Uma rápida pesquisa por ‘Portugal 2004’ no Google dá conta de milhares de resultados sobre o Europeu perdido, a jogar ‘em casa’, perante a Grécia. Esse até pode ter sido o principal acontecimento nacional, mas para a SIC Notícias, o ano de 2004 marcaria o nascimento de um dos programas de maior sucesso na história do canal. Estamos a falar de Eixo do Mal, que comemorou ontem dez anos de vida no Teatro Aberto, e o Espalha-Factos esteve lá para te contar tudo sobre os bastidores.

Mais velhos, mais experientes e, acima de tudo, com menos cabelo: é assim que se encontram Daniel Oliveira, Luís Pedro Nunes, Clara Ferreira Alves e Pedro Marques Lopes, depois de centenas e centenas de emissões de análise à atualidade, sempre a roçar o humor negro. Foi perante pouco mais de uma centena de pessoas que, ontem, Nuno Artur Silva, o moderador deste projeto, liderou mais um programa, desta vez com uma duração especial de duas horas.

e-1d9fFoto: Expresso

Os minutos que antecediam o programa foram passados com a maior das descontracções. Apesar de ser a Luís Pedro Nunes, atual editor do Inimigo Público, quem é atribuído o lado mais humorístico do programa, era curiosamente Pedro Marques Lopes que mostrava um maior à-vontade com o público. “Oh filha, se o Rui [Moreira] te pedir o número não lho dês!”, brincou o comentarista.

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, fazia parte de um leque de convidados especial que marcou presença do programa, que incluía também Ricardo Sá Fernandes – um dos advogados mais mediáticos do país – Pilar del Rio, jornalista espanhola e esposa do já falecido José Saramago -, Frei Bento Domingues – atualmente colunista do jornal Público – e ainda Guta Moura Guedes – fundadora da associação cultural ‘Experimenta‘ e a mais interventiva dos quatro.

Apesar de também estar entre os convidados, Bruno Nogueira não compareceu pois tinha o seu filho prestes a nascer no hospital. Com os convidados nos seus devidos lugares e os comentadores prontos para a ação, foi hora de o quinteto sentado à mesa dar as mãos antes do remate inicial, uma tradição que se tem mantido ao longo dos anos. “Bem vindos a mais um Eixo do Mal, começou Nuno Artur Silva.

  • O programa: 10 anos em retrospetiva 

Sempre prontos e com olhar crítico para a atualidade de Portugal e do mundo, a edição comemorativa dos dez anos de Eixo do Mal foi um pouco diferente, pois ao invés de comentar o presente, os intervenientes tiveram de fazer uma retropetiva sobre o passado e um prognóstico sobre o futuro.

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Aqui sim, a postura irónica de Luís Pedro Nunes, sempre o mais discreto durante os programas, foi a que mais se sobressaiu e a que mais gargalhadas arrancou do público, já que o comentador – que recusa ser chamado como tal, segundo uma entrevista publicada ontem pelo Expresso – pegou em assuntos como o caso da PT, a detenção de Duarte Lima, e o distanciamento não-tão-distante de membros da vida política, como José Sócrates e Pedro Santana Lopes. Foi começar numa ponta e acabar na outra, sem hesitar nem gaguejar.

Em suma, nenhum dos convidados ou comentadores habituais apresentou um sumário positivo sobre os últimos dez anos. Para Pedro Marques Lopes, por exemplo, o principal motivo de orgulho foi mesmo a conquista da Liga dos Campeões por parte do FC Porto, em 2004, e poucos motivos há mais para celebrar. O programa, que contou também com intervenções em vídeo de nomes como Assunção Esteves, Macelo Rebelo de Sousa, Mário Soares e Pedro Abrunhosa.

  • Um pouco de história: “o Eixo do Mal foi passando sem envelhecer”

“Dez anos para um programa de televisão é o mesmo que uma eternidade, mas a verdade é que o Eixo do Mal foi passando sem envelhecer”. Estas são palavras de Marcelo Rebelo de Sousa e que nos levam a pensar quantos programas, afinal, se dão ao luxo de nos levarem a usar os dez dedos das mãos quando vamos contar a sua idade.

33755_150180635025460_3777881_nA ideia do programa saiu inicialmente das mentes de José Judice e de Clara Ferreira Alves, a única representante feminina no programa, que não hesitou em ligar a Nuno Artur Silva para o moderar. “Queríamos fazer um programa baseado num programa da BBC, que se chamada “What the Papers Say”“, comentou Clara em entrevista ao jornal Expresso, “a ideia era comentar os assuntos do dia de uma forma que não fosse o comentário político formal e pesado”.

Depois dos primeiros contactos, com os quais acabaram também por resgatar Daniel Oliveira e Pedro Mexia – atualmente comentador no Governo Sombra, da TVI – para o programa, chegou a vez de encontrar uma ‘casa’ para o programa. A primeira tentativa foi o serviço público, a RTP, que nunca atendeu ao pedido, o que acabou por levar a outras opções. “Quanto vamos à SIC Notícias, o Ricardo Costa diz logo: “Eu compro”. Sem ele, nunca teria havido Eixo do Mal, pois ele foi o único que acreditou no programa desde o início”, contou Clara sobre o atual diretor do jornal Expresso, também ontem presente no Teatro Aberto.

Foi então que, em 2004, começaram as primeiras emissões, sob o patrocínio da PT, que viria a cair no fim do primeiro episódio. A razão, relembrada ontem com muita risada, baseia-se numa série de comentários em tom de gozo dirigidos à empresa telecomunicações em comentário a uma cena dos célebres irmãos Marx. “E a PT disse-nos: “bom, isto coloca aqui algumas dificuldades [risos]“, confessou Clara ao Expresso.

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Contudo, com a saída de alguns comentadores e a entrada de outros, o Eixo do Mal aguentou-se e continua de pé, passados dez anos, e a assumir-se como um dos programas políticos mais vistos na atualidade, a par com a Quadratura do Círculo, também da SIC Notícias. E que venham mais dez anos.