A avareza é uma coisa um bocado aborrecida. Por um lado temos o stress constante auto-infligido por quem decide encarnar o papel de gestor escrupuloso, que geralmente acaba por ser uma pessoa bastante carrancuda e sem noção de humor. Por outro, temos quem o rodeia, que acabam confrontados com esta regulação exaustiva e muitas vezes servem de bode expiatório para a sua extrema má disposição. O que dizer então daqueles que deste corregedor dependem? Coitaditos deles se quiserem repetir um segundo prato.

No entanto, todos nós acabamos por nos aperceber que muitas vezes “o barato sai caro” e que realmente as economias podem cegar as perspectivas de vida de qualquer pessoa. É precisamente isto que Molière, um dos mais reconhecidos dramaturgos de sempre, nos explica nesta divertida farsa que data de 1668 e que põe multidões inteiras de qualquer idade a rir desde então com a sua impecável escrita e mordazes observações.

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Originalmente estreado no longínquo ano de 2009, este Avarento nascido do seio da Ensemble – Sociedade de Atores é reavivado este novembro na Sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II. Encabeçado por Jorge PintoEmília Silvestre e Clara Nogueira, o espectáculo é uma eficaz transposição de uma das comédias mais famosas de Molière e que conheceu bastante sucesso, visto que esta é já a terceira vida que recebe (em 2010 recebeu uma segunda temporada).

E este sucesso, diga-se já, é algo que se compreende rapidamente quando efectivamente presenciamos o trabalho feito. A tradução de Alexandra Moreira da Silva e a engenhosa e fluída encenação de Rogério de Carvalho não só perpetuaram a intemporalidade de um texto que por si só já é magnífico, como também conferiram a toda esta história de trocas e baldrocas uma personalidade apetecível, incutindo-lhe uma fantástica dinâmica contemporânea. E não podemos passar a frente deste tópico sem congratular o fantástico desenho de palco levado a cabo por Jorge Ribeiro e o condizente figurino de Bernardo Monteiro, duas marcas que estampam a modernidade sem prejudicar o teor clássico.

Atmosférico, fluído, divertido, didáctico e acessível. São estas as palavras que muito sumariamente podem descrever a peça que se encontra agora em exibição da sala maior do Teatro Nacional. Uma exibição para todas as idades que encontra os seus maiores trunfos na sua acessibilidade, química entre actores e capacidade de transportar o teatro clássico do século XVII directamente para 2014, completo com toda a sua magia e artimanhas que consigo trazem a boa disposição e a imortal mensagem que Molière quis gravar para o mundo utilizando esta muy nobre arte.

O texto é dotado de inegável qualidade, e só por aí, a Ensemble já tinha algo a seu favor, principalmente quando obtém um trabalho tão eficaz na já mencionada tradução. Estamos perante uma história dotada da simplicidade certeira que só os grandes conseguiram alcançar. Um enredo repleto de personagens coloridas e distintas umas das outras, capazes de viver em palco por si só, cuja interacção origina um turbilhão de situações que colocam o nosso olhar fixo no estrado do palco e deixam-nos com sorrisos cúmplices à medida que torcemos pelo nosso favorito neste “salve-se quem puder” de ocorrências motivadas pela sovinice.

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Mas para fazer estas personagens respirar tão gloriosamente no palco como as imaginamos a fazer no papel, é preciso um grande corpo de actores. E isso aqui está assegurado. A química deste elenco é louvável e é aquilo que reforça ainda mais a forma como este texto foi bem tratado e encenado à nossa frente. A incrível expressão corporal de todos os intervenientes, aliada também aos trechos musicais clássicos e o desenho de luz encantador e dinâmico dão momentos, por vezes, maiores que a vida, com o espectáculo a absorver-nos (literalmente) para dentro dele. Graças à junção de técnicas e artifícios materiais e à representação, existem alturas onde somos transportados para um estado quase onírico onde a ilusão de profundidade é exponencialmente aumentada. A melhor parte de tudo isto, é que na maior parte destas sequências, os actores nem sequer precisam de estar a falar.

Para uma comédia que vive da situação e da reviravolta, o mais importante realmente é ter quem as ilustre da melhor forma e Jorge Pinto, o nosso titular Harpagão avarento, está perfeito a todos os pontos: desde a sua aparência ridícula, descuidada e paranóica à constantemente cómica e carrancuda expressão de velho do Restelo, para o qual a sua preocupação máxima consiste no tesouro de 10.000 contos que escondeu no seu jardim. Também muito bem colocada está Emília Silvestre, uma astuciosa casamenteira envolvida na confusão de arranjar ao nosso avarento uma noiva, que secretamente se enamora do seu próprio filho. É preciso destacar também as personagens mais acessórias, que mesmo nesta sua condição roubam o espectáculo aquando a sua entrada. O Mestre Tiago de Vânia Mendes não vai ser tão cedo esquecido.

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O Avarento é mais uma aposta frutuosa por parte da direcção do Dona Maria, que tem conseguido manter uma coesão lógica nas sua escolha artística. Temos aqui um espectáculo que se mantém na linha daquilo que a instituição representa, mas que para além disso sabe subsistir como produto de grande qualidade dentro da produção dramática. A infiltração do teatro moderno na estrutura clássica que é o corpo desta peça é um dos aspectos mais interessantes desta produção e garante a continuidade da relevância e importância que existe em que o público veja estes espectáculos.

Do Dona Maria, de 21 a de Novembro a 7 de Dezembro, a audiência vai sair da sala, com certeza, com mais cultura e mais boa disposição. Que há coisas mais importantes que o dinheiro nós já sabemos, que esta peça é uma dessas coisas, isso ficará claro assim que as luzes se apagarem.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945