O grande Auditório da Culturgest foi ontem palco para a estreia nacional da mais recente criação artística de autoria da bailarina, escritora, professora e coreógrafa Ann Papoulis Adamovic: Mirage, uma peça que se reparte e funde em dezassete cenas. É um exercício que recolhe da dança, da música e do filme a essência da discípula de Merce Cunningham.

Na noite de 14 de novembro, a luz do auditório baixou pouco depois das 21.30h e Stilness – Quietude fez as honras a uma hora de solo sem intervalos. Ann Papoulis Adamovic apresentou-se integralmente vestida de preto e sobre um cenário desprovido de artifícios. Desde então, e sob assinatura marcada e inconfundível, o palco foi berço de uma indivisível relação entre o corpo em cena e as linguagens audio-visuais que o acompanharam.

Entre poesias, melodias e movimentos, o conceito ganhou forma: depois de Stillness, Mystery, Illusion Monologue, Story of a Landscape, Dialogue, Rain Pictures, Wings, Greek Sonata, The city, Morality Monologue, Repetition, Mind Visit or, Mad Monologue, The case, Wind, Madwomen in the Attic e Sha La Vi foram incorporados na profundidade de movimento da bailarina, deixando que o corpo se tornasse fio condutor: rejeitando a narrativa linear e cronológica, Ann Papoulis Adamovic deixou que a dinâmica do corpo se erguesse perante qualquer outro valor.

Aquilo a que a criadora apelidou de ”dançar as palavras” acabou por se revelar, ao longo de todo o espectáculo, numa tentativa acesa de colocar em confronto as verdadeiras ”trevas do nosso tempo” com tudo o que nos pode salvar delas – a beleza que nos resta. Fundiram-se movimentos circulares e dengosos em gestos bruscos e sistemáticos. O encadeamento serviu-se ora de rápidas corridas ora de discretos passos que tornaram omnipresente o corpo sempre em palco.

Mais do que uma dança, Mirage é o sentir da dança no corpo de quem o melhor sabe fazer. A debruçar-se sobre a hegemonia do gesto; simples, compassados e aliciantes poemas, escritos também pela intérprete, foram projectados, em português, na tela de fundo. O diálogo corporal entrou ainda em contacto com a projecção de imagens de fragmentos da vida da criadora, filmadas em Nova Iorque, Sarajevo, Liubliana, Paris entre outros.

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Mirage foi, pois, uma poética do pensamento expressa no físico: um transporte para o exterior do que é comummente inibido e repelido do que de mais profundo nos cabe. Através do tacto, razão pela qual as mãos adquirem, neste solo, uma importância fulcral, a mente expõe-se no sensorial e procura a harmonia.

Dirigido, composto, escrito, coreografado e dançado por Ann Papoulis Adamovic, Mirage revelou-se um movimento de resistência e resiliência, de inconformidade perante normas e convenções generalizadas. Um desmembramento da narrativa, um corte com a perfeição técnica e uma incessante busca por tudo o que está escondido ou às escuras, revelou, através da incorporação de dezassete temáticas, as profundezas da arte que é dançar.

“Sinto que quando estou sozinha em palco sou poderosa. É onde posso dar mais de mim. Mais do que quando escrevo, ensino, coreografo. Gosto de fazer todas essas coisas, mas penso que quando estou sozinha em palco há algo que acontece, uma beleza, um mistério, uma suspensão do tempo. É algo de muito privado mas ao mesmo tempo há diálogo com o público, a presença do público é muito importante. É uma situação fascinante. E é onde sou e dou o meu melhor.” – Ann Papoulis Adamovic em entrevista ao DN.