Um dos filmes mais antecipados do ano chega finalmente às salas de cinema portuguesas. Realizado por Richard Linklater, Boyhood – Momentos de Uma Vida foi gravado durante 12 anos e assume-se como uma das maiores obras cinematográficas de 2014, sendo o favorito aos Oscars deste ano. O Espalha-Factos já teve oportunidade de o ver e não ficou desiludido, mas também não ficou extremamente impressionado. 

Levou uma dúzia de anos para gravar este filme, que acompanha a vida de Mason desde os seus 5 anos até aos 18, ano em que entra para a Universidade. Uma temática bastante banal não fosse o facto de a obra de Linklater contar sempre com os mesmos atores ao longo do período de gravação e acompanharmos, realmente, o crescimento de Ellar Coltrane, ator que deu vida à personagem de Mason, em pleno grande ecrã.

De facto o conceito por detrás de Boyhood é genial. É fantástico que um realizador, dozes anos atrás, tenha tido a ideia de começar a gravar um épico em volta de uma criança e estar predisposto a acompanhar o crescimento dessa mesma criança até se tornar num homem, pronto a encarar os desafios da vida. Assim, todo este filme parte de uma ideia magnífica e é incrível que Linklater tenha conseguido chamar para este filme atores como Ethan Hawke e Patricia Arquette, já que não vemos apenas o pequeno Mason a crescer, mas também todos aqueles que o rodeiam.

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É esta atitude mística de um claro desafio à linha temporal que nos faz amar este filme. Esta obra consegue, na íntegra, dar forma à expressão “o tempo parece que voa“, e assim é não só uma excelente reflexão sobre a maternidade e a beleza de ver um ser crescer, como também um ensaio sobre o tempo e a efemeridade do homem que para sempre nos atormentará. E é a mãe de Mason que interliga estas duas reflexões, é ela que o cria, que o vê crescer, que protege. E no fim, é ela que se despede dele, e em conjunto com ela, também o espetador se despede da criança que é já homem de barba rija. O momento é de amargura, orgulho e emoção para a mãe, mas também para a audiência que naquele ponto já está completamente rendido à personagem de Mason que faz com que cresça em nós também alguma ternura paternal para com ele.

E nisto o filme é único no mundo. Nisto se destaca de todos os outros filmes feitos até hoje. Neste ensaio sobre a vida e o tempo, ultrapassando todas as barreiras impostas pelo mesmo ao conseguir “voar” 12 anos em pouco mais de três horas de película. É pelo seu conceito e ternurenta realização e concretização do mesmo que este é dos filmes mais especiais do ano, quiçá da década. Uma ideia extremamente inspirada que me faz indagar o porquê de ainda não ter sido feita.

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Por outro lado, Boyhood é um filme aquém das expectativas megalómanas que se tem vindo a construir em volta dele. A crítica adorou, o público surpreende-se e é constantemente nomeado para prémios. Mas  a longa de Linklater em termos narrativos é excessivamente banal. A acção vai-se desenvolvendo do ponto de vista de Mason e a única coisa que a move é o crescimento do mesmo, não existe nenhuma intriga central que consiga despoletar o que quer que seja na linha narrativa. Não há um clímax, apenas uma acção monótona, demasiado homogénea e que se arrasta um pouco a meio do filme.

Mas mesmo este ponto fraco é justificado pelo conceito da película. Richard propõe-se a gravar uma vida, um crescimento, de uma maneira quase documental, já que existe um realismo extremo ao ponto de se alongar o período de gravações para que os próprios atores se desenvolvam. Neste realismo exacerbado que existe em Boyhood, a acção nunca poderia ser demasiadamente repleta de aventuras e desventuras, já que não é isso que o realizador e argumentista quer transmitir ao público.

Em suma, este é um filme mandatório para quem se quer manter atualizado no panorama cinematográfico atual. É a película que parte em avanço na corrida aos Oscars da Academia de 2015 e é uma obra que é-nos impossível de não gostar. Parece quase uma lei natural, ninguém pode desgostar de Boyhood já que o seu conceito justifica por completo toda a película de três horas. É um filme marcante e não o é ao mesmo tempo. É um filme que tem tanto de genial quanto de banal… É o Boyhood.

8.5/10 

Ficha Técnica:

Título: Boyhood

Realizador: Richard Linklater

Argumento: Richard Linklater

Elenco: Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquette

Género: Drama

Duração: 165 minutos