O segundo dia do Lisbon & Estoril Film Festival foi contemplado por duas grandes masterclasses protagonizadas por Bertrand Bonello e Wes Anderson. A discussão seguida de Saint Laurent, filme de abertura do festival, abordou a obra cinematográfica e o trabalho exímio do estilista Yves Saint Laurent, integrado na secção Cinema e a Moda. Já Wes Anderson acompanhado por Paulo Branco conduziu a primeira de duas masterclass após o visionamento do filme O Ouro de Nápoles.

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Yves Saint Laurent, uma figura tão genial como controversa. Depois de Saint Laurent ser projetado no Monumental, seguiu-se um Q&A bastante interessante com uma paleta bem composta de convidados. Paulo Branco era o moderador de uma amena conversa sobre Saint Laurent, moda, cinema e o mundo artístico no seu geral – conversa essa encabeçada por Bertrand Bonello, realizador do filme, Emanuel Ungaro, designer francês de alta costura, Felipe Oliveira Baptista, designer português e ainda um entendido na obra de Yves.

A conversa girou bastante em volta do filme, Bonello revelou a uma audiência um pouco fria que na verdade não queria aventurar-se no género bio-pic (um filme biográfico), mas que foi a personalidade e o trabalho de Yves que o fez mudar de ideias ao perceber como todas as cores e o elemento artístico do designer podiam influenciar o seu próprio trabalho enquanto realizador.

Na verdade o que Bonello nos diz é verdade, podemos ver a grande preocupação do papel das cores em todo o filme, uma fotografia deliciosa cheia de simbolismos aqui e ali. Não é segredo para ninguém que Yves Saint Laurent era bastante inspirado pelos trabalho de Mondrian e parece-nos que Bonello quis usufruir dessa mesma inspiração do designer francês e transpô-la para o seu próprio trabalho, lembremos a fantástica sequência do desfile YSL de 1976, com o  plano a ser divido (técnica de splitscreen) como se fosse um quadro de Mondrian.

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A conversa estava até então a centrar-se bastante no filme e na forma como Bonello pegou nesta personalidade, mas foi com o testemunho de Emanuel Ungaro que visitamos um pouco mais o mundo da moda dos anos 70 e 80 do século passado e, até, alguns pormenores da própria vida de Yves. Ungaro começa por dizer que o mundo da moda é um mundo difícil, em que os excessos podem fazer com que qualquer artista se perca, um pouco como aconteceu com Yves.

Revela-nos que teve algumas oportunidades de estar com o génio da moda que faleceu em 2008 e agradece a Bonello por ter feito um filme tão bonito e revelar ao mundo uma parte da realidade da moda que ainda tão pouso se fala.

A conversa progrediu e foi finalizar em Felipe Oliveira Baptista, designer português que trabalha para a Lacoste. Um designer de uma geração completamente diferente da de Ungaro que nos deu um pouco da sua experiência no mundo da moda atual e quais o desafios de toda uma indústria onde “tudo já foi feito“.

O Ouro de Nápoles – 8/10

A sala do LEFFEST recebeu a obra sublime de uma das grandes figuras do movimento Neorealista italiano, Vittorio de Sica. Através da seleção do realizador Wes Anderson, o público teve a grande oportunidade de ver ou rever o belíssimo filme intitulado Ouro de Nápoles. Grande admirador do movimento cinematográfico italiano, do qual se inclui RosselliniVisconti, Fellini e Antonioni, Wes Anderson sentou-se à mesa com Paulo Branco para falar sobre o filme e a corrente que o inspira.

O Ouro de Nápoles destaca-se pela sua fragmentação em quatro pequenas histórias que possuem um denominador comum, a cidade de Nápoles. Para além disso, todas as histórias retratam a realidade social italiana, tanto das classes mais abastadas, como das mais humildes. Em cada uma das breves narrativas deparamo-nos com elementos que caracterizam a cultura italiana, como a importância da família, a partilha gastronómica e a vida permanentemente em comunidade, onde os problemas de um passam a pertencer a todos.

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Acima de tudo as histórias falam-nos da riqueza de Nápoles, que é representada em várias formas e feitios. Na primeira história, a riqueza situa-se num senhor de poder, que invade a esfera privada de uma família, usufruindo de todas as regalias sem pudor. Já na segunda história, a riqueza está personificada no anel de compromisso entre os donos da pizzaria do bairro, um compromisso  já há muito quebrado, tal como foi perdido pela sua portadora. Na terceira história, a riqueza de um Conde é esbanjada no jogo com um rival bastante peculiar. Na última história, a riqueza reside na grande casa senhorial de um homem de classe alta que casa às cegas com uma mulher aleatoriamente escolhida para traçar a sua trágica sina.

