O diretor da Notícias TV, Nuno Azinheira, é o entrevistado do Espalha-Factos na data em que se comemora o Dia Mundial da Televisão. Uma entrevista que realça a perspetiva de negócio de alta dimensão que é a televisão generalista, apesar da crise, e que acompanha as questões que continuam a atormentar o Serviço Público de Televisão da Rádio e Televisão de Portugal, a RTP.

Espalha-Factos: Enquanto diretor da Notícias TV, que televisão gostaria de estar a retratar futuramente?

Nuno Azinheira: Eu diria que há aqui duas coisas distintas: aquela que eu gostaria de retratar e aquela que seguramente vou estar a retratar. Desse ponto de vista, não acho que vou estar a retratar daqui a cinco anos, se quisermos, uma televisão diferente do que a que estou neste momento, a nível de conteúdo. No que toca a televisão generalista, não creio que cinco anos dê para mudar o que quer que seja. Podem mudar coisas pontualmente, mas o core business da generalista – talk shows, informação, talk shows e formatos de grande entretenimento – não vai mudar. (…) É um segmento que está tão testado e dá tantos frutos que não vai haver coragem para mudar.

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«Eu hoje só vejo aquilo que me apetece ver»

EF: E mudança na forma?

NA: Hoje em dia o público vê menos televisão em linha, vê mais nas boxes, on-demand, na internet, e portanto eu acho que esse consumo vai mudar muito, mas para uma certa faixa, que não é provavelmente a que vê a televisão generalista. (…) Isto já está a mudar: se eu entrar com o meu smartphone na RTP Play consigo ver a RTP em direto. E isto muda por completo as coisas. O facto de nós hoje podermos customizar aquilo que queremos ver, faz com que nós selecionemos o que vemos. Eu hoje só vejo aquilo que me apetece ver. Há 20 anos também, podias desligar a televisão, mas nós hoje – porque a internet nos permite fazer esta escolha – somos consumidores muito mais ativos do que passivos, e isso é um trunfo enorme para o espectadores, mas não é uma ameaça para os programadores, pelo contrário. Os programadores têm a hipótese de ter a certeza absoluta de quem viu o programa realmente o quis ver. Hoje já ninguém vê programas por acaso.

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EF: O Cabo vai beneficiar da renovação de gerações que trará uma terceira idade com um perfil diferente?

NA: A queda da televisão free-to-air, a televisão generalista, é comum a todo o Mundo. Nós hoje temos uma quota de mercado de entre 65% e 70% para televisão free-to-air, por isso 30 – 35% vê televisão por cabo. Quem vê TV generalista? Os velhinhos, os acamados, mas não só.

«a notícia da morte da televisão generalista é manifestamente exagerada»

EF: Os desempregados?

NA: Os desempregados que agora entraram nesta equação, mas não só. Qual é o programa que as crianças com menos de 14 anos vêem mais? Casa dos Segredos. Portanto, essa ideia de que só os velhinhos, os desempregados e as donas de casa vêem TV generalista é uma ideia falsa, tal como aquela velha história: que televisão é que vês? “RTP2”. Mas depois vai-se ver as audiências e tem 1.9% [de quota de mercado]. É preciso ter muito cuidado quando se diz que a TV generalista vai cair para o Cabo. (…) Tendencionalmente, mesmo em Portugal onde há uma forte incidência do Cabo – até porque a TDT foi um flop e um negócio, ao mesmo tempo -, essa diferença diminui. (…) Como diria Mark Hein, a notícia da morte da televisão generalista é manifestamente exagerada.

EF: Fazendo agora uma avaliação à programação diária da TV generalista, começando pelos talk shows da manhã e da tarde, o Nuno considera que o alinhamento ou a oferta em termos de conteúdo é igual?

NA: Não, não é nada igual. Aí é que está. O formato é idêntico mas o alinhamento não é igual. Quem disser: “ah, isso é tudo igual, RTP, SIC, TVI”, não é verdade. Quem diz isso, não vê os programas. Não vê os programas porque manifestamente nós vemos que há convidados que se repetem numa e noutra estação – é verdade que sim – mas há coisas que a tarde da RTP tem, por exemplo, que a TVI e a SIC não têm. Nem têm de ter. E, por outro lado, há coisas que os programas da TVI e da SIC têm mas que a RTP não tem. Nem têm de ter.

