Uma ampulheta, dois espelhos, uma viola, um roll-up com um texto de Shakespeare e música do século XV receberam os espectadores na entrada da Sala Garrett. Estes seriam os elementos da cenografia, orientada por Corina Gramosteanu, que iriam marcar a evolução de Folia, Shakespeare & Co. E já estavam ali, para que os espectadores os pudessem decifrar.

Pelas 21 horas, e com a sala praticamente lotada, a peça mais recente do coreógrafo Gigi Caciuleanu, subiu ao Palco do Teatro Nacional D. Maria II. A música instrumental de entrada silenciou-se para dar lugar aos passos dos 11 bailarinos da Companhia Romena. Todos vestiam roupa preta e um chapéu colorido de bobo da corte.

Os intérpretes aproximavam-se da ampulheta do tempo, com movimentos que sugeriam um medo bastante atual: a passagem do tempo e as suas consequências no corpo. Mas este tempo teria de ser ultrapassado ao longo da peça, pois iriam surgir flashes de personagens das tragédias e comédias shakespearianas.

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O medo anulou-se quando surgiu uma música com ritmos mais acelerados, como se fosse um empurrão para uma evolução no tempo. Paralelamente, os movimentos tornaram-se mais rápidos e dois intérpretes reviraram a ampulheta. Mas depressa se percebeu que o tempo cronológico não iria ser um elemento fundamental em Folia, Shakespeare & Co. O tempo em que se movem os corpos iria definir a ação da peça.

“Love is madness” foi uma das frases declaradas expressivamente na peça, e pode bem ser a expressão que mais reflete o seu  conceito . Aliás, folia (incluída no título da peça) significa a loucura vivida no amor.

Muitas vezes, os intérpretes representaram, em duetos, “romances” corporais. Os duetos questionaram a repetição dos movimentos e de como ela nunca é igual, tal e qual como numa relação.  Também o desequilíbrio nas elevações ou das extensões de pernas e braços estiveram presentes em palco, para poder representar o perigo do amor.

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Gigi Caciuleanu foi demasiado objetivo quando decidiu colocar dois espelhos em Palco. Estes elementos já vêm sendo uma constante nos espetáculos contemporâneos e representam a preocupação do Ser Humano pela imagem. Os intérpretes que passavam pelo espelho remexiam no chapéu de bobo e tendiam a mudar o tempo dos movimentos, como se estivessem enlouquecidos pelo que viam.

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Aliás, a loucura pela imagem que deixamos no reflexo daqueles que nos observam foi o ponto de partida da peça. Gigi Caciuleanu pensou pela primeira vez no ridículo da imagem, quando representou o bobo no Lago dos Cisnes na Ópera de Bucareste. Neste bailado, o bobo é a personagem “menos séria” e não se preocupa em sê-lo, tornando-se a personagem menos ridícula. Em Folia, Shakespeare & Co, o bobo representa cada um de nós e a nossa tentativa de querer fazer “boa figura” perante o olhar do outro, sendo que a autenticidade fica muitas vezes esquecida.

As personagens de Shakespeare estiveram presentes na peça de forma esporádica e por vezes imperceptível. Percebeu-se que Gigi Caciuleanu não pretendia colar-se a personagens do século XVI. A referência mais óbvia foi a Romeu e Julieta, sendo o momento mais corporal da peça. Dois intérpretes “despiram” o chapéu e representaram o amor na sua forma mais nobre e enlouquecida. Como referiu um dos intérpretes “Love is blind”, pois vence os espelhos e os olhares. Gigi deixou demasiado evidente que o amor desmascara as personagens que construímos no dia-a-dia.

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A interpretação dos 11 bailarinos também se mostrou muito versátil. Além da consistência corporal, que permitiu uma clara qualidade de movimentos e expressões faciais muito diversas, existiram vocalizações em diferentes tons, que mediaram a peça entre o século XVI e a atualidade.

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Gigi Caciuleanu tem vindo a mostrar ser um dos coreógrafos que mais sabe atingir o âmago da Dança – Teatro, a comunicação com o público. De certeza, que muitos dos espetadores do Teatro Nacional se transpuseram para Palco e pensaram nas figuras ridículas que costumam normalmente fazer.

O coreógrafo Gigi Caciuleanu numa conversa informal com o público, onde explicou algumas das intenções do espetáculo.

O coreógrafo Gigi Caciuleanu numa conversa informal com o público, onde explicou algumas das intenções do espetáculo.

 “No Teatro da vida somos todos bobos. Perdão! Vocês também o são!” Esta foi uma das frases declaradas por Gigi Caciuleanu numa conversa informal com o público, após o espetáculo.

Para o coreógrafo: “O importante na peça foi o som das palavras. “ A sonoridade da linguagem arcaica de Shakespeare guiou o movimento dos corpos. “Nem me interessava que se entendessem todas as palavras. Os movimentos são mais que palavras.(…) Shakespeare é apenas um pretexto para falar da vida e de nós.”

O jogo entre a fragilidade e a força é algo que o coreógrafo tenta colocar sempre nas suas peças. Um bailarino parece imperturbável nos seus movimentos, mas o que interessa não é segurança na sua execução, mas sim a forma como recupera dos movimentos anteriores, tal e qual como na vida. Gigi Caciuleanu definiu coreografia como: “ o caminho mais distante entre dois pontos”. Os dois pontos são os bailarinos que muitas vezes se tornam um obstáculo entre si.

Gigi Caciuleanu ainda evidenciou as dificuldades que se vivem no Mundo do Espetáculo. O coreógrafo explicou que utilizou o roll-up inicial com uma carta de Shakespeare a um mecenas, como uma referência à atual crise no Teatro. Shakespeare pedia dinheiro para viver. Tal e qual como  muitos artistas contemporâneos, que vivem dificuldades, necessitam de subsídios e da programação dos Teatros.

Ao longo da sua conversa, o coreógrafo revelou que Fernando Pessoa tem sido uma das suas inspirações nos jogos de personalidades, que tem criado em palco. E deixou uma promessa: “Vou fazer um espetáculo sobre Pessoa!” O público do Teatro Nacional D. Maria II reagiu com aplausos eufóricos.