Segunda-feira foi dia de assistir a uma sessão de cinema experimental, na Secção Ensaios, do XX Festival Caminhos do Cinema Português. Estas sessões, populadas por filmes saídos das escolas de cinema nacionais, mas não só, têm lugar no Auditório do Convento de Santa Clara-a-Velha. Esta segunda-feira foram exibidas cinco películas: Demência, de Rafael Almeida, estudante da UBI; Íris, de Hugo Magro, estudante na Restart; O sítio onde as raposas dizem boa noite, de Rui Esperança, aluno da ESTC; The Buffalo Kid, de Pedro Marnoto, NYU; e Estranhamento, de Pedro Cabeleira, também da ESTC.

Demência

Este trabalho de Rafael Almeida, feito no contexto de uma cadeira do seu curso na Universidade da Beira Interior (UBI), tinha como requerimento a inexistência, à partida, de um argumento. As sequências foram criadas no momento da filmagem, o que criou uma narrativa algo desconexa. O filme tem lugar num palácio belíssimo, cuja localização o realizador revelou estar proibido de dizer.

Esta curta aborda as perturbações mentais do protagonista, enquanto vai tendo visões e ataques. O realizador consegue criar uma atmosfera sombria e algumas cenas bem conseguidas, embora a produção tenha alguns problemas com a cor. A tentativa de contornar a falta de enredo movendo o enfoque do trabalho para as sensações que o protagonista experimenta não é bem conseguida pois nunca nos sentimos dentro da mente deste; apenas assistimos ao seu sofrimento.

É um bom trabalho do ponto de vista da imagem, com planos e algumas sequências bem conseguidas.

Íris

Hugo Magro apresenta um projecto realizado durante o seu curso no Restart – Instituto de Criatividade, Arte e Novas Tecnologias. Esta curta propõe-nos falar sobre o divórcio e as últimas réstias de amor. Júlia e Francisco têm uma filha em comum mas já não vivem juntos. No dia em que se encontram depois da filha de ambos ter passado mais um fim de semana com o pai, Francisco e Júlia conversam. As performances são boas, a curta não apresenta falhas do ponto de vista técnico. Mas é tudo. Um trabalho bem feito, com bons atores e uma boa produção, mas que não nos traz nada de novo.

O sítio onde as raposas dizem boa noite

Este drama de Rui Esperança, produzido pelos alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema, traz-nos os dramas de um grupo de jovens adultos. Rui Esperança faz parecer fácil a criação de personagens realistas e credíveis. O trabalho apresenta um drama corriqueiro, mas profundo, em que um dos elementos de uma banda conta à namorada de um dos seus colegas, com a qual tem um affair, que se vai embora. Isso implica o afastamento e o final da banda, mas ela está menos preocupada com isso do que com a razão pela qual ela foi a primeira a saber.

A curta desenrola-se após um concerto do grupo e apresenta-nos uma análise sobre as relações humanas nos tempos modernos, bem como um certo cinismo no modo como dá ao espetador a saber que toda a felicidade e alegria nas relações apresentadas é efémera, pois um dos elementos da banda irá abandoná-la em breve, sem que os outros o saibam ainda.

Um trabalho jovem e irreverente, que mostra como as relações humanas devem ser representadas aos olhos das novas gerações do cinema. A ver.

The Buffalo Kid

Produzida nos Estados Unidos por um realizador português, este trabalho de Pedro Marnoto foi realizado enquanto este era aluno na New York University (NYU). The Buffalo Kid é um trompetista que perde a sua musa. Essa perda coloca-o à deriva pela cidade, incapaz de tocar no seu trompete. Quando, num momento de desespero, se tenta livrar dele, surge a salvação.

Esta curta de Pedro Marnoto apresenta uma boa fotografia, e uma excelente banda sonora, mas os personagens não convencem. Um trabalho algo fantasioso no argumento, mas excelente do ponto de vista técnico.

Estranhamento

Semblante é um ator, acusado de matar a sua própria personagem num filme. Este non-sense inicial é o ponto de partida para o esbatimento entre a realidade e a ficção. Pedro Cabeleira e os alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema criam uma desconstrução do cinema, em que o protagonista se vai apercebendo dos elementos que compõem o filme. A integração das personagens e da narrativa na desconstrução leva a um filme engraçado mas algo confuso do ponto de vista narrativo.

O trabalho é bom, do ponto de vista técnico, e o ambiente vintage criado é muito interessante. Com boas performances, é um ensaio que vale a pena conhecer. Especialmente se se gostar de narrativas alternativas.