Depois de dois anos sem se realizar, o Festival Caminhos do Cinema Português celebra este ano a sua vigésima edição. Trazendo a Coimbra o que de melhor se faz no Cinema Português, o festival teve ontem a sua cerimónia de abertura, no Teatro Académico de Gil Vicente. Foram ainda exibidas os filmes Paloma, Dios por el cuello e Bicicleta, estes dois últimos fazendo parte da Seleção Caminhos. O Espalha-Factos, como colaborador, esteve presente e conta-te tudo.

Foi pouco depois das 22 horas que, no Teatro Académico de Gil Vicente, as luzes se apagaram para dar lugar ao número de dança das alunas da Escola de Dança Rita Grado, ao som da Sagração da Primavera de Stravinsky. Seguiu-se o discurso de abertura, pelo diretor do Festival. Vitor Ferreia fez duras críticas a diversas instituições,nomeadamente ao governo, relativamente à falta de apoios para o cinema e as artes em geral.

Vítor Ferreira, diretor do Festival.

Paloma

Findos os eventos protocolares, entrou em palco Nuno Portugal, coordenador da 3ª edição do Curso Cinemalogia – Da ideia ao filme. Nuno Portugal veio apresentar a curta Paloma, realizada pelos alunos do curso. Paloma é o resultado final, integrando o trabalho dos diversos módulos em que se dividiu o curso, o que se nota na realização do filme, pois opõe-se uma direção artística fraca a um argumento interessante, mas com alguns diálogos inferiores. Nesta curta, Paloma é-nos apresentada como uma emigrante argentina que pretende aproveitar a passagem do Papa por Coimbra para reviver um passado amoroso em comum. Em termos das performances, destaca-se Vânia Fernandes como atriz secundária. Já Fernando Taborda, no papel de Papa, praticou um “portunhol” muito duvidoso.

Uma capa de estudante de Coimbra com o nome do Papa, Fernando, bordado a letras garrafais douradas completa o conjunto, mostrando um filme que prefere ser uma oportunidade para os alunos de colocarem as “mãos na massa” do que uma obra cinematográfica.

Dios por el cuello

Este trabalho foi realizado por José Trigueiros, durante um mestrado em cinema, em Barcelona. Passado em Espanha, com actores espanhóis mas realização portuguesa, é uma curta algo autobiográfica sobre os seus confrontos com a religião jeová. Pablo é levado pela mãe de porta em porta, a divulgar a sua religião, quando na realidade preferia estar numa festa de aniversário, festividade repudiada pela sua fé.

O filme gira em torno deste conflito entre mãe e filho e da religião que partilham mas que os afasta. O realizador não se perdeu em maniqueísmos, mostrando que quer os seguidores desta fé quer aqueles que a rejeitam são hostis aos olhos de Pablo. A única pessoa que Pablo quer mesmo ver é Joana, a aniversariante, na festa proibida. Vamos também compreendendo a imagem que Pablo tem sobre o que  a sociedade pensa da sua religião.

A dedicatória, no fim do filme, à mãe do realizador dá uma dimensão extra à película. Performances competentes, boa imagem, bom som e, na suma, uma boa produção fazem desta curta um trabalho que vale a pena ver.

Bicicleta

Passado no bairro do Aleixo, contando com habitantes do bairro como atores, esta curta-metragem de Luís Vieira Campos aborda a dureza da vida e a condição humana quando sujeita a tais condicionamentos. O trabalho de fotografia é muito bom, com planos muito bem conseguidos, mostrando sempre a crueza do prédio como reflexo das vidas de quem o habita.

Maria e António vivem no 4º andar de uma torre do Bairro, sem elevador. António tem uma oferta de emprego, mas precisa de uma bicicleta para a conseguir. Maria vai lavando roupa para fora para conseguir arranjar algum dinheiro. A mãe de António e a filha do casal completam este agregado familiar. O filme retrata o quotidiano do prédio, com laivos de humor, como uma Nossa Senhora de Fátima do século “XVIII ou XIX” ou Blandina, a vizinha vidente que precisa de comer para ter as suas visões.

A morte do vizinho no 12º andar é o momento do filme que permite mostrar a humanidade daqueles que, mesmo nas maiores adversidades, não hesitam em ajudar o próximo.  De destacar ainda o argumento escrito por Valter Hugo Mãe e banda sonora, onde encontramos temas como Por um triz, de Ana Deus, Alexandre Soares e letra de Regina Guimarães.

Um filme que se destaca pela qualidade do argumento e da fotografia. A ver.