Ao terceiro dia do XX Festival Caminhos do Cinema Português, o Espalha-Factos assistiu à sessão da noite. Foram exibidos quatro filmes neste serão de domingo: Os meninos do rio, de Javier Mancip; Miami, de Simão Cayatte, Imaculado, de Gonçalo Waddington; e Pára-me de repente o pensamento, de Jorge Pelicano.

Os meninos do rio

Esta produção ibérica, pela mão do realizador espanhol  Javier Macipe Costa, que viveu no Port0, traz-nos a história de Leo, um rapaz de 12 anos da ribeira. Leo está apaixonado por Samira, mas esta não lhe liga nenhuma. Para chamar a sua atenção, Leo está disposto a uma mostra de amor irrevogável. Mas o rapaz que nunca saltou da ponte D. Luís como os outros, poderá ir longe de mais….

Este filme de  Javier Macipe apresenta-nos uma ribeira do Porto jovem e poética, recheada de amores juvenis. Os rapazes exibem-se saltando do tabuleiro inferior da ponte D. Luís para o rio, enquanto as raparigas observam enquanto apanham banhos de sol. É o verão na ribeira e é com este plano de fundo que Javier Macipe nos conta esta história de amor e força que ele tem, dedicado a “todas as raparigas que não gostaram de mim e que nunca hão de gostar”.

Miami

Raquel quer ser famosa, custe o que custar. O falhanço não é opção, enquanto vai partilhando o sonho com as amigas, cujo apogeu da vida é assistir ao pôr do sol em Miami. É um retrato da juventude moderna que Simão Cayatte faz, uma geração que vive em frente à televisão, sonhando com fama e fortuna. À semelhança de Disposta a tudo, de  Gus Van Sant, ou aos miúdos de Sofia Coppola, em Bling Ring, a fama é o bem maior e justifica tudo.

Alba Baptista faz um papel excelente como protagonista, nomeadamente na entrevista a si própria, ao espelho. Ao assistir a essa cena, sentimos a devoção que Raquel tem pela fama. Uma execução técnica sem falhas e uma realização que consegue agarrar o espetador. Não é que o tema seja inovador, mas a execução é de grande qualidade.

Imaculado

Este trabalho realizado por Gonçalo Waddington pretende abordar a confusão e conflito interno que a personagem principal atravessa, devido a um problema que ele próprio não compreende. Entre o quotidiano da vida rural e a avó à lareira, o drama imenso da personagem só é percetível no final da curta, deixando o espetador confuso.

Não há nada ao longo dos 16 minutos da curta (à parte do final) que indique ao espetador o dilema que a personagem sente. O dilema deve ser tão profundo que é impossível mostrar a Gonçalo Waddington, que também interpreta este personagem principal, mostrar o que quer que seja.

Do ponto de vista técnico, não há falhas a apontar e até a performance de Waddington é bastante boa. Falha é a realização, na forma como mostra ao espetador o tema do trabalho.

Pára-me de repente o pensamento

Esta longa metragem documental de Jorge Pelicano tem lugar no Centro Hospitalar Conde de Ferreira, no Porto, hospital psiquiátrico de referência. Ao documentar o quotidiano dos pacientes que o frequentam, vamos conhecendo pessoas diversas, com um fado comum: a mente pregou-lhes partidas e acabaram ali, muitos incapazes de viverem em sociedade. Na ala dos doentes que sofrem de esquizofrenia, vamos ouvindo conversas quotidianas. Ao bom exemplo do louco de Gil Vicente, é da boca daqueles que aparentam ser mais dementes que saem as maiores verdades, que deixaram a plateia agarrada à barriga de tanto rir.

É neste ambiente que surge o único ator do filme. Interpretado por Miguel Borges, apresenta-se como ator de teatro, que vem conhecer os habitantes do Conde Ferreira com vista a participar numa peça de teatro. Um poema de Ângelo de Lima, sobre a doença com que lutou toda a vida, abre-lhe uma nova perspetiva sobre a esquizofrenia. A interpretação do poema no filme é poderosa, relembrando-nos da qualidade de realização de  Jorge Pelicano.

O autor de  Ainda há pastores? (2006), volta ao grande ecrã com uma produção que tenta compreender uma das doenças mais estigmatizadas na nossa sociedade. Um retrato que oscila entre os momentos leves do quotidiano e o sofrimento que a doença causa, aproxima o público daqueles que sofrem desta terrível doença. A ver.