O Lisbon & Estoril Film Festival ofereceu ao público mais um dia de grandes filmes. Hoje tivemos o grande privilégio de visionar a obra cinematográfica de Mike Leigh de seu nome Mr.Turner, assistir ao filme protagonizado por Jessica Chastain e James McAvoy, The Disappearance of Eleanor Rigby: Them e ainda ver um filme do simpósio. 

Uma das grandes apostas deste ano do LEFFEST é a introdução do simpósio “Ficção e Realidade: Para além do Big Brother“, uma temática bastante interessante sobre a questão da constante vigilância a que estamos submetidos no nosso dia-a-dia e a forma de se fazer ficção a partir do real. O filme que o Espalha-Factos foi assistir é de 2000, mas é já um clássico no mundo das distopias. Com um conceito idealizado por Koushun Takami no seu romance Batalha real, esta história tornou-se bastante polémica depois de ser adaptada para o grande ecrã pelo realizador japonês Kinji Fukasaku que deu ao mundo, nada mais nada menos que Battle Royale, um filme já de culto e que se encaixa perfeitamente no tema do simpósio deste ano.

Este filme conta-nos a história de 40 jovens que foram transportados para uma ilha deserta com o objectivo de lutarem uns contra os outros até à morte. O último a sobreviver seria o vencedor destes jogos mortíferos… Não faz lembrar algo mais recente?

Mr. Turner – 8/10

Mr. Turner narra os últimos capítulos da vida e obra do pintor. Amado por uns, desprezado por outros, Turner era um homem de poucas palavras, mas com uma genialidade soberba, que encantava desde senhores da alta sociedade até a aldeões de baixa estirpe.

Turner possuía uma vida dupla, entre a casa na cidade que partilhava com o seu pai e uma criada e o quarto alugado pela Senhora Booth numa vila ao pé do mar. Na cidade dedicava-se à pintura, rodeado pelos seus companheiros da Royal Academy of Arts e pelos seus clientes que exigiam graciosamente a sua presença em tertúlias intelectuais. Na vila encontrava o seu refúgio na solidão com os seus quadros, afastado de todas as preocupações e da fama que já tinha alcançado. A sua relação terna com o pai se opunha à indiferença pelas mulheres da sua família e pela criada, que era usada como um mero objecto que fazia parte da mobília. A única excepção era a Senhora Booth, que tratava com todo o carinho tal como fizera com seu pai.

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O pintor é retratado como um homem rude e deveras rústico nos seus modos, o que contrasta com a leveza e graciosidade dos seus quadros de natureza marítima. Como de um homem grotesco nasce tamanha arte divinal? A disparidade entre a obra e o mestre é tal, que, à primeira vista, não parece que aquelas telas pertenciam àquele homem simples.

O realizador consegue com mestria transmitir, através da atuação de Timothy Spall, esse misto de sensações. Por um lado o seu físico e gestos pouco belos causam desconforto ao olhar, por outro a sua sensibilidade e percepção face à pintura deixam o espectador sem conseguir desviar os seus olhos da tela.

Outro grande momento do filme foi as transições entre os planos das pinturas e as paisagens marítimas. Por vezes ambos sobrepunham-se, parecendo que a paisagem era pintura e vice-versa. O jogo de sombras e luz conseguiram dar o brilho necessário para um filme dedicado a Turner.

Para finalizar é de ressalvar a relação entre Mr. Turner e as duas mulheres da sua vida: a criada, que despreza e quase deambula invisível pela casa, mas que no final da vida do pintor é a que mais sente a sua perda e a Senhora Booth, mulher que o pintor tanto estima e que mantém a sua fiel devoção até ao último suspiro.

Um filme imperdível sem dúvida.

 The Disappearance of Eleanor Rigby: Them – 7/10

THE DISAPPEARANCE OF ELEANOR RIGBY

Talvez o filme com o maior e mais complicado nome do certame, The Disappearance of Eleanor Rigby: Them é mais um filme protagonizado por Jessica Chastain, este ano em grande destaque no LEFFEST e ainda por James McAvoy, o ator escocês.

Um filme bastante íntimo realizado por Ned Benson que nos conta a história trágica de dois amantes que já não funcionam juntos graças aos demónios que atormentam o passado de ambos. O espetador é transposto para esta relação desde os minutos inicias com um prólogo bastante interessante onde se denota uma imensa cumplicidade entre os dois atores. Então, quando a desgraça abate na relação acabamos também por sofrer com os protagonistas, com a sua comovente história e é-nos inevitável sentir mágoa da felicidade que eles perderam e nunca mais vão conquistar.

Um retrato ultra-realista do amor, da tragédia, da maternidade e, principalmente, da dor e do desespero desmedido. Chastain é, por isso mesmo, o ponto forte da película ao encarnar perfeitamente a sua Eleanor para sempre atormentada pelos fantasmas do passado. Uma Eleanor que perdeu o sentido da vida de tal forma que mesmo o seu amor por Conor, a personagem de McAvoy, perdeu o seu valor. Um filme que nos deixa amargurados ao longo de quase toda a sua duração, mas que inevitavelmente nos faz sorrir em alguns momentos e nos transmite que nada é para sempre. Que a perfeição não existe, principalmente quando falamos de vidas humanas.

Artigo redigido por: Ricardo Rodrigues e Sara Alves