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Portanto, nos conteúdos eu acho que há diferenças que são claras. O programa que o Herman está a fazer à tarde com a Vanessa Oliveira, ainda que sem audiências – com poucas audiências, embora tenha vindo a crescer nas últimas semanas e a aproximar-se perigosamente das tardes do Baião -, é um programa muitíssimo interessante e do ponto de vista de conversar diferente do que fazem os outros canais. A própria abordagem é diferente. Mas agora, se me perguntarem: “os programas de day time são suficientemente diferentes?” Não, não são. Se me perguntarem: “a RTP faz tudo aquilo que devia fazer no cumprimento do serviço público?” Não, não faz.

EF: Já que falamos da RTP, mas não falando de ideais sobre o serviço público, há uma ideia aceite: dar uma oferta que se diferencie das privadas. A RTP não devia fazer mais neste sentido?

NA: Podia sobretudo fazer à noite. É o período em que eu acho que a RTP faz pouco por se diferenciar. Mas isso acontece também porque a RTP também tem de se diferenciar. (…) A RTP1 à noite é completamente comercial. É assumidamente comercial: tem uma informação mais curta – agora não tão curta -, tem duas séries disfarçadas de novela – Bem-Vindos a Beirais era um projeto diferente…

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EF: A grande diferença é que os episódios são fechados…

NA: São fechados, sim, mas quem acompanha televisão sabe que mesmo que a narrativa seja fechada, ela nunca é completamente fechada. (…) É muito mais novela do que série. Portanto, eu acho que à noite – Água de Mar, por exemplo, é um produto que podia estar na SIC ou na TVI -, e depois um concurso [Quem Quer Ser Milionário] que cabe perfeitamente no conceito de Serviço Público mas sejamos claro: aquele concurso podia estar perfeitamente na SIC ou na TVI. Não é uma marca distintiva do Serviço Público. (…) Não é um concurso que valorize por si só a cultural.

EF: Mas, ainda assim, há diferenças a nível temático. Já no daytime, a grelha é muito mais igual à concorrência. Não poderia ser feito mais a esse nível?

NA: A RTP durante anos e anos tinha uma programação vertical em horário nobre: para cada dia da semana havia um produto diferente. Hoje a opção de uma grelha horizontal tem dois reflexos: por um lado, torna mais barata a grelha – permite que seja rentabilizada – (…) permite essa economia de escala e, por outro lado, permite uma fidelização do público que é uma fidelização normal nos canais generalistas. Essa foi a opção mais crítica da RTP: a opção de horizontalizar a grelha que é um sinal claro para o mercado de que se procura as audiências. Aliás, Alberto da Ponte definiu que o seu objetivo para janeiro de 2014 era para chegar a 22%. Não vai conseguir, mas definiu esta meta.

(…)

Vamos ser claros: tu no Espalha-Factos, eu na Notícias TV, a RTP, a SIC, a TVI, o Diário de Notícias – qualquer orgão de comunicação social, seja ele mais clássico ou mais moderno, tem um objetivo que é ter recetividade de quem vê, ouve ou lê. Portanto, as regras do mercado são estas.

«os portugueses pagam uma televisão que tem de ser relevante logo tem de ser vista, mas também tem de prestar um serviço relevante à comunidade. É isso que é o serviço público»

EF: E a RTP seguiu esse modelo…

NA: Quanto a mim, quanto muito podia mitigar mais esse modelo, mas não poderia deixar de ser uma televisão a pensar nas audiências. No dia em que a RTP faz uma televisão muito elitista morre. Deixa de ser vista, deixa de ser relevante, deixa de ser importante. Não faz sentido os portugueses pagarem por uma televisão que não é vista. Não faz sentido. (…) A quadratura do círculo aqui é encontrar um meio-termo: os portugueses pagam uma televisão que tem de ser relevante logo tem de ser vista, mas também tem de prestar um serviço relevante à comunidade. É isso que é o serviço público.

Entrevista com supressões. Versão completa a publicar brevemente.

Fotografias: Inês Delgado