No segundo dia da vigésima edição do Festival Caminhos do Cinema Português foram exibidas duas curtas de animação (Ana Um Palíndromo e O Canto dos 4 Caminhos), três curtas de ficção (Éden, Branco e Cigano) e um documentário (Nós os chineses).

O Espalha-Factos assistiu à sessão de final de tarde e conta-te o melhor e o pior dos seis filmes exibidos, divididos em diferentes secções: a Secção Caminhos, que é categoria geral, de competição, e do qual sairá o vencedor do Grande Prémio do Festival Portugal Sou Eu; a Secção Ensaios, de cinema mais experimental, onde serão exibidos trabalhos produzidos por alunos das escolas de cinema nacionais; Retrospetiva, onde são exibidos filmes de edições anteriores do FCCP, como forma de celebração da XX edição; Caminhos Juniores, de filmes para um público mais jovem, à qual diversos alunos das escolas de Coimbra se deslocarão; Caminhos Seniores, que, como o nome indica, apresenta filmes para um público mais velho; e, por fim, os Caminhos Mundiais, curados por Piotr Maciantowicz, apresentam uma mostra do cinema polaco contemporâneo

Ana Um Palíndromo

Nesta curta de animação, Joana Toste propõe-se a um exercício que se assemelha a um palídromo cinematográfico. Ana Plaídromo é a personagem principal, narrando uma análise sobre as simetrias entre passado e futuro, que é acompanhada por uma sombra que, tal como um palíndromo, repete as suas ações, só que de trás para a frente.

O Canto dos 4 caminhos

Nesta animação de  Nuno Amorim, o protagonista, vive numa ilha, junto ao farol e procura um pássaro peculiar. Ao longo da jornada, vai encontrando diversos espécimes da fauna portuguesa, com a ajuda de um papagaio capaz de imitar os sons das outras aves. Só que o pássaro é mais difícil de encontrar do que ele pensava.

A apresentação de belos desenhos de pássaros que o protagonista vai desenhando, bem como o desenrolar da ação através do que parecem ser storyboards (e ainda algumas linhas auxiliares dos desenhos deixadas propositadamente por remover) dão uma certa beleza ao filme. A banda sonora completa o espetáculo, feita do canto de diversos pássaros da fauna nacional.

O Canto dos 4 caminhos. Fonte: cinept.ubi.pt

Éden

Pedro e João estão no carro. João não quer que Pedro vá. Pedro diz a João que venha com eles, mas João não quer; é daqui do Alentejo, há de morrer no Alentejo. A conversa desenrola-se, os dois beijam-se. Entretanto chega Sara, que quer levar Pedro consigo. Sara sabe que Pedro e João estiveram apaixonados, mas isso não a impede de ter uma relação com Pedro. Os dois partem, deixando João para trás.

É neste triângulo amoroso de passagem que o realizador Fábio Freitas desenvolve a sua trama. Não falta um passado idílico para o casal gay, com maçã incluída. Este Adão e Eva moderno, com interpretações irrepreensíveis de Nuno Pardal e Pedro Sousa Loureiro, peca pelo argumento demasiado minimalista, mas carregado de simbologia.

O final consegue segurar o filme, mas mostra-nos um mundo negro, onde a mágoa é mais forte que o amor.

Branco

Nuno Melo é Branco, um ex-militar que já viu melhores dias, encontrando-se claramente perturbado, talvez por causa da cocaína que consome. Mas Branco tem uma missão: salvar a pátria, custe o que custar. Nem que isso implique “o sacrifício da própria vida”, como diz o juramento de bandeira.

O que esta curta tem de melhor é a construção das personagens que Branco vê como inimigos da pátria. Os dois “merdas”, na opinião de Branco, interpretados por Fernando Ferrão e Joaquim Nicolau, costumam estar a jogar bilhar no café do bairro. Apresentam um discurso maniqueísta e primário, de descrença total no sistema político, que todos já ouvimos alguma vez no café ou no autocarro. A mesa de bilhar parece um campo de batalha em que as bolas vão colidindo umas com as outras à medida que o discurso dos dois vai deitando abaixo todas as instituições políticas portuguesas.

Este trabalho de Luís Alves centra-se na caracterização destas personagens da nossa praça, mas chega a ir mais além, explorando a perturbação mental de Branco, numa grande performance de Nuno Melo.

Cigano

Esta curta sobre preconceito, mas com uma certa dose de humor, apresenta-nos Sebastião, um beto que tem um furo no seu caro, e Zé Tó, um cigano que o ajuda a mudar o pneu. Sebastião acaba por dar boleia a Zé Tó, contrariado. As situações vão se sucedendo, muito à custa de linguagem corporal, mais do que de palavras.

Irrepreensível na parte técnica e com boas interpretações, dá-se à liberdade de explorar o preconceito de um prisma diferente, descomprometido mas relevante. O final, inesperado e inteligente, só reforça esta perspetiva singular que David Bonneville cria nesta curta.

Nós os chineses

Nós os chineses é um discurso na primeira pessoa da comunidade chinesa em Portugal. Estes imigrantes falam da sua opinião sobre a cultura portuguesa, mas também a chinesa. Abordando temas como a educação, as diferenças de valores entre as duas culturas ou as suas experiências à chegada ao país, os chineses intervenientes abrem uma porta para a compreensão e o diálogo entre a comunidade chinesa e os portugueses com que convivem.

O trabalho de Carlos Fraga permite-nos conhecer melhor a comunidade chinesa mas também nos oferece uma imagem da sociedade portuguesa muito interessante. Não foram poucas as gargalhadas de auto-reconhecimento do público nas críticas que alguns intervenientes apontaram à sociedade portuguesa. “Não têm pressa” deve ser a observação dos chineses sobre os portugueses mais repetida ao longo do documentário.

De semelhanças e contrastes se faz esta peça documental, permitindo-nos compreender melhor uma das comunidades imigrantes mais numerosas em Portugal.