Desde cedo que as paredes de Portugal foram demasiado apertadas para Luísa Sobral. Com formação numa das mais prestigiadas escolas de música dos EUA, há muito que leva o seu jazz e a sua voz inconfundível a diversos países do mundo. No entanto, com Lu-Pu-i-Pi-Sa-Pa, o seu terceiro álbum de estúdio, canta na língua-mãe e dirige-se aos ouvidos mais novos (mas não só).

Aproveitámos uns minutos de sol tímido para sair ao jardim da Vodafone Labs, onde falámos com a Luísa sobre as particularidades de fazer um álbum para um público tão especial.

EF: Olá, Luísa! O teu último álbum segue um conceito novo para ti. Criaste-o a pensar nas crianças de dez anos de hoje em dia ou na Luísa Sobral de 10 anos que ainda resiste um pouco aí dentro?

LS: Ai, é os dois lados, até porque eu acho que todas as pessoas se identificam com algumas coisas que digo nas canções, por isso acaba por ser tanto para as crianças que as vivem agora, como para os adultos que já as viveram antes. Eu tive que ir buscar a Luísa daquela idade para escrever e claro que muita dessa Luísa ainda aqui está, não é? Eu adoro ser criança às vezes, mas não sou muito nostálgica. Não fico a pensar muito na infância, adoro a vida que tenho agora, tal como adorei a infância que tive. Foi aquilo que foi e agora é outra fase. Eu sou assim um bocado na vida: acabo uma fase, foi ótimo, mas agora, que venha a próxima.

EF: E não há nada que te deixe mais saudades?

LS: Não há assim tantas coisas, porque acabo por ter agora a liberdade que tinha em criança. Se eu tivesse um trabalho rigoroso, se calhar tinha muito mais saudades de coisas da infância. Mas como o meu trabalho acaba por ser uma continuação da minha infância, ao ser criativa e a fazer aquilo de que gosto, acabo por não ter tantas saudades da infância.

EF: Participaste no programa Ídolos com apenas 16 anos e depois foste estudar para o estrangeiro. Não sentes por vezes que isso te fez crescer demasiado depressa?

LS: Sim, em algumas coisas sim, mas não tem nada a ver com aqueles tipo a Britney Spears e o Justin Bieber… Como eu sempre soube exatamente o que queria, não passei por aquela fase louca da adolescência em que normalmente as pessoas estão um bocado perdidas e a fazer porcaria, e fui logo para a fase adulta. E é uma sorte, na verdade, não é mérito meu. Cresci um bocadinho mais rápido, mas não me faz confusão nenhuma.

Luísa Sobral

EF: Reparei que não tens medo de individualizar as personagens nas canções, dando-lhes nomes. São nomes de pessoas que conhecias?

LS: Não, nenhum dos nomes era de pessoas da minha turma. Mas eu acho graça, porque as crianças fazem muito isso, chegam a casa e dizem “mãe, a Diana não sei quê não sei quê”. Eles gostam de dizer nomes! E isso cria identidade nas personagens, como se fosse um filme. Então acho mais interessante do que “há uma menina na minha escola que não sei quê”. Não, é a Diana. E a Diana ganhou muito mais peso a partir do momento em que tem um nome, comparando com quando era só uma menina qualquer.

EF: Para além das boas recordações de infância, o álbum também toca em aspetos menos positivos, como o bullying ou a perda de amigos e familiares. Queres comentar esse lado um pouco mais negro?

LS: Eu queria entrar na cabeça das crianças e perceber uma grande parte do que se passa lá dentro, e não é tudo bonito, não é? Há esse lado do bullying, que acontece cada vez mais nas escolas, há o lado da perda, mesmo que as crianças não percebam o porquê da ausência repentina de alguém… Então eu decidi abordar também esses assuntos, porque se calhar são assuntos que fazem confusão às crianças. A ideia disto não era ser só cor-de-rosa e engraçado, mas ter também coisas que se passam na cabeça de uma criança e que são mais tristes.

EF: A nível sonoro não abdicaste de utilizar sons e instrumentos que lhes são menos familiares…

LS: Até pelo contrário! O problema das músicas para crianças hoje em dia é que os instrumentais muitas vezes não são instrumentos verdadeiros, mas sim feitos pelo computador. Era bom que o ouvido das crianças fosse um bocadinho mais desenvolvido, que ouvissem uma tuba, um oboé, um instrumento diferente, que ouvissem uma orquestra, e que não fosse tudo muito básico e feito a computador, pois isso vai limitar a maneira como vão ouvir música no futuro. Por isso, se houve algum cuidado neste disco, foi até nesse sentido: que não fosse excessivamente elaborado, mas rico musicalmente.

Capa CD

Lu-Pu-i-Pi-Sa-Pa

EF: Preocupam-te os valores da cultura pop seguida pelas crianças de hoje em dia?

