Este quarto dia do Lisbon and Estoril Film Festival foi dedicado à obra de Maria de Medeiros, a atriz e realizadora portuguesa mais internacional de sempre. E ainda tivemos a oportunidade de ver mais um filme de competição, Queen & Country.

O dia foi marcado pela retrospetiva feita à atriz Maria de Medeiros. Depois de visualizar o filme Henry & June, obra que a catapultou para o estrelato a nível internacional – contracenando com Uma Thurman numa restituição da vida de Henry Miller com a sua mulher, June Miller -, houve a apresentação da mais recente obra de Abel Ferrara, Pasolini, que conta também com a participação da atriz.

Se em Henry & June, Maria de Medeiros estava a começar a sua carreira internacional, já em Pasolini a temos em todo o seu esplendor, depois de anos e anos a trabalhar com os melhores profissionais europeus e americanos. Se no primeiro filme ainda temos a habitual performance – frágil, ingénua, mas sempre deliciosa -, na segunda obra temos uma entrega fantástica, sem pudores e bastante expansiva de Medeiros. Mas não nos adiantemos e falemos primeiro do filme visto da secção competitiva, a mais recente obra de John Boorman.

Queen & Country – 6.5/10

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A mais recente obra de Boorman encontra-se este ano na secção competitiva no Lisbon & Estoril Film Festival e, apesar de ter elementos da narrativa interessantes, o filme no seu geral é apenas razoável e bastante esquecível. O plot, além de se centrar nas temáticas das forças armadas britânicas, é bastante original, mas o que poderia ser um filme realmente bom, não passa de uma versão menor e em carne e osso da Fuga das Galinhas.

O ponto forte de Queen & Country é mesmo o facto de não cair na facilidade da maré de clichés que envolve, inevitavelmente, a temática da II Guerra Mundial. Boorman ao centrar a acção nos efeitos do pós-guerra e não, antes, durante o período da mesma, faz desta obra algo mais original que mais de metade das obras que saem todos os anos sobre este conturbado período da História. E, Boorman, não só foi inteligente ao escolher este período como a referenciá-lo no seu filme, com apontamentos aqui e ali para situar o espetador na linha espaciotemporal, como por exemplo a deliciosa cena da instalação de uma televisão para assistir à coroação da rainha Elisabete II.

Mas é basicamente esse o único aspeto realmente positivo do filme. Uma película que não marca, com uma história de amor proibido fraca, sem qualquer carisma, com uma amizade conturbada mas algo interessante e com uns momentos cómicos que nos fazem torcer um pouco o nariz. Um filme bastante básico e que se torna chato rapidamente apenas pelo facto de não ter arriscado em nada.

Pasolini – 4/10

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Santo Deus, por onde começar… Abel Ferrara entrega-nos o seu mais recente trabalho, uma biopic de Pasolini que não é uma biopic nem coisa alguma na verdade. Um filme cheio de pretensões, egos e uma ridícula homenagem a um dos pesos pesados da História do Cinema não só italiana como mundial. Quando saímos da sala, e depois de ouvir o fatídico Q&A com o próprio realizador, é-nos inevitável pensar: “Pasolini merecia mais“.

Mas coloquemos aqui um parêntesis, os maiores erros deste filme partem, em primeira análise, da realização egocêntrica, do trabalho de casting incoerente e do argumento completamente desinspirado. Nada tenho a apontar ao trabalho feito pelos atores que, infelizmente, acabaram por não ser recompensados face às suas magníficas entregas (falo principalmente de Willem Dafoe, Maria de Medeiros e Adriana Asti). E não se precipitem, quando falo em trabalho de casting incoerente não quero dizer que foi por terem contratado maus atores, de facto o grande ponto positivo do filme gira em volta das suas performances. Mas antes uma trapalhada e miscelânea de diferenças entre os atores que tornavam as suas interações em cena quase impraticáveis. Ora vejamos neste exemplo: Temos uma mesa de jantar rodeada de uma família italiana que vivia em Roma, nessa mesma mesa encontra-se Dafoe a falar no seu perfeito inglês, duas atrizes itaianas a falar numa tentativa de inglês e uma Maria de Medeiros a comunicar também num inglês fluente.

E é mesmo a questão da linguagem e a sua incongruência que definem, em último caso, todo o filme que se afirma como uma grande trapalhada de ideias mal exploradas. Ora tínhamos uma família de italianos a falar em inglês, ou um Pasolini a ser entrevistado por um italiano em inglês, depois já tínhamos um Pasolini a falar em quase perfeito italiano com um prostituto romano, a cumprimentar os donos de um restaurante como um sonoro ciao. Os diálogos e o argumento foram tão prejudicados por isto que tudo se tornou numa grande salada russa, um erro fatal que o próprio Abel Ferrara não reconhece, ao ponto de no seu Q&A se demonstrar demasiado defensivo às perguntas do público português quanto às questões linguísticas.

E assim criamos a ponte para a sessão de perguntas que seguiu a projeção de Pasolini. Sempre demasiadamente defensivo e pouco receptivo a críticas do público, Ferrara apresentou-se no LEFFEST para falar da sua obra que tão dizimada foi pela crítica internacional. A plateia estava recheada para o receber, mas sentiu-se na sala algum desconforto perante a figura do realizador, uns porque não gostaram simplesmente do filme, outros talvez mais intimidados perante a interação que o próprio realizador ia criando com o seu público, um misto de troça com arrogância.

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Mas claro, ainda alguns elogios foram lançados por fãs mais acérrimos do trabalho de Ferrara. No entanto raros foram os fãs de Pasolini que falaram, havendo poucos elogios a declarar. Apesar disto, um dos elogios lançados foi o facto de Abel ter pegado num trabalho inacabado do realizador e escritor italiano e lhe dar vida. A história de Epifanio que visita a cidade de Sodom depois de ter seguido uma estrela cadente. Este momento do filme, em que Abel transpõe para a grande tela a visão de Pasolini, é o momento fulcral do mesmo e o único que é realmente fantástico.

A sessão vai terminando e Abel Ferrara é então questionado sobre o trabalho de Maria de Medeiros. Admitindo o grande talento da atriz, ele afirma que foi um prazer trabalhar com ela, rematando com: “Maria, well you know, she’s the real deal“. A atriz portuguesa já não se encontrava na sala do Monumental, mas foi ela quem fez a introdução ao filme ao ler alguns dos textos e trabalhos de Pasolini para uma plateia completamente silenciosa e atenta às suas palavras entoadas de uma forma muito doce. Concluindo, se o filme de Ferrara desilude, a homenagem que o LEFFEST fez à graça de Maria de Medeiros comove e faz-nos sentir um grande orgulho em saber que ela, um talento em bruto, é já um ícone da cultura portuguesa.