Na passada quarta-feira, o Espalha-Factos foi assistir a cinema polaco nos Caminhos Mundiais, a secção de programação estrangeira do XX Festival Caminhos do Cinema Português. Foram exibidos dois filmes: Sztuka Znikania (The art of disapearing, em inglês), de Piotr Rosołowski e Bartosz Konopka; e Matka Ziemia (Mother Earth), de Piotr Zlotorowicz. Os Caminhos Mundiais pretendem trazer uma mostra de cinema polaco contemporâneo e são curados por Piotr Maciantowicz.

Sztuka Znikania

Este filme conta a história real de Amon Fremon, um sacerdote vodu, que, vivendo no Haiti, visitou a Polónia em 1980. Esta viagem foi feita a convite de Jerzy Grotowski, um famoso encenador de teatro polaco. A visita de Fremon dá-se na altura da criação do Solidariedade, um sindicato criado nos estaleiros navais de Lenine. O Solidariedade era visto pelo regime como opositor, levando à instalação da lei marcial em 1981. É uma altura de grande convulsão social, que marca o início do fim do domínio soviético.

O filme baseia-se no relato de Fremon sobre os acontecimentos que vai vivenciando na sua visita. Assim, este trabalho de Piotr Rosołowski e Bartosz Konopka apresenta uma visão externa sobre acontecimentos fulcrais da história da Polónia. A relação entre o Haiti e a Polónia remonta à guerra pela independência que os habitantes do Haiti travaram contra os exércitos de Napoleão. Entre as tropas napoleónicas encontravam-se legiões de soldados polacos que desertaram e lutaram ao lado dos haitianos.

O início do filme passa-se ainda no Haiti, onde presenciamos um ritual vodu. O trabalho de realização, com os sons e imagens fortes, fazem o espectador sentir-se parte do rito. Essa envolvência está presente em todo o filme, juntamente com o relato de Fremon. Outro momento interessante é a aparição de soldados com máscaras de gás (numa referência à imposição da lei marcial em 1981), que Fremon classifica de zombies. Os mortos-vivos têm uma figura central na religião vodu, mas o que espanta Fremon é que as pessoas aparentam não ter medo destes zombies. São pequenos momentos como estes que mostram peculiaridades da sociedade polaca durante a turbulenta década de 80 que fazem o filme.

No final, Fremon faz um ritual para ajudar os polacos a libertarem-se das forças opressivas. Na sua opinião, é bem sucedido, mas o rito consome-o espiritualmente. Quanto volta ao Haiti, já não é o mesmo.

Um filme singular e uma perspetiva diferente de contar a História que os Caminhos Mundiais trouxeram a Coimbra.

Matka Ziemia

Maciek e o pai habitam numa zona rural da Polónia. O pai tem um matadouro e já começa a ter idade a mais para tratar desse ofício sozinho. Mas Maciek prefere as macieiras, que o pai crê nunca virem a dar frutos. O conflito entre os dois é o tema central do filme. Maciek não quer desiludir o pai, mas o sofrimento animal repugna-o. A memória da mãe falecida num passado próximo está presente, nomeadamente quando o pai diz a  Maciek  que a mãe, tal como ele, preferia as árvores.

As performances de Dariusz Przybył (Maciek) e Mirosław Baka (pai) são excelentes, transpondo emoções fortes e complexas sem muitos diálogos. Um filme simples e belo, aberto a muitas interpretações.