Recordamos vários trabalhos emblemáticos de Mike Nichols, numa seleção de cinco títulos do realizador galardoado com um Oscar, que influenciou o novo cinema de Hollywood e que elaborou alguns dos filmes mais famosos da modernidade.

Deixou-nos na semana passada, e fica para a posteridade um legado ímpar de trabalhos feitos para cinema e televisão. Mike Nichols, realizador de origem alemã consagrado em Hollywood, foi nomeado, ao longo da sua carreira, para cinco Oscars (quatro deles para Melhor Realizador, vencendo numa das ocasiões), conseguiu um feito raro para um realizador: atingiu a fama logo com o primeiro filme que realizou, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?. Alcançou um estatuto que se prolongaria pelo filme seguinte, o popularíssimo A Primeira Noite. A partir daí, com projetos mais ou menos interessantes, Nichols continuaria a explorar uma visão alternativa da sociedade, que viria a moldar grande parte do cinema americano que hoje conhecemos.

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Escolhemos cinco filmes essenciais para se conhecer o espírito de Mike Nichols. Centrámo-nos apenas no cinema, não querendo, contudo, desprezar o talento demonstrado em obras televisivas como Anjos na América e Wit – Espírito de Coragem. São filmes marcantes de um realizador que deixou a sua pegada na revolução do cinema de Hollywood dos finais da década de 60 e inícios da década de 70, e que merecem ser vistos (ou revistos) na atualidade.

1. – Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?) [1966]

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O primeiro filme de Mike Nichols valeu-lhe a primeira nomeação para o Oscar, e foi, ainda, uma pedrada no charco na Hollywood da época: ao contrário de muitas adaptações cinematográficas de peças de teatro lançadas anteriormente (como as de Um Elétrico Chamado Desejo e Gata em Telhado de Zinco Quente, por exemplo), Quem Tem Medo de Virginia Woolf? não sofreu censuras no texto original, e foi o que na íntegra acabou por ser utilizado por Nichols – e as conversas entre as personagens, sobre alguns dos temas tabu da contemporânea sociedade americana, geraram controvérsia. Para dar credibilidade à relação cáustica que une as duas personagens centrais da inesquecível peça de Edward Albee, os atores não poderiam ter sido outros que não Elizabeth Taylor e Richard Burton (que viveram também uma união muito conturbada ao longo de vários anos), e o filme permanece incrível, e é, provavelmente, um dos melhores exemplos de como consegue ser eficaz e genial o tão desprezado “teatro filmado”.

2. – A Primeira Noite (The Graduate) [1967]

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E depois de uma estreia com pompa e circunstância, Mike Nichols aproveita os recursos obtidos com o mediatismo do seu projeto anterior para realizar A Primeira Noite, um filme ambicioso que foi, também, a rampa de lançamento para o ator Dustin Hoffman. Uma história sensual com o seu quê de escandalosa, sobre a relação entre um jovem estudante e a mãe da sua suposta namorada, num filme que hoje sobrevive no nosso imaginário pelo seu lado deliciosamente kitsch, pela banda sonora brilhante de Simon & Garfunkel (é daqui que vem a música Mrs. Robinson) pela realização fervilhante e criativa do realizador e, convém não esquecer, pela maneira diferente como projeta os sentimentos das personagens e nos deixa na dúvida sobre o significado das suas atitudes (e o final não é assim tão linear como parece…). Marcou uma pequena revolução no cinema americano, que continuaria a crescer nos anos seguintes.

3. – Artigo 22 (Catch-22) [1970]

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Estreou alguns meses depois do popularíssimo M.A.S.H., e, por causa desse filme, este acabou por ficar um pouco à margem na época. Mas o tempo veio dar razão à tragicomédia de Mike Nichols: enquanto a sátira de Robert Altman à guerra do Vietname não consegue passar, hoje, de uma sucessão de sketches com mais e menos graça em determinados momentos (e cujo efeito de escândalo ou choque acabou por ser completamente apagado com a passagem dos anos), Artigo 22 conseguiu ter um impacto muito mais intemporal, não se reduzindo apenas à sociedade de inícios da década de 70. Adaptação do romance de Joseph Heller (e que muitos consideravam impossível de ser transposto para o grande ecrã), o filme possui não só um dos maiores elencos alguma vez reunidos (desde Anthony Perkins a Orson Welles, passando por Martin Sheen e pelo fabuloso protagonista, Alan Arkin), como também uma estrutura narrativa densa e incrivelmente eficaz, espantosamente comovente e burlesca, em quantidades necessárias. Uma obra subvalorizadíssima.

4. – Iniciação Carnal (Carnal Knowledge) [1971]

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Foi um filme controverso na época (pela forma menos usual, no cinema americano, de se retratar uma sociedade em mudança), e hoje é um testemunho impressionante sobre a rutura das relações humanas em diferentes fases da “evolução” de uma amizade. Jack Nicholson e Art Garfunkel (o cantor que fizera par, até então, com Paul Simon, e alguns dos seus maiores sucessos encontram-se na banda sonora de A Primeira Noite – e que entrara também no filme anterior de Nichols, Artigo 22, num papel mais secundário) são os protagonistas deste filme invulgar que descreve, com subtileza, a cumplicidade entre dois amigos de longa data, desde a juventude até à crise dos 40. No meio desta amizade surgem vários obstáculos, e as mulheres são o tema principal – e é à volta dos amores de ambos, que se cruzam e colidem, que a história irá girar. Às tantas já nem sabemos quem é que interpreta os papéis principais, já que Mike Nichols dá tanta atenção às duas personagens masculinas como às transformações das duas personagens femininas, ilustrando as suas emoções e o desespero que vão sentir em certas situações. Uma obra notável e quase desconhecida em Portugal (onde só viria a estrear depois do 25 de abril).

5. – Perto Demais (Closer) [2004]

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A realização de Mike Nichols não é aqui tão marcante para a narrativa como nos quatro filmes mencionados anteriormente: Perto Demais é um filme mais polido e reverente no que diz respeito aos aspetos técnicos da sua produção. Contudo, não deixa de ser uma notável transposição de uma peça de teatro (da autoria de Patrick Marber) para o cinema, na forma como os atores estão dirigidos e são manipulados pelo realizador, através de uma série de deliciosos diálogos que demonstram as relações atribuladas entre os membros dos dois casais, que se encontram sempre em estados de mudança psicológica… e romântica. Uma realização limpa e sem toques de rebeldia, que seria o seu penúltimo trabalho cinematográfico (o desfecho da sua carreira seria com Jogos de Poder, de 2007).