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LEFFEST’14: Um Adeus Cheio de Emoção

O Lisbon & Estoril Film Festival despede-se do público lisboeta, depois de levar até ele o melhor do que se fez no último ano cinematográfico. Depois de dezenas e dezenas de filmes, homenagens, conversas, risos e lágrimas o festival chega a um fim e encerra com chave de ouro, com um belíssimo retrato da crise em Deux Jours, Une Nuit e uma montanha-russa de emoções que é o Mommy de Xavier Dolan

O último dia do LEFFEST contou com dois dos maiores nomes deste ano na secção competitiva de Cannes. O filme protagonizado por Marion Cotillard é o mais recente representante belga à corrida ao Oscar de melhor filme estrangeiro e não desiludiu. Com a presença dos realizadores em sala, só faltando mesmo a atriz francesa, o público e os cineastas foram trocando impressões e debatendo a questão da solidariedade em tempos de crise. Será que aumenta? Ou torna-se ela, também, mais frágil?

Já o candidato canadiano ao Oscar de melhor filme estrangeiro foi o filme de encerramento e um dos grandes nomes do cinema feito em 2014. Mommy foi o filme que deu a Xavier Dolan o prémio do júri em Cannes, o mesmo que dividiu nada mais, nada menos, com Jean-Luc Godard – gigante do cinema francês e uma das caras mais preponderantes da Nouvelle Vague dos anos 60. Mommy é um apaixonante filme que se assume como um dos maiores trabalhos artísticos de excelência deste último ano.

Deux Jours, Une Nuit – 8/10

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Este filme é o expoente máximo do mote: “less is more“. Um filme que baseia toda a sua estrutura narrativa numa simples acção. A linearidade do plot não deixa espaço a histórias secundárias e a linha narrativa nunca se desmembra em várias. Estamos sempre com Sandra (Marion Cotillard) e com ela vamos para sempre ficar nesta película. E o incrível trabalho de realização fez com que este filme resultasse de uma forma plena já que a história de Sandra, por mais simples que seja, revela-nos todo um retrato cru e realista da nossa sociedade atual, depois de ter sido fortemente afetada pela crise de 2008.

E é mesmo este retrato que nos move. Os irmãos Dardenne conseguiram que nós, espetadores, nos sentíssemos tão entranhados na narrativa que nos era inevitável querer abraçar aquela frágil personagem, Sandra, que via o seu orgulho a ser completamente despedaçado por um sistema completamente injusto e cruelmente discriminatório. A vergonha de pedir, mendigar até, o embaraço de fazer com que os seus colegas de trabalho tenham pena dela, tudo isto faz-nos entrar num estado meio esbaforido e até asfixiante.

O certo é que todos nós já encontrámos este Sandra na nossa vida, uns, claro, já a sentiram mesmo dentro deles próprios e é isso mesmo que a história nos quer transmitir: Uma história completamente banal, infelizmente, o que quer dizer que é cada vez mais ocasional na nossa sociedade doente. Uma história que não entra por caminhos pretensiosos, muito longe fica deles, e uma acção fragmentada, quase dividida em episódios, que nos vai dando todas as peças para que no fim façamos o puzzle geral.

Curiosamente, uma frase proferida por Luc Dardenne pode também resumir a entrega de Cotillard como Sandra: “quando escolhes um ator para certa personagem tens duas hipóteses. A primeira é quando escolhes atores que não sejam conhecidos para que se apaguem na personagem. A segunda é quando faz um cast de uma estrela de cinema, aí tens de garantir que elas se consigam apagar por detrás da personagem, o que pressupõe muito mais trabalho“. Marion Cotillard é uma estrela de cinema e por momento algum pensamos que estamos a vê-la no grande ecrã. Vemos Sandra, vemos as suas amarguras, as suas lágrimas e gritos por ajuda. Vemos uma das maiores entregas da atriz francesa num fabuloso filme dos irmãos Dardenne.

Mommy – 9.5/10

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E qual a melhor forma de acabar o LEFFEST? Encerrando com o mais recente filme de Xavier Dolan é a resposta. Apaixonante, comovente, emocionante e, acima de tudo, uma entrega brilhante de uma das vozes mais promissoras no mundo da realização atual. Apresentado ao público no Monumental como “o verdadeiro merecedor da Palma de Ouro deste ano”, Mommy foi o mais belo filme que vi nesta edição do festival e uma das melhores películas do ano.

Je Tué Ma Mère foi a primeira longa-metragem por Dolan. E se a temática pode tocar nesta de Mommy, é-nos inevitável notar um amadurecimento notável das capacidades do jovem Xavier enquanto realizador e argumentista. Não tirando o mérito à primeira película do realizador canadiano, este seu Mommy é bastante superior ao filme de 2009 e talvez o seu melhor trabalho feito até à data. Tudo neste filme funciona, desde a química entre os atores à harmonia técnica entre banda-sonora e imagem, até a genial brincadeira ao filmar em diferentes formatos, saltando do 1:1 para o 16:9.

Voltando à sua primeira longa-metragem. A própria abordagem de Dolan à questão maternal no argumento sofre um incrível amadurecimento. Vemos aqui a mãe (Anne Dorval) como uma personagem muito mais central na vida do seu protegido (Antoine-Olivier Pilon), mesmo continuando a haver uma grave relação de conflito entre os dois. Mas vemos uma perspectiva muito mais crescida e ciente do amor incondicional de uma mãe, vemos o quanto elas sofrem, o quanto elas protegem, o quanto elas defendem, por vezes até irracionalmente os seus filhos. Este filme não é um desacreditar do papel maternal, mas sim um cantar dos feitos de todas as mães deste planeta, um louvar  ao mais puro dos amores.

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Dolan entrega-nos uma peça fantástica capaz de nos levar às lágrimas. Anne Dorval é magistral enquanto Die, ela capta na perfeição o seu lado mais cómico e de trash como também toda a humanidade que esta grande personagem tem, toda a fragilidade de uma mãe sozinha que se vê de mãos e pés atados ao criar um filho problemático. Antoine-Olivier Pilon foi, também por outro lado, um pequeno grande prodígio e a principal razão por este ser um dos filmes mais carismáticos do ano. A sua entrega é total e o seu trabalho é magnífico. Para findar, a química entre estes dois atores é fenomenal e ambos se completam numa harmonia incrível.

E assim Mommy encerrou o LEFFEST’14, colocando um ponto final da melhor forma nesta oitava edição do festival. Uma edição que contou com uma consolidação da secção competitiva, grandes nomes na não competitiva, várias homenagens e retrospectivas bastante belas e peculiares e ainda com um simpósio bastante polémico. O Lisbon & Estoril Film Festival volta para o ano e cada vez mais se arrisca a tornar-se no mais importante festival de cinema feito em Portugal.

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