Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood  não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

Já aqui falámos sobre Balada da Praia dos Cães, um dos filmes mais célebres de José Fonseca e Costa. E nesta edição vamos descobrir um outro filme do realizador, que se revelou também um considerável êxito no ano em que estreou no nosso país. Sem Sombra de Pecado baseia-se no conto E aos Costumes Disse Nada, integrado no livro Gaivotas em Terra, de David Mourão-Ferreira, e recebeu vários prémios em festivais nacionais e internacionais, tendo sido, também, selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.

Foi ainda o filme escolhido para representar Portugal na categoria de Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars de 1984, mas não chegou à fase das nomeações. E vale a pena referir que este filme destaca-se igualmente por ser um dos primeiros trabalhos de Eduardo Serra, diretor de fotografia que, hoje, é reconhecido em todo o mundo, colaborando com diversos realizadores estrangeiros, numa carreira que já lhe valeu duas nomeações para os prémios da Academia. Há que elogiar, por fim, o trabalho de cenografia de Jasmim de Matos, que trabalhou com Fonseca e Costa em outros filmes, como Os Demónios de Alcácer Quibir e Kilas, o Mau da Fita.

É uma história de amor em tempo de guerra e ditadura, protagonizada pelo brilhante Mário Viegas, numa sátira acutilante a Portugal e aos portugueses: uma mulher misteriosa (Vitória Abril), qual femme fatale dos filmes noir, começa a fazer chamadas estranhas para o quartel onde Henrique (Viegas) se encontra a fazer o serviço militar. Ela é uma jovem oriunda de famílias abastadas, e que começa a levar o homem – e supostamente, sem ter razão para tal – a alinhar em encontros obscuros, que trarão uma série conflitos e contradições a cada uma das personagens. Mas a mulher nunca perde o seu lado enigmático, e, aliás, é a dúvida sobre a sua identidade (ou as suas intenções) que salta na mente do espectador a cada momento, até ao surpreendente (e subtilmente filmado) desenlace da narrativa.

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E assim, Sem Sombra de Pecado constrói-se nesta duplicidade de situações: a do romance, a da realidade militar (um alvo de paródia constante, quer na hierarquia que a constitui, quer nos elementos que a compõem)… e será que haverá mais uma? Há pois: a do mistério que rodeia o filme, o das origens da mulher que tanta obsessão suscita no protagonista. E talvez essa história tenha poder suficiente para criar um universo à parte, próprio, que conseguimos distinguir facilmente – e que nos suscita fascínio e desprezo ao mesmo tempo. É esse o grande triunfo de José Fonseca e Costa, e do argumento da sua autoria, que consiste na criação de uma estrutura clássica de história cinematográfica, que culmina num ponto-chave e que se torna numa incrível reviravolta para tudo o que vimos antes – e para a acérrima crítica de costumes feita até então, dentro e fora do quartel.

Apesar de possuir várias falhas na sua consistência (por vezes sentimos um enorme desequilíbrio entre as partes interessantes da história e as cenas que pouco ou nada adicionam à experiência visual que estamos a presenciar), Sem Sombra de Pecado é um filme notável pela conceção de “filme de época” que é posto em prática, com uma elegância e vivacidade que conseguiram captar, com grandiosidade, o espírito de uma Lisboa reprimida, mas pitoresca. E este é um título que merece destaque por ser uma obra com cariz… comercial. Sim, e na época revelou-se um considerável êxito de bilheteira, tal como outros filmes de Fonseca e Costa (sendo o Kilas o caso mais emblemático).

De facto, há uma grande diferença entre o cinema dito popular deste cineasta e o de muitos outros que, hoje, tentam apenas receber o lucro proveniente de projetos mal pensados e concebidos, que tratam o espectador como lixo. Conseguimos distinguir, no trabalho do realizador, uma matriz visual muito bem desenvolvida, ao mesmo tempo que utiliza as características das personagens, e como se pode constatar ao ver o filme (que está, desde há alguns meses, finalmente disponível em DVD, numa belíssima cópia restaurada), é que sentimos, com projetos deste calibre, que se tinha um objetivo em mente, que era o de suscitar algo na audiência, e ir para além do tom ligeiro como é caracterizado, mais vulgarmente, o cinema mainstream, de massas, com pipoca ou não a condizer.

E é isso que faz com que Sem Sombra de Pecado saia vencedor, e é por isso que, ainda hoje, mais de três décadas depois da estreia, permanece um interessantíssimo exemplar do cinema português, que grande parte da nova geração desconhece. José Fonseca e Costa foi homenageado na última edição dos Prémios Sophia – e é, “sem sombra” de dúvida, um realizador marcante na História do cinema nacional dos últimos 40 anos, goste-se ou não deste filme, e dos outros. Há que elogiar a versatilidade de um cineasta que parece revelar uma outra face em cada uma das histórias que conta: seja com a “chungaria” do Kilas, seja com o retrato negro da PIDE com a Balada, seja, ainda com este filme misterioso, que calcorreia Lisboa e os sentimentos de uma personagem ingénua, aproveitando-se dele e de nós com um descaramento que lhe permite enviar uma espécie de “bofetada” no final. Mais um tesouro escondido à espera de ser descoberto.

Ficha Técnica:

Realizador: José Fonseca e Costa

Argumento: José Fonseca e Costa

Elenco: Mário Viegas, Vitória Abril, Armando Cortez, Inês de Medeiros, Lia Gama, João Perry, Rogério Paulo

Duração: 100 minutos

Nota: 7.5/10