O quarto dia do Lisbon & Estoril Film Festival trouxe ao ecrã um ensaio sobre a ousadia e a inocência personificado em dois grandes filmes: O Libertino de Laurence Dunmore, filme que integra a secção Homenagens a John Malkovich, e Jauja, o filme em competição de Lisandro de Alonso.

O Libertino – 8/10

O Libertino retrata a vida ousada e boémia do Conde de Rochester. Entre a fornicação e o álcool desmesurado, o Conde vagueia errante, encontrando no teatro o seu único remédio, como também o seu derradeiro suplício. Com a escrita de escárnio aliada a um tom eloquente e brejeiro, o Conde parodia o reinado decadente de Carlos II e a sua mísera vida ao lado da esposa que lhe é indiferente.

Protegido pelo rei, o Conde constrói a sua reputação de bon vivant, em torno da sua entourage de escritores falhados, aprovando somente os comportamentos mais animalescos e abominando a rectidão e as regras sociais. Ele anseia pela repulsa de quem preza os bons costumes e deseja o louvor daqueles que tal como ele vivem sem limites, livres de expressarem os seus pensamentos e impulsos mais primordiais.

De repente no teatro, o Conde encontra a sua musa inspiradora, Lizzy Barry, uma atriz prostituta renegada pela sua companhia e pelo público que denuncia a sua falta de entrega aos papéis que representa. Nela ele vê a esperança e a cura para a sua insatisfação e rebeldia, nele ela vê uma oportunidade única de alcançar a fama. Ele ajuda-a a ganhar a sua vida nas luzes da ribalta, ela ensina-lhe a viver a própria vida.

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No final da sua jornada, já doente e desamparado, o Conde paga pelos seus pecados e converte-se à última da hora, aceitando a piedade divina. Depois de se ter deleitado e desprezado tantas mulheres, a única amante que verdadeiramente amou usa o seu talento para ascender e rejeita a sua companhia, cospindo no sentimento mais puro que emana. Após ter renegado a religião e as mulheres que mais respeitavam a moralidade, ele refugia-se nas orações e regressa ao colo de sua mãe e esposa, que sempre amparam as suas quedas e tentaram desviá-lo de caminhos escabrosos. Tardiamente, o Conde num ápice ascende de pecador a pio, criando no público um misto de compaixão e asno.

É de louvar a forma brilhante como Johnny Depp, Samantha Morton e John Malkovich encarnam os seus papéis. Cada personagem é sublime e evolui ao longo da narrativa. O ousado e sedutor Conde, acaba por humildemente descer do seu pedestal e render-se aos sentimentos mais inocentes. A atriz por detrás da sua máscara inocente, nasce uma mulher implacável que não se subjuga a nenhum homem e cria falsas esperanças ao seu amado, só para sugar o talento de seu mestre. Finalmente D. Carlos II, um rei que evolui na sua História e que pretende com racionalidade limpar todos os devaneios cometidos no passado de modo a reavivar Inglaterra politicamente.

Para além das prestações fenomenais e do argumento incrível, os planos conseguem captar os ritmos do filme de forma irrepreensível e providenciar contrastes interessantes. Por um lado, deparamo-nos com planos fixos e rígidos, de conjunto ou pormenorizados, com bom enquadramento e detalhe.  Por outro vemos planos-sequência livres que acompanham as personagens, como se um documentário se tratasse, dando a sensação de termos uma câmara ao ombro que vagueia pelo espaço incerta e trémula, só para absorver os movimentos e as expressões com maior profundidade.

O filme foi exibido no festival tal como a peça de teatro gravada. Em ambas as produções, John Malkovich entra como ator e produtor, e por conseguinte são obras merecedores de integrarem a secção de Homenagens – Being John Malkovich.

Jauja – 4.5/10

Já o filme Jauja em competição no LEFFEST’14, contrariamente à obra produzida por Malkovich, deixa muito a desejar. Para quem queria ver um filme enganou-se na sala, Jauja assemelha-se a várias sequências pitorescas, como se vários quadros desfilassem perante os nossos olhos. Cada movimento, gesto ou diálogo parecia orquestrada para parecer belo no ecrã. Cada ator estático encarava a sua posição na tela e de lá não saía. Caso alguma personagem saísse do enquadramento, o plano perdurava até já não podermos mais olhar para a paisagem vazia, desprovida de vivalma.

O início do filme ainda parecia oferecer alguma promessa ou esboço de alguma história. Contudo essa esperança de ver alguma trama interessante finda, quando deparamo-nos com mais de meia hora de Viggo Mortensen, no papel de capitão dinamarquês, à procura da sua filha Ingeborg perdida nos desertos da Patagónia. Ela, doce e inocente, tem a ousadia de fugir com um oficial em plenos confrontos com o terrível Zulanga, uma personagem praticamente invisível que deixa um rasto de morte por onde passa. Nesse momento, o espectador fica enterrado na cadeira ansioso para que algo aconteça na sua busca, contudo tudo continua estático e desinteressante.

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O final tenta dar um twist à história, projetando a pequena Ingeborg no futuro confrontando o seu pai ou simplesmente mostrando à audiência que toda a história não passava de um sonho sangrento, de um encontro individual e familiar, que apenas serviu para a menina repensar nas suas escolhas de vida. Verdade seja dita que foi uma tentativa pouco feliz de salvar da monotonia que todo o ambiente do filme tinha instalado.

O único elemento que dá alguma cor ao filme, é o conjunto de planos gerais das paisagens sul americanas, que apesar de serem morosas e de não acrescentarem quase nada à história, dão um brilho especial à fotografia. Para além disso, Viggo Morttesen consegue ainda provocar algumas gargalhadas da audiência com o seu jeito genuíno de encarnar a personagem, contudo o filme não teve a altura deste senhor do cinema. Quiçá por ter raízes Dinamarquesas e ter vivido na América do Sul, tal como o protagonista da história, o tenha de certa forma impulsionado a aceitar este papel. Infelizmente o público esperava por mais, vendo as caras de desilusão que percorriam a sala após o visionamento do filme.