O Lisbon & Estoril Film Festival continua a surpreender com os seus grandes filmes. Desta vez contempla a tragédia amorosa em 3 coeurs de Benoît Jacquot e o retrato de uma Rússia desconhecida em The Postman’s White Nights de Andrey Konchalovskiy.

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O filme 3 coeurs do realizador francês retrata a busca pelo amor impossível de três corações. Marc, um homem comum, perde o comboio para Paris. Neste infortúnio encontra Sylvie, uma mulher misteriosa que deambula pelas ruas silenciosas da província. Ambos falam de tudo e de nada e desenvolvem uma sintonia inexplicável, que os leva a marcar um novo encontro em Paris, na próxima sexta-feira. Marc tem um imprevisto, que o impossibilita de chegar a tempo ao local combinado e os dois amantes desencontram-se. Sylvie segue o seu caminho com o namorado, que estava suposta a deixar por Marc. Por sua vez, Marc volta a apaixonar-se, mas desta vez, pela insegura Sophie, sem saber que ela é irmã de Sylvie, a pessoa mais importante da sua vida. Curiosamente o seu primeiro encontro com Sophie se assemelha ao encontro com Sylvie, ambas vão ao mesmo restaurante e passeiam pelas mesmas ruas. Estas semelhanças criam à partida um desconforto e premonição dolorosa relativamente a este casal aparentemente feliz.

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O argumento é sublime e deixa-nos num ambiente de angústia permanente pelo destino dos protagonistas, visto que o espetador sabe desde o início toda a verdade trágica, que poderá arruinar esta família. As personagens movem-se simplesmente por impulsos e agoiros, que acabam por destruir a sua felicidade. Apesar de Marc, inicialmente, não saber que Sophie era irmã de Sylvie, o filme instala uma melancolia profunda em Marc, como se já previsse o desfecho trágico da sua actual relação. Marc e Sylvie tem uma evolução gradual no filme. Primeiro tem uma cumplicidade inocente, depois vivem uma felicidade incompleta com os seus novos companheiros e no fim sentem uma tormenta infinda por terem que omitir a sua paixão da irmã. Em contrapartida, Sophie continua na sua felicidade inocente com Marc até finalmente saber a verdade.

Outro ponto positivo no filme é o conjunto de planos magistralmente filmados. O campo e contra-campo no espelho durante a sequência inicial, os planos subjectivos que se transformam e os vários planos-sequência entre Marc e Sophie na estação de comboio são inesquecíveis e dão ao filme um olhar único, pouco visto no cinema actual.

O único aspecto negativo a apontar é o uso desnecessário da voz-off que invade a trama, sem nada a acrescentar de novo ao que foi visto. Para além disso, a música repetitiva de cariz trágico, que surge sempre inesperadamente nas cenas mais dolorosas, é desapropriada e não ajuda em nada a manter o suspense.

Em geral, o filme é brilhante tanto ao nível da narrativa como da imagem, não esquecendo as interpretações maravilhosas de Chiara Mastroiani no papel de Sophie e de Catherine Deneuve como a mãe das duas irmãs. Um filme que prova o valor do destino e que o amor pode ser também ele fulminante.

The Postman’s White Nights – 8.5/10

csm_the-postmans-white-nights_7ba676da20Numa aldeia remota da Rússia mora um carteiro que todos os dias atravessa a costa com o seu barco a motor, para distribuir o seu correio pelos seus habitantes. Todos os aldeões se conhecem bem e partilham as suas felicidades e angústias.  Apesar de viverem ao lado de um pólo tecnológico, a aldeia continua na mesma, vivendo tal como os seus antepassados.

No filme acompanhamos a rotina do carteiro e através das suas viagens de porta em porta entramos na vida de cada habitante, conhecendo as relações amorosas, os valores familiares, o alcoolismo pela vodka, as desavenças entre vizinhos e os mitos culturais partilhados nesta Rússia desconhecida aos nossos olhos. Por um lado observamos a paixão do carteiro por uma das habitantes, que decide fugir do isolamento e ir para a cidade. Por outro acompanhamos a ligação emocional entre o carteiro e o filho dela, que durante os seus passeios falam sobre o passado e o presente, a internet e os correios, o poder das crenças e da razão.

O argumento é maravilhoso por ser baseado em pessoas reais, que interpretam a sua própria história no filme. O filme está povoado de cenas emocionantes: o carteiro que visita a sua antiga escola em ruínas e no momento nostálgico, em que houve os ruídos de outrora, é acompanhado por um gato, um animal de superstição que o persegue, como se fosse o passado que reside na sua memória; e a cena final em que a tecnologia invade o espaço sossegado da aldeia. No mesmo plano, o passado e o futuro se conjugam numa dança ímpar, mostrando que estas duas dimensões ainda coexistem pacificamente na Rússia actual.