Não há muito que se possa acrescentar àquilo que já foi dito, escrito ou pensado acerca do mais célebre álbum do mais celebrado grupo musical de todos os tempos – o legado estético, cultural e histórico do oitavo álbum dos Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, é objectivamente imensurável. E é precisamente este estatuto de fonte de inspiração que, segundo o próprio Wayne Coyne, faz nascer With a Little Help From My Fwends, o segundo álbum de tributo dos Flaming Lips a um dos maiores clássicos da música rock.

Um cover faixa-a-faixa do disco de 1967, With a Little Help From My Fwends conta com uma das mais eclécticas listas de convidados já agregadas num trabalho do género. Num registo quase irreconhecível surge a cantora pop Miley Cyrus em Lucy In The Sky With Diamonds e A Day In The Life, bem como Maynard James Keenan, vocalista dos Tool, em Being For The Benefit of Mr. Kite!. Dispersos por este álbum estão ainda J Mascis (Dinosaur Jr), Ben Goldwasser (MGMT) , Phantogram, My Morning Jacket, Foxygen, Black Pus e Electric Wurms, entre um total de 28 artistas colaboradores.

Nesta surpreendente multiplicidade de géneros, o álbum logra em manter a sua coesão estilística, e é aí que reside a sua primeira e mais imediata qualidade: o cunho marcadamente psicadélico dos Flaming Lips está sempre lá, e este LP nunca deixa verdadeiramente de lhes pertencer.

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Na sua reimaginação de Sgt Pepper, a banda de Wayne Coyne procede a uma drástica adaptação estética do álbum. A cor e clareza promovidas pelas diversas camadas de instrumentação e produção limpa de George Martin são substituídas por uma paisagem de cacofonia e dissonância caracterizada por uma extensa exploração do ruído, manipulações vocais e timbres estridentes de guitarras e sintetizadores.

No entanto, a estruturação da maior parte destas músicas deixa a impressão de que podia ter havido uma maior distanciação – se não em registo, pelo menos em melodia e criatividade – do original dos Beatles. No interlúdio instrumental de Within You, Without You, por exemplo, os Flaming Lips introduzem uma nova dinâmica em termos de texturas, mas continuamos a ouvir exactamente as mesmas notas que nos foram apresentadas há 47 anos. De facto, os melhores momentos do disco são quase sempre aqueles em que a banda se desliga da estrutura musical deixada por Lennon, McCartney, Harrison e Starr: as inortodoxas batidas electrónicas em Lovely Rita e She’s Leaving Home, as extremas alterações à instrumentação em When I’m Sixty-Four, o prolongado outro de Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise) ou a refrescante dinâmica electrónica do interlúdio de A Day In The Life.

Ainda assim, as inúmeras falhas aqui presentes, aliadas ao facto deste se tratar de um álbum de covers, fazem com que se levante uma oposição na mente do ouvinte: enquanto que algumas destas faixas só poderão ser devidamente apreciadas com alguma abstracção a Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, outras apenas adquirem apelo ou significância por comparação ao original. É o caso de With a Little Help From My Friends e Getting Better, cujos vocais flagrantemente desafinados são quase inaturáveis, ou Being For The Benefit of Mr. Kite!, um aglomerado de riscos que, embora denotem ambição, revelam-se iminentemente mal-conseguidos. Lucy in the Sky With Diamonds é outro exemplo: embora a performance vocal de Cyrus e os audazes experimentos com o noise e o lo-fi sejam bem recebidos, o resultado final é uma fastidiosa e excessivamente longa versão da intemporal música de John Lennon e Paul McCartney.

Por mais altos e baixos que possa compreender, não se pode dizer que With a Little Help From My Fwends seja um trabalho a ignorar. Passando o clássico dos Beatles por um filtro de distorção e psicadelismo, os Flaming Lips, ajudados pelo extenso leque de convidados aqui presentes, dão nova vida a Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Os resultados podem nem sempre ser os mais aprazíveis, mas Wayne Coyne e companhia mostram que são capazes de fazer jus ao legado deixado pela maior banda do mundo.

6.8/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.