LS: Eu acho que as crianças não se podem guiar demasiado por ícones da música. Os pais têm de incutir uma certa personalidade nas crianças, deixá-los ouvir aquilo que eles querem ouvir, e pensar que isso não tem que influenciar necessariamente a maneira de agirem, não é? Não é por ouvir Miley Cyrus, que uma rapariga vai ser uma badalhoca, isto não faz sentido nenhum… Até porque se nós ouvirmos algumas das suas canções com ouvido de músico, elas estão bem construídas. Por exemplo, a Wrecking Ball é uma canção super bem construída, tal como é a Toxic da Britney Spears. Depois a maneira como foram feitas tem a ver com o gosto de cada um. Às vezes, nós metemos logo as coisas que são muito pop no saco daquilo que é mau, e o pop não é mau, é só comercial. Por isso, eu acho que os miúdos têm o direito de ouvir aquilo que quiserem. Eu sempre ouvi Spice Girls quando era mais nova, Backstreet Boys, e acho que… Onda Choc! Não acho nada que isso tenha afetado a minha maneira de ouvir música.

EF: Imagina que tens uma criança de 12 anos que ouve o teu álbum e pensa “quando for grande quero fazer uma coisa assim”. Que conselhos é que lhe davas?

LS: Acho que é importante ouvir muita música em casa, descobrir novas bandas, cantar muito, tentar pedir aos pais para ir a alguns concertos…. Depois, quando chegar a uma idade mais avançada, estudar um instrumento. Para um cantor é muito importante ter um apoio harmónico que o faça sentir confortável e acompanhado. Eu acho que é super importante. Por isso, acho que o melhor é pedir um instrumento aos pais e começar a ter umas aulas.

EF: Tu saíste do país para estudar. Achas que a estrutura do ensino musical em Portugal é adequada?

LS: Eu acho que a nível escolar é muito pobre, ao continuarem a fazer as crianças tocar aquela flauta ensurdecedora. Aliás, eu fiz um solo dessa flauta no meu disco para que as crianças pudessem tocar também. Mas acho que era importante ensinarem música de outra maneira. Onde eu estive, nos Estados Unidos, o estado fornece instrumentos à escola e os miúdos desde pequenos que escolhem um para começar a tocar. Depois, quando chegam ao liceu, podem mudar de instrumento ou ficar no mesmo… É incrível, e isto acontece em todas as escolas públicas! Eles dão uma ênfase enorme às artes, que nós não damos, e acho que isso é um dos grandes problemas das escolas. Sempre que é para retirar horas aos miúdos é nas Artes e os miúdos já não podem. A altura das Artes é uma altura em que dá para o cérebro viajar, experimentar coisas novas, e eles metem cada vez mais aulas de Matemática e de História não sei quê, e tiram nas Artes. Isso é limitar uma criança completamente. Um dia, quando tiver mais tempo e quiser uma vida um bocadinho mais estável, gostava também de fazer uma escola de música contemporânea, porque hoje em dia só há a escola de jazz ou a escola clássica. As pessoas que querem aprender a escrever canções e cantar música pop ou rock não vão para a escola. Não faz sentido que esses não possam ser músicos educados e saber falar na linguagem da música uns com os outros. Mas pronto, agora ainda não tenho tempo para isso!

EF: Vou puxar o Ídolos novamente para a conversa, porque há quem defenda que esse tipo de programas ajuda a descobrir novos talentos na música. Como antiga participante, qual é a tua opinião?

LS: Ai, não acredito nada disso… Acho que os programas não são nada feitos para o artista, mas sim para as pessoas que estão em casa a ver. O artista sai de lá muito pouco apoiado. Os discos são feitos a correr para serem vendidos ainda na última gala, e a partir daí ele é completamente esquecido porque vem aí um programa novo. Além disso, não faz sentido haver tantos programas, porque não há sítio para esses artistas saírem, não há compositores, não há mercado. E acho que eles não têm a noção de que estão a criar ilusões constantemente às pessoas ao dizer coisas do tipo “eu vou fazer de ti uma estrela”. As pessoas acreditam naquilo naquele momento e, passado dois anos, estão outra vez a cantar no casino. Destrói completamente os sonhos das pessoas, é horrível… Eu não acho nada que seja boa ideia participar num programa desses se se quer ter algum sucesso na música, até porque pode ser uma cruz que carregamos.

EF: Tu ainda sentes essa cruz?

LS: Eu continuo a ter que levar com o Ídolos a toda a hora! Acho que não tem nada a ver com o que eu faço agora, não me influenciou minimamente, não saí do Ídolos para gravar logo o primeiro disco, não fui um produto do programa. Eu friso sempre isso porque não quero que as pessoas pensem que é do tipo “ah, eu vou para este programa, a Luísa Sobral teve sucesso”. Não, eu não tive sucesso por causa do programa! Por isso, acho que é uma ilusão para as pessoas, não vão para lá a acreditar que vai dar, porque não deu. Olhem para trás e pensem, de todos os programas que já houve, há ali alguma pessoa que seja uma estrela hoje em dia? Não há, por isso é uma ilusão.

Lu-Pu-i-Pi-Sa-Pa, o terceiro trabalho de longa duração de Luísa Sobral, foi lançado a 3 de novembro. Estejam atentos à sua página de Facebook para novos concertos.