O oitavo dia do festival foi dedicado aos filmes em competição. O Espalha-Factos viu dois e cada vez mais a opinião solidifica-se: Esta é das melhores secções competitivas do LEFFEST até à data e finalmente esta parte do festival começa a ganhar destaque e terreno às antestreias.

O festival está já na reta final e ontem foi projetado no Monumental dois filmes de competição que, apesar de pertencerem à mesma secção, são bastante diferentes. Por um lado temos uma comédia mais ligeira sobre um amor entre um japonês e uma sul coreana. Do outro, a história de vida de uma rapariga que vivia nas ruas de Nova Iorque e se debatia, diariamente, com problemas contra a droga.

Hill of Freedom – 6.5/10

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Sang-soo Hong apresenta o seu mais recente filme que se contra até na secção de competição deste ano no LEFFEST. Hill of Freedom é um filme ligeiro, uma comédia dramática sem pouco drama, fracas performances mas inevitavelmente engraçada e de uma ingenuidade tanto nos seus aspetos técnicos como de argumento.

O mais peculiar neste filme é que o realizador sul coreano, que é também o argumentista, não tenta fazer mais daquilo que realmente se propõe a fazer. Este é apenas um pequeno filme sobre uma pequena alma perdida no meio de uma cidade coreana que tenta encontrar o seu pequeno amor. Uma película, em suma, pequena, pequena em termos de minutos, em termos de argumento com um plot fácil de assimilar, em termos de performances graças aos seus quase infantis diálogos e trocas de interação entre personagens. Mas esta pequenez do filme, esta sua simplicidade, antes, é aquilo que nos faz ficar fascinados com este trabalho de Hong.

Um dos aspetos mais interessantes da narrativa eram mesmo as questões culturais. Este é um importante filme para o ocidente ver o quão as culturas orientais podem chocar. Infelizmente ainda há um certo preconceito com este tipo de sociedades vindo do ocidente, um preconceito gerado apenas pela nossa ignorância e distância que temos sobre aquele mundo. Vendo apenas as semelhanças, assim, é-nos sempre fácil tirar a ilação de chamar a qualquer cultura oriental de “chinesa”, o que está completamente errada.

Mas se a simplicidade é genuína e adorável e as culturas são transpostas fielmente graças à própria visão do realizador que a vê como alguém de dentro, o filme em si não é, simplesmente, nada de especial. Um filme demasiado banal que não resiste, de todo, ao teste do tempo e acaba por ser completamente indiferente ao espetador.

Heaven Knows What – 9/10

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O mais recente filme dos irmãos Safdie, que abriu o Festival de Veneza e se encontra agora em competição no LEFFEST, é uma belíssima e comovente ode aos outcasts da sociedade e a toda uma geração trash que tenta sobreviver às frias ruas  de Nova Iorque. Uma história sobre uma rapariga alheia ao passado e descrente de um futuro que se torna num milagre.

A sessão foi marcada pela presença dos próprios realizadores que, completamente de coração aberto, nos falaram da experiência ao gravarem este filme. A história centra-se na atriz principal, Arielle Holmes, que interpreta Harley, uma personagem baseada na própria vida da atriz antes de conhecer o mundo do cinema e de viver mesmo nas ruas de Nova Iorque ao ter fugido de casa com 15 anos de idade. Uma película caracterizada por ter um cunho extremamente pessoal no argumento, que foi baseado na obra da própria Arielle, Mad Love, um livro que acabou por ser publicado mas que foi um desafio colocado pelos realizadores à atriz quando lhe anunciaram que queria fazer uma longa-metragem sobre a sua experiência enquanto uma sem-abrigo e a sua história de amor com Ilya.

Heaven Knows What assume-se assim como um filme extremamente genuíno, uma película magnífica e um marco na nova vaga do realismo extremo do cinema independente norte-americano. Uma entrega dos irmãos Safdie brilhante e uma estreia de Holmes ainda mais impactante numa história que não só nos transporta por completo para uma realidade tão longínqua da nossa zona de conforto, como também nos conta os amores e desamores de Harley com Ilya, uma completa confusão de sentimentos e uma total destruição emocional quase liricamente fatal. Harley é uma sem-abrigo e viciada em droga que ganha 20 dólares na rua e os esbanja em álcool, mas é também uma anti-heroína ao sobreviver às gélidas e perigosas ruas de Nova Iorque. A sua história é apaixonante e é-nos impossível não criar laços com esta personagem e atriz que, basicamente, são a mesma pessoa.

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E muito filmes há sobre esta temática, muitos filmes há sobre o movimento trash juvenil norte-americano. Ainda se lembram do Spring Breakers? Mas qual é a grande diferença? O filme de Korine é de uma artificialidade gritante quando nos deparamos com entregas como estas. O movimento trash Nova Iorquino nunca antes foi tão realista no grande ecrã, foi com Heaven Knows What que se revelou em todo o seu esplendor de decadência animalesca, que se mostrou por completo e assustou toda uma plateia e a comoveu também, levando facilmente o público às lágrimas ocasionais e mesmo aos gritos esporádicos de espanto.

Em suma, um filme brilhante que se insere como um dos mais fortes candidatos ao prémio de melhor filme nesta edição do Lisbon & Estoril Film Festival. Uma película sincera ao seu maior extremo e um dos melhores filmes do ano.