Depois do sucesso da primeira viagem, filmada em 2010 para a televisão e para o cinema, Rob Brydon e Steve Coogan decidiram repetir a fórmula. E o resultado volta a ser incrível, neste grandioso passeio por Itália, onde apreciam a sua gastronomia e a vivência das suas gentes… e desenvolvem, também, mais uma série de conversas hilariantes, sobre tudo e mais alguma coisa. 

Seis refeições em seis locais diferentes, espalhados por Itália: eis o ponto de partida para uma viagem protagonizada pelos comediantes Rob Brydon e Steve Coogan. Entre monumentos, lindíssimas paisagens naturais e o contacto com mulheres italianas, os dois amigos falam. À mesa, no carro, em passeio… e aí está o cerne desta Viagem a Itália – porque os pratos passam para segundo plano, tal como um certo lado mais documental que tenta explorar, através das imagens, os lugares mais inesquecíveis do país. É nos disparates de Brydon e Coogan e na cumplicidade que têm entre si que está o mote deste filme, atribuindo-lhe um tom hilariante que se transforma através de mecanismos simples (e em parte, improvisados) para fazer as delícias de qualquer espectador.

Numa era em que a televisão parece querer ocupar à força o lugar do cinema, – porque o cinema não tem, ou não quer ter, forças suficientes para se distanciar dos modelos televisivos, aproximando-se inevitavelmente, e cada vez mais, desse outro ecrã, torna-se interessante analisar um caso de sucesso como este. Elaborado para ambos os formatos (os dois filmes são compactos de duas minisséries que passaram originalmente na BBC), A Viagem a Itália é o resultado de uma seleção criteriosa dos momentos mais memoráveis deste reencontro entre Rob Brydon e Steve Coogan, num périplo gastronómico que vive dos engraçadíssimos momentos de conversa entre os dois artistas.

Este é um caso curioso porque se trata de uma ideia que funciona perfeitamente nos dois ecrãs. E mesmo que a realização de Michael Winterbottom sirva, apenas, para mostrar a história e acompanhá-la delicadamente com os ambientes que a envolvem, esta faz com que não nos deixemos, por isso, de distrair do essencial – que é essa tal química entre os dois protagonistas, que origina diálogos inesquecíveis, numa sucessão de risos e gargalhadas como raramente conseguiria ser possível obter através de uma obra com estas características. E, por isso tudo, o resto consegue funcionar muito bem no filme, e faz com que este mereça ser visto numa sala de maiores dimensões do que aquela que temos em nossa casa. Até porque será muito pouco provável que a série original (possui mais uma hora) chegue algum dia a Portugal.

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E se a comida se torna num elemento secundário (e quase, diga-se, figurativo) neste périplo alimentar que é também uma história singular de amizade (e das diferenças entre gerações), acabando por ser o simples e milenar ato da conversa aquilo que realmente nos interessa e que nos puxa para acompanhar os desenvolvimentos do filme (numa sucessão de discussões que englobam temas variados, como imitações de Michael Caine, até uma análise profunda dos melhores métodos de canibalismo). A Viagem a Itália é, assim, uma deliciosa jornada filosófica, adepta da parvoíce sem deixar, contudo, de ter uma porção desejável de sinceridade.

Distantes da vida normal de celebridades, da agenda preenchida e dos contactos profissionais, e em parte afastados dos seus familiares mais próximos, Brydon e Coogan revelam-se numa faceta humorística, tal qual os conhecemos, mas também num outro lado, mais habitualmente “escondido” pelas câmaras. E mesmo que não seja surpreendente, e mesmo que seja obviamente encenado, não deixa de ser curioso ver estas duas figuras estarem no meio de situações mais corriqueiras, que naturalmente não associamos aos famosos. Porque estes dois senhores, que por acaso são dos maiores génios da comédia britânica contemporânea (sendo o primeiro um intérprete regular de várias sitcoms de sucesso da BBC, como Gavin & Stacey, e o segundo o criador do inesquecível Alan Partridge), conseguem, com este filme (e com o original), ultrapassar o legado de todas as suas personagens fictícias… e para isso, eles apenas precisaram de ser eles próprios nestas conversas e nestas viagens deliciosas.

A Viagem a Itália tem uma falsíssima estrutura de documentário (e tudo acaba por denunciar essas pretensões, começando logo pelos planos demasiado limpinhos e por uma découpage muito certinha), mas no lado real da viagem, é difícil conter o deslumbramento visual, perante tantas e tão belas paisagens e locais. E claro, se estamos em Itália, e se em grande parte do filme se fala de outros filmes (e de certos atores em particular), não poderiam faltar divertidas referências ao mundo de O Padrinho. Mas há muito mais para descobrir, e o humor irreverente da dupla de protagonistas compensa a demasiada rapidez em que se processam alguns dos elementos da narrativa de que fazem parte.

O humor é a base de A Viagem a Itália, e raras são as ocasiões em que nos podemos maravilhar com um filme por uma razão tão simples como esta: conversas parvas e aleatórias. Porque esta é mesmo uma das boas comédias do ano, e uma das apostas mais inesperadas a estrear nas nossas salas. Seria bom encontrar mais filmes assim nessas condições apropriadas, e não conferir a este outro tipo de humor o destino mais vulgar a que costuma ser sujeito (o da entrada direta no home video, ou em muitos casos, o puro desprezo em qualquer formato no mercado nacional – como aconteceu ao filme que Steve Coogan fez com o seu personagem mais conhecido, Alan Partridge: Alpha Papa). Porque é no seu lado mais simples que reside a sua maior originalidade, numa segunda investida que se revela ser vencedora, tal como foi a primeira. É para rir e chorar por mais.

8/10

Ficha Técnica:

Título: The Trip to Italy

Realizador: Michael Winterbottom

Argumento: Michael Winterbottom

Elenco: Rob Brydon, Steve Coogan, Rosie Fellner

Género: Comédia, Drama

Duração: 108 minutos