabe para não existirem estilhaços da intensidade prometida, a pequena sala é o local ideal para apresentar a peça de Alexandre Tavares, criador e responsável pela direção artística, cenografia e texto (com outro escritor). As atrizes encontram-se em palco e oferecem uma brisa suave das personagens, que vão interpretar na primeira noite de espectáculo. Há uma sede insaciável por tabaco e desespero estampados no rosto de São José Correia, urgência na forma como Maria Ana Filipe pretende usar a arma contra a própria cabeça e um descanso na posição, quase celestial, de Carla Galvão. Cada uma a transparecer uma parte da personalidade a ser interpretada em pouco mais de uma hora. Desligam as luzes e o universo destas três mulheres inunda repentinamente as sensações da audiência.

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Há mais probabilidade de existirem fragilidades quando uma história é contada no sentido inverso. Ou, por outras palavras, é mais difícil contar um enredo a partir do fim. No início, São José Correia já se encontra na casa do casal, interpretado por Maria Ana Filipe e Carla Galvão. Uma casa composta por um sofá desgastado, garrafas com bebidas alcoólicas, uma banheira colocada em pé e o que foi o pedaço de uma porta. Uma cenografia longe de estar dentro dos padrões usuais, vulgares ao olho humano. Maria Ana e São José, a visita inesperada, estiveram envolvidas num passado distante e arrumado na vida de cada uma destas personagens. Há uma loucura demasiado intensa na personagem de São José, nunca se sabe se começa pela morte do pai – referida em momentos frágeis entre o casal – se por sentir saudades da antiga companheira. Uma loucura refletida na intenção de manipulação na companheira da antiga amante, ou na necessidade em partilhar a nostalgia do passado com a ex-amante. Quando se conheceram naquele bar, quando bebiam demasiado à noite, à medida que relembra a intimidade que tinham.

A manipulação não resulta na personagem de carácter forte de Maria Ana. Sem estar a contar com a chegada do antigo amor à sua casa, partilhada com a companheira, não sabe bem como agir. Ou pelo menos é essa a sensação que transmite. Sente-se a força do muro que coloca à sua volta no momento em que São José a faz voltar ao passado e quando defende as caraterísticas da mulher que ama atualmente. Um muro capaz de atacar, ao dizer à antiga amante para celebrar, com copos de whisky na mão, porque a mulher que ama é a mais bonita do mundo.

O ataque a amores passados para se colocar num patamar mais alto, de forma a defender-se da fragilidade sentida num passado distante – ou mais próximo do que julga. Carla Galvão, a interpretar a companheira sem conhecimento do passado de qualquer uma das outras duas, chega a ter momentos de insanidade nesta fase do enredo. Mexe nos lábios, bebe álcool em demasia, pede água, para não esquecer que começou a peça numa posição celestial. Comportamentos longe de serem habituais e que vão para além da compreensão do público, até que a história recua nos factos, no momento em que avança aos olhos dos espectadores. O jogo de luzes, construído ao longo do espetáculo, é essencial em toda a peça para oferecer destaque a cada uma das personagens em momentos-chave.

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“De onde é que a conheces? Quem é ela?” questiona Carla Galvão, mesmo antes de São José entrar na intimidade delas. O ciúme colocado numa bandeja para Maria Ana provar consoante a sua vontade. É natural ao ser humano utilizar esse ciúme, considerado como uma fragilidade na maioria das situações, em seu benefício ou a favor do companheiro. Há insegurança da parte do outro lado, quando Maria Ana não consegue contar a totalidade dos acontecimentos à namorada. Uma insegurança incompreendida no momento em que a ação recua um pouco mais e a personagem de Carla profere pensamentos, juras ou odes de amor à companheira. “Acho que estavas a falar sozinha”, diz Maria Ana no momento em que elas terminam. Não fosse a genialidade com que estes papéis são interpretados e existiria a fórmula para a peça correr mal.

As três atrizes de Buffalo são o prato principal: cada interpretação é para ser saboreada individualmente. O conjunto é o equivalente a uma explosão de intensidade. A natureza do ser humano, muito para além da natureza das mulheres, é mostrado ao público: o ciúme, completamente cru, está presente em todos os comportamentos das personagens. O ciúme pela companheira com a vida construída ao lado de outra mulher, a insegurança pela falta de conhecimento sobre a relação passada da companheira com a mulher que lhes aparece à porta de casa. Uma insegurança que acaba por dar origem a ciúme. Como se todos os caminhos fossem dar a esse sentimento. As luzes acendem-se e o universo negro e realista de Alexandre Tavares evapora-se. Passou-se uma hora e as sensações dos espetadores voltam a acalmar lentamente.

Por motivos de saúde de uma das atrizes, a peça só esteve em cena no Teatro Municipal São Luiz na noite de estreia.

Imagens © José Frade