Há quem lhe chame “agonia literária”. Com uma capacidade de desbravar as emoções humanas e torna-las traduzíveis em palavras, José Luís Peixoto partilha, na sua obra Morreste-me, de forma despudorada, despida de preconceitos e de vergonha, o que é, para um filho, perder o pai. O luto, o vazio, e, em simultâneo, a necessidade (mesmo sem vontade) de continuar, de viver. Porque o mundo existe e não mudou, embora tudo esteja paradoxalmente diferente.

«E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.»

morresteme

Peixoto começa por descrever o cenário da sua terra, sítio onde viveu com os seus pais, e que permanece igual: as ruas, as casas, o ambiente. Existe, contudo, algo que lhe distorce o olhar e não o deixa reconhecer a sua terra como estando igual: essa visão entorpecida deve-se à perda demasiado recente da sua referência paternal, e do facto de não conseguir olhar para o lugar que sempre conheceu e deixar de ver o seu pai, agora morto, em todos os lugares, em todas as esquinas, em todas as recordações que aquela aldeia nele desperta. «Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride.»

Descreve, a certo ponto, a sua última experiência com o pai: a visita ao hospital, o Homem que outrora lhe ensinara tantas coisas, agora dependente e sustido por uma máquina, os seus olhos vazados de toda a vida que neles habitara e a pele, ainda viva, a sustentar um interior que já esmorecera. Conta como foi precisa demasiada coragem para mentir, para dizer algo no qual de facto não acreditava, só para que o silêncio não doesse tanto. A esperança que já não era esperança mas sim algo inominável, a tentativa de não ficar calado quando na realidade não há nada para dizer e tanto para sentir.

A sua mãe e a sua irmã aparecem, neste livro, como vítimas da mesma perda, curvadas pelo que lhes pesa a perda de um pai e de um marido, tão próximas mas tão distantes, na mesma dor e simultaneamente numa dor particular, que se insinua em cada um de forma tão diferente.

Quando volta a casa e repete os movimentos, os rituais que reconhece como sendo do seu pai, a tristeza invade-o. Percebe-se num cenário tão familiar e agora tão desconfortável, povoado, para além de vazio, somente de memórias. Não consegue evitar pensar num cenário idílico, num tempo longínquo e livre da doença e da morte onde a família, reunida e ainda feliz, se sentava à mesa e todos sorriam.

O funeral do pai é também um momento bastante traumático e carregado de uma dor indescritível. A escrita desordenada, sem frases coerentes ou regras gramaticais bem aplicadas transportam-nos para um indivíduo perturbado, deslocado, que olha para o pai, defunto frio dentro de um caixão, e percebe que não voltará a ouvir a sua voz nem a vê-lo com vida. Não deixa de ouvir todas as palavras dos outros, que se dirigem a si com abraços e pensam compreender o seu mal, que lhe dão os seus sentimentos, desejam força e oferecem ajuda. Embora tal discurso vindo dos outros, alguns até familiares, venha certamente dotado de boa vontade, não lhe vale de nada e em nada muda a sua solidão e desespero.

«Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas- me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo.»

Este é, como alguns dizem, o livro que gostariam de ter escrito e não escreveram. Por impossibilidade de qualificar a situação, por incapacidade de transpor para palavras o sentimento devastador que é a morte de um pai.

A emoção torna-se tão assustadoramente familiar, tão presente e palpável, que é impossível ficar indiferente a esta obra (mesmo para quem nunca passou por uma perda na sua vida). A verdade é que, mesmo eu, que tenho os meus dois pais comigo, dei pelo meu pensamento a fluir na direção da possibilidade de esse privilégio não ser eterno e poder acabar a qualquer momento.

O que fica após a leitura desta obra é a sensação de que, embora tão pequena em tamanho, esta consegue extrapolar a dimensão física e aportar uma carga simbólica tão profunda e agregadora, tal como uma inédita capacidade de dar voz a um sentimento outrora visto como impossível de expressar. Para além disto, não reconheci, em mim, a sensação de ter invadido a vida e a intimidade do autor – muito pelo contrário, dei comigo a louvar a extrema proeza deste para se aproximar do leitor e simultaneamente espancá-lo e abraçá-lo com as suas palavras. Neste caso, a perda aguçou-lhe o engenho, e daí resultou o seu livro mais intimista e transparente, para além de Abraço.

Nota final: 9/10

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