A Festa do Cinema Francês disse adeus às Caldas da Rainha, no passado sábado, após três dias de festival. O evento, embora pouco divulgado pela cidade, teve uma boa aderência do público caldense graças ao cartaz que não primou pela quantidade, mas pela qualidade dos filmes passados, todos eles diferentes uns dos outros mas sempre bastante interessantes.

O último dia terminou com dois filmes em exibição que mostram a infância de duas perspetivas muito distintas.

As Férias do Menino Nicolau

O Menino Nicolau voltou ao cinema após uma primeira incursão no grande ecrã em 2009. Desta vez, a simpática e traquina personagem criada por René GoscinnyJean-Jacques Sempé foi de férias para a praia, mas mesmo fora do período escolar não vão faltar aventuras ao Menino Nicolau e aos seus pais e avó, desde problemas conjugais a amores de verão.

Ao contrário de muitos filmes destinados a um público mais infantil, As Férias do Menino Nicolau não entra em piadas fáceis e pode facilmente ser apreciado pelos mais graúdos. Isto deve-se principalmente à excelente apresentação da infância pelas câmaras de Laurent Tirard, que consegue captar o espírito ingénuo e alegre do Menino Nicolau e dos seus amigos através de diálogos muito divertidos e episódios hilariantes protagonizados pelas personagens mais novas, o que faz com que os adultos que visualizarem a fita possam recordar até alguns momentos dos seus anos de juventude. E, obviamente, a criançada vai também adorar as gags do filme, que têm como pano de fundo cenários muito coloridos e apelativos, e aquelas que leram as aventuras de Nicolau e companhia ir-se-ão deparar com uma adaptação cinematográfica que capta muito bem a essência dos livros.

Há, contudo, um aspeto menos agradável que é a elevada atenção que se dá aos pais do Menino Nicolau. Não que as suas cenas não sejam engraçadas. Aliás, as boas interpretações de Valérie LemercierKad Merad aliadas ao bom e inteligente argumento tornam os seus segmentos muito cómicos. Mas visto que a história do filme é vista e narrada por Nicolau, parece desnecessário ver-se um subplot inteiramente dedicado aos seus pais que vai ganhando tanta importância que parece ofuscar as aventuras da pequenada, ficando-se com a sensação de que não houve Menino Nicolau suficiente. Mas também não se pode dizer que não se tenham dado umas boas gargalhadas e passado um bom bocado a ver As Férias do Menino Nicolau. E não se pedia muito mais a esta longa-metragem humilde mas muito alegre.

Nota – 6/10

A Caminho da Escola

Este é um documentário assinado por Pascal Plisson que mostra como quatro crianças vão para a escola. Os quatro jovens protagonistas vivem nalguns dos lugares mais remotos do planeta Terra. Jackson habita no Quénia; Carlito nas planícies da Patagónia, Argentina; Zahira na região montanhosa do Atlas, Marrocos e Samuel na sobrepovoada Índia. Todas estas quatro crianças, com idades entre os 11 e os 13, fazem longas e complicadas viagens até às respetivas escolas, demorando horas a percorrer os seus caminhos.

O filme é um pouco deprimente, disso não há dúvidas. Ninguém fica indiferente às vivências, coragem e determinação dos quatro heróis de A Caminho da Escola e os mais sensíveis ficarão profundamente emocionados pelas imagens passadas no documentário. E não é fácil observar pessoas tão novas e com tanta vontade de aprender a passarem por tantos obstáculos e más condições de vida. No entanto, Plisson consegue atenuar o tom triste da sua obra com algumas decisões inteligentes. Uma delas é a banda sonora que evidencia os momentos mais alegres e otimistas da película, como a fraternidade entre Carlito e a sua irmã ou a cumplicidade de Zahira e com as suas amigas. E é igualmente interessante conhecer quatro culturas tão diferentes em menos de hora e meia e ver paisagens de cortar a respiração dos quatro cantos do mundo.

E, tal como Hope deveria ser obrigatório para os europeus, A Caminho da Escola deveria ser obrigatório para todos os estudantes, especialmente àqueles que desrespeitam completamente os seus estabelecimentos de ensino. Talvez ao verem as jornadas hercúleas e os objetivos de vida que, devido ao isolamento e pobreza das suas moradas, os protagonistas do documentário dificilmente irão alcançar (embora o epílogo do filme dê a entender que os seus horizontes serão mais brilhantes do que se esperaria), comecem a dar valor ao que têm. A Caminho da Escola é um retrato humano, absorvente e emocionante das capacidades do ser humano e do quão longe as nossas ambições nos podem levar.

Nota – 8/10