Os vários capítulos que integram esta colectânea de contos italianos fazem crescer água na boca quando começam, prendem-nos ao ecrã no seu desenvolvimento e quando terminam leva-nos a ansiar pela sua continuação dos próximos episódios. Cada história é envolvente pelo argumento simples mas encantador sempre com um toque humorístico à mistura. As prestações dos seus intervenientes, destacando Totó e Sophia Loren, são irrepreensíveis pelo modo genuíno e simultaneamente teatral que interpretam cada pequeno gesto ou expressão. Tanto as correrias frenéticas pela cidade, como as interações expressivas dentro de quatro paredes fazem o espetador entrar no íntimo de cada família e sentir a sua calorosa energia. É assim Vittorio de Sica, com histórias tão familiares consegue tocar o público de forma sublime.

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 Sempre sorridente, Wes Anderson passa finalmente por Portugal e é agraciado por uma sala do Monumental completamente esgotada e cheia de amantes do cinema que se entregaram por completo à conversa entre Paulo Branco e o realizador norte-americano. Sempre de sorriso nos lábios e um humor algo peculiar, tão ao jeito dos seus filmes, Anderson foi respondendo às perguntas do produtor português e revelando alguns pormenores da sua carreira.

Wes começa por ser questionado quanto à sua escolha pelo Ouro de Nápoles e o realizador de Grand Budapest Hotel vai direto ao ponto: “eu tenho que vos admitir que apenas o vi há umas semanas atrás, apenas queria partilhar um filme que gostei bastante e que quase ninguém viu. Algum de vocês já o tinha visto?” – pergunta diretamente ao público que ao não lhe responder acabam por dizer que nunca tinham visto o filme de Sica.

Anderson vai depois esclarecendo o importante papel que o cinema neorrealista italiano sempre teve ao longo da sua carreira, admite que personalidades da História do Cinema como Visconti, Rossellini, Fellini sempre o fascinaram e tiveram um grande impacto no seu próprio trabalho. Paulo Branco, por sua vez, foi espicaçando o realizador revelando ao público que já o tinha convidado há bastante tempo e que Wes Anderson já o teria prometido a sua presença. O produtor revelou-se entusiasmado por o ter, finalmente, em Lisboa no LEFFEST e Anderson desculpou-se por ter faltado no ano de 2011 ao festival, quando se fez uma retrospetiva da sua carreira. Anderson brincou também um pouco ao afirmar: “não vim nesse ano apresentar os meus próprios filmes, mas vim agora, mas como não tinha mais filmes para apresentar decidi improvisar“.

A plateia estava completamente rendida e ao longo de perto 40 minutos de trocas de perguntas entre o produtor e o realizador e depois entre o público e Anderson, a sala do Monumental não fez um único barulho, apenas os risos inevitáveis de resposta ao humor de Anderson. Quando a vez foi de o público tomar conta do microfone e inquirir diretamente Wes, a barafunda foi total. Muitos braços haviam a pedir a vez e muitas perguntas foram soltas. Umas pertinentes, outras menos, Anderson foi respondendo a todas de uma fora extremamente simpática e cómica.

Revelou à plateia o quão fantástico é trabalhar com elencos juvenis, admitiu que o seu estilo de filmar lhe é inato, ou seja, o realizador não tenta criar um estilo próprio, ele simplesmente responde aos seus impulsos. Se o enquadramento está perfeitamente simétrico ou se a paleta de cores é extremamente harmónica já sabemos que é Wes a ser Anderson. Admite-nos até: «tenho um amigo meu que sempre que lhe mostro algum novo trabalho ele responde-me com: “mas porquê que é mais do mesmo?“». Levando a plateia a rir-se.

Falou depois um pouco dos seus filmes, a sua inspiração pelo stop-motion e o facto de adorar a técnica, admite porém que foi bastante difícil aperfeiçoa-la ao ponto de fazer o Fantastic Mr. Fox. Fala-nos ainda da sua busca pelo “r” perfeito para a fonte de letra do Moonrise Kingdom e ainda nos revela que, aparentemente, Paulo Branco o impulsionou para ir em frente no projeto de adaptar os trabalhos de Stefan Zweig que gerou nada mais, nada menos que o seu mais recente Grand Budapest Hotel.

Artigo redigido por: Ricardo Rodrigues e Sara Alves