Fui ver a Lady Gaga para poder dizer mal dela e vim de lá arrebatada. Ela não descobriu a pólvora, mas acende-lhe o rastilho com muito estilo.

O primeiro contacto consciente que me lembro de ter tido com Lady Gaga foi num episódio da série britânica Skins, em que aparece o tema Beautiful, Dirty, Rich, do disco de estreia The Fame. Mal eu sabia (e se calhar ela) a fama que viria a ter. Posteriormente, apercebi-me de que ela entrara como figurante num episódio de Os Sopranos, no início dos anos 2000.

No curto-circuito da minha memória, começam a surgir fragmentos de notícias escandalosas porque fez e disse isto e aquilo, vídeos ou fotografias escandalosas e refrões repetidos de Poker Face ou Bad Romance. Nunca lhe liguei nenhuma. A comparação – inevitável – com Madonna, a “Rainha da Pop”, the one and only, também me aborrecia mas nunca perdi uma hora de sono com este assunto.

Depois dei conta que esgotou o Pavilhão Atlântico, em 2010, e desde então muita coisa mudou. O sítio mudou de nome, o país afundou-se em crise, muito menos gente veio vê-la e ela cresceu ainda mais como artista. Lançou ArtPop, um álbum conceptual que trouxe consigo  ArtRAVE: The ARTPOP Ball Tour em modo festivo onde “rave, party, fashion, dance” são prometidos desde o primeiro momento do espetáculo. 

E foi isso que Lady Gaga, embrenhada nas suas roupas de design fabuloso, ofereceu aos seus “monsters” com a maior dedicação: uma festa com muita dança, luz, cor, e muito estilo. Com uma banda primorosa e bailarinos fantásticos, desfiou parte do disco que veio apresentar, no meio de um cenário eximiamente pensado para que a artista atravessasse toda a plateia e pudesse brilhar em vários pontos da mesma.

De guitarra em punho, ao piano, bebendo uma Super Bock, envergando coletes de ganga mandados pelos fãs ou enrolada na bandeira de Portugal, a norte-americana percorreu as plataformas que se estendiam pelo Meo Arena enquanto apelava à cidade, ao país e ao mundo para que se libertasse, celebrasse a vida e partilhasse o amor.

Lady Gaga_Meo Arena

Pelo meio, momentos ternos, como aquele em que diz que, quando morrer, mais do que falarem dela, falarão dos fãs. Ou quando apela a que todos os LGBT assumam orgulhosamente a sua sexualidade e apela a que quem não concorda com isso saia da sala. Ou ainda quando, bem antes de Born This Way, sublinha que cada um deve alimentar a sua criatividade e ignorar estereótipos.

E a música?, perguntam-me alguns. Pouco me importa. Lady Gaga não traz nada de novo à música a não ser o contributo com uma voz absolutamente fabulosa, bem trabalhada e de timbre perfeito, como se viu em temas como Born This Way, em modo acústico ou na versão de Bang Bang (My Baby Shot Me Down). Pode não se gostar do estilo barroco, no que toca ao exagero e exuberância, mas que Gaga já inscreveu o seu nome na história da pop, com todo o mérito, disso não se duvide.

Fotos: Facebook oficial de Lady Gaga