No quinto dia do Lisbon & Estoril Film Festival são exibidos dois grandes filmes de época, tendo como denominador comum o amor trágico entre amantes: Miss Julie de Liv Ullman e Amour Fou de Jessica Hausner em competição.

Miss Julie – 7/10

Baseado na obra de August Strindberg, Miss Julie retrata a vida de três almas aprisionadas numa mansão. Os papeis de poder vão-se invertendo à medida que a trama avança e a classe social torna-se o marcador magistral, delimitando o compasso desta dança de domínio e submissão. Falamos de Miss Julie, a dama baronesa, John, o modesto criado e Kathleen, a cozinheira e sua namorada.

Inicialmente, Miss Julie sedutora e livre tira proveito da sua superior condição para se insinuar ao criado John e submetê-lo aos seus caprichos. Perante os olhos da cozinheira Kathleen, namorada de John, Miss Julie obriga o criado a satisfazer os seus desejos, impondo as suas ordens a seu belo prazer. À primeira vista, John demonstra desprezo pela forma como a sua senhora o trata e a petulância em que desrespeita Kathleen a sua companheira. Ele sente-se atado pelo seu dever, qual marioneta nas mãos do seu mestre. A princípio, o criado aparenta não ceder às investidas tentadoras e provocadoras de Miss Julie, em nome da hierarquia social, da moral e do temor pelas consequências de estar na companhia de uma senhora de tal classe.

Porém tudo muda, quando ambos abrem o seu coração e libertam todos os sentimentos reprimidos pela hierarquia que os sufocava. De repente, John e Julie eram apenas dois seres desprovidos de classe e estatuto, apenas ouvintes um do outro. Julie sonha simplesmente descer do seu pedestal e viver como uma mortal com a terra debaixo dos seus pés, já John anseia subir ao topo da cadeia para poder ser tratado como realmente merece. John recita a declaração mais bela de amor, um amor puro de infância nutrido por Julie, contudo as classes que o separam fizeram-no descrer da possibilidade de consumação desse amor e desde então John a observa à distância tal como sempre fez, esperando que um dia essa oportunidade chegasse.  E chegou.

Consumado o acto, John tira a sua máscara e revela a sua simples devoção pela ascensão social, encarando a noite com Julie um descuido perfeito para levá-lo mais longe na sua escalada pela riqueza. Após ter partilhado a intimidade com Miss Julie, John enche o peito de presunção, sentido-se pela primeira vez igual à estirpe social que o emprega. De repente, John torna-se o senhor da mansão, rebaixando a fragilidade de Miss Julie, que agora encontra-se desprotegida com a sua alma a nu.

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Meticulosamente, John apazigua Kathleen, vitimizando-se pelo acto pecaminoso e culpabilizando Miss Julie pela sua fraqueza. A manipulação de John despedaça a confiança e posição de Miss Julie, que acaba por se prostrar aos pés do seu criado, pedindo-lhe para ser o seu mestre. O pânico instala-se devido à honra manchada e ao medo de um Barão sem rosto, que apenas impõe um temor e respeito à distância.

É na figura do Barão, na obediência de Kathleen e no peso da farda, que a divisão social subsiste. No final tudo tende para o regresso da normalidade. Kathleen coloca uma pedra sobre o assunto e com sensatez enfrenta mais um dia de trabalho. John volta a encarar as suas funções, mas com uma vitória em mente: pela primeira vez sentiu na pele o sabor de ser mestre e submeter aquela amante impossível. Por sua vez, Miss Julie dominada, não aguenta o sufoco da rejeição e do vazio, acabando por entregar ao criado a sua penitência. John invade a consciência de Julie empurrando-a para o seu derradeiro suspiro, junto do lago da sua meninice. Já que a classe social os separa e juntos não podem viver, então a morte solucionará a vergonha e desonra.

John é deste modo a personificação do lacaio, que submisso passeia por entre os senhores, invejando os seus bens e conquistas. Sendo ele lacaio, a rebelião é a sua principal motivação: viver para poder um dia destronar o seu mestre. O amor assim se transforma em arma de poder. Se não pode ser vivido lá terá a sua serventia.

Liv Ullman aborda com mestria a história de Miss Julie através dos retratos grandiosos de cada personagem, os ambientes idílicos, o jogo de sombras e luz, bem como a intensidade de sentimentos, que remonta à estética única de Ingmar Bergman. Os grandes planos estão sublimes e levam o espectador a submergir na tela. Certos enquadramentos despertam sentimentos de desprezo, angústia e até de ironia, provocando por vezes gargalhadas pelo fervor do absurdo. Cada personagem muda de discurso e convicções ao sabor do vento e isso provoca um misto de desconforto e de entusiasmo.

O filme simplesmente peca pelo modo como distancia o espectador do sofrimento de Miss Julie. O desprezo de John e a indignação de Kathleen acabam por suplantar e minorizar a tristeza de Miss Julie. O espectador começa a tomar o lugar de John ou de Kathleen, deixando de compreender a mágoa e o vazio de Miss Julie. Apenas a cena final, volta a reaver o contacto pela baronesa, quando a vemos desmanchada no seu quadro pitoresco, o leito de morte sobre as águas.

 Amour Fou – 7/10

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Jessica Hausner entrega-nos talvez o mais obscuro e pesado dos filmes em competição nesta edição do Lisbon & Estoril Film Festival. Um filme depressivo e angustiante que está constantemente a jogar com as nossas emoções e os nossos medos mais profundos, torna-se até algo asfixiante.

Muito mais que uma simples história de amor trágico, esta é antes uma ode à morte e uma triste perspetiva da vida como algo que é, unicamente, um pesaroso e por vezes longo caminho para o fatalismo. Baseado na vida do poeta Heinrich von Kleist, aliás, baseado antes na morte do escritor, já que foi o seu suicídio que serviu de instrumento à criação desta biopic de estilo livre que se assume mais como um ensaio sobre o efémero e a mortalidade.

E se a narrativa em si pode fazer com que alguns espetadores desviem o olhar da tela, inevitavelmente entediados. Os outros que estão mais atentos estão a ser completamente esmagados com Amour Fou e o seu constante carácter exacerbadamente deprimente. E a deprimência aqui surge não num mau sentido, é ela que faz mover o filme e as personagens que o compõem, aliás, podemos até dizer que Hausner foi bastante perspicaz ao filmar esta película. Tomando consciência plena do espaço, a realizadora trabalhou-o e adaptou-o tanto ao iminente fado melancólico do argumento, como ao carácter destrutivo das personagens principais. O vácuo da fotografia e do set design são perfeitamente harmónicas com o resto do filme, a ausência de banda-sonora e a proliferação de silêncios tornam a película ainda mais pesada, há no ar uma constante ameaça mortífera dirigida diretamente ao espetador. Temos medo, receio, pudor, amargura, melancolia, parece-nos que, a qualquer momento, a própria película nos pode matar.

Este é um filme genial no seu método de abordagem, uma obra essencialmente romântica, de um lirismo hiperbolizado ao condizer, em absoluto, com as personagens principais, o poeta Heinrich e a doente Henriette. Um filme, em última análise, fatídico e que aborda sem qualquer pudor o maior terror que sempre assombrou – e para sempre o fará – a humanidade: a mortalidade. Jessica Hauner vai direta ao assunto, um dias todos nós morremos e a vida em si perde o seu sentido apenas pelo facto de não ser mais que um desafio ao tempo. Um passeio com destino ao desconhecido e ao mais inquietante dos terrores: o nada.

Artigo redigido por: Ricardo Rodrigues e Sara Alves