No terceiro dia do festival foi projetado no Monumental o mais recente filme de David Cronenberg, Maps to the Stars e ainda alguns filmes da secção competitiva desta edição do Lisbon & Estoril Film Festival. O Espalha-Factos foi ver o Angels of Revolution do russo Alexey Fedorchenko.

Os dois filmes visionados não podiam ser mais díspares. Se um nos denuncia a futilidade extrema de Hollywood e de como a esquizofrenia é antes uma desculpa de pessoas simplesmente egocêntricas – que pelos vistos dominam a cidade de Los Angeles -,  o outro  é uma homenagem a cinco heróis de uma nação e um olhar intimista sobre uma revolução e uma União Soviética que ainda hoje é o demónio para o mundo ocidental.

Maps to the Stars – 5.5/10

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A mais recente obra de Cronenberg foi projetada numa sala do Monumental bem composta por fãs do seu trabalho. Maps to the Stars levou a plateia várias vezes aos risos, mas no seu geral a reação apática e indiferente à película espelha bem o estado da mesma. O filme protagonizado por Mia Wasikowska e Julianne Moore é um autêntico tiro no escuro, além de ter pretensões bastante interessantes.

O denunciar das falhas de uma indústria e, acima de tudo, de uma “família” considerada perfeita aos olhos do público é uma temática que se tem vindo a fortalecer. Um nicho dentro de Hollywood que tenta fazer cinema anti-hollywood, como o pouco impressionante The Bling Ring da Sofia Coppola. Cronenberg aventurou-se nesta contracorrente e, se as aspirações são boas, a concretização é simplesmente medíocre, estereotipada e sem qualquer pingo de criatividade ou inspiração.

Na verdade, os únicos elementos interessantes na película são mesmo o trabalho dos atores (não todos, fiquemos apenas com a Julianne Moore e a Mia Wasikowska) e os aspetos algo gore e perturbador de pequenas cenas que caiem do nada como milagrosamente no meio do plot. E apesar de admitir o interesse no estilo paródia de Hollywood e do glamour das estrelas de cinema, a forma como foi transposta para o ecrã foi simplesmente desinteressante e por vezes até irritante com piadolas básicas e personagens insignificantes.

Angels of Revolution – 9/10

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Alexey Fedorchenko veio a Lisboa, ao Monumental, apresentar o seu mais recente filme que estreou há duas semanas no Rome Film Festival. Este foi o primeiro filme de competição analisado aqui no Espalha-Factos na edição de 2014 e não podia ter sido melhor para abrir esta secção. Este filme é formidável, genuíno e incrivelmente belo. Asseguro até, um dos melhores filmes que vi este ano.

A genuinidade deste filme é adorável, a entrega do realizador à sua obra é incrível e os atores são formidáveis. Um filme que nos fala do projeto soviético e da utopia originária de uma forma muito íntima, de uma forma meio sonhadora mas belíssima. Finalmente um filme da perspetiva russa de um dos momentos mais marcantes da história mundial, uma perspetiva que não pinta, constantemente, a União Soviética como o inimigo, o comunismo como um vírus e os russos como seres frios.

É uma humanização completa de cinco heróis da nação soviética, do período ainda mais ideológico e artístico. Uma humanização tal que é-nos inevitável criar estreitos laços com as personagens no grande-ecrã. E nisso Fedorchenko foi inteligentíssimo. Um filme russo, feito por russos e homenageando os russos poderia cair facilmente na desgraça no meio da opinião pública ocidental porque, infelizmente, a apreciação de arte nunca está completamente desligada das opiniões políticas. De uma forma tal que a sala olhou com desconfiança à apresentação do realizador e muito medo tinha que o debate posterior à visualização se transformasse num autêntico pandemónio de trocas ideológicas sobre a atual situação na relação do mundo ocidental com a Rússia de Putin.

E porquê que o realizador foi inteligente? Foi inteligente pelo facto de, desde os minutos iniciais, tentar ao máximo criar uma grande empatia entre o espetador e os cinco protagonistas, mostrar até ao público mais distante da cultura russa – como é o público português por exemplo – que é possível criar ligações emocionais com personagens como as deste tipo. Além de tudo isto, dá-nos a conhecer também uma tribo do norte da Rússia bastante peculiar, mostra-nos o pico do movimento vanguardista da arte russa, principalmente a explosão cinematográfica soviética – até com uma fabulosa homenagem a um dos maiores nomes da cultura cinematográfica soviética, Eisenstein – e tudo isto com uma exímia perfeição de detalhes e factos.

Em suma, um filme obrigatório nesta programação do LEFFEST, uma obra realizada com um intenso carinho que é, inevitavelmente, transmitido para o espetador. Uma obra brilhante de comoção e contraposição, uma obra que nos revela que não existem apenas os bons e maus, todos temos defeitos em qualquer parte do mundo e por vezes eles podem até ser fatais para outrem…