Durante quase trinta anos, o muro de Berlim, símbolo máximo da Guerra Fria, materializou a previsão de Winston Churchill que, um anos após o término da Segunda Guerra Mundial, alertou o mundo para a “cortina de ferro” que, silenciosamente, se ia erguendo e dividindo a Europa.

Após os vários conflitos entre a União Soviética e o bloco ocidental que levaram ao início da Guerra Fria, a Alemanha viu-se dividida em duas facções, e em Berlim edificou-se um muro que viria a separar amigos, famílias, vidas. Muitas foram as obras cinematográficas inspiradas por este período da nossa História. O Espalha-Factos selecionou cinco filmes sobre o Muro de Berlim e a Guerra Fria, de forma a celebrar o vigésimo quinto aniversário do fim da divisão da Alemanha, da Europa e do Mundo.

As Vidas dos Outros (2006)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, nomeado para dezenas de prémios e considerado como um dos melhores filmes europeus de sempre, As Vidas dos Outros de Florian Henckel von Donnersmarck é um título obrigatório quando se fala da Guerra Fria, do Muro de Berlim, ou até mesmo do cinema alemão. Dezassete anos após o fim da divisão alemã, o filme consegue retratar de forma minuciosa algumas particularidades e detalhes da vida quotidiana na capital fragmentada, tendo surpreendido o público alemão e arrebatado a audiência internacional.

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Gerd Wiesler, um espião da Stasi (polícia secreta da República Democrática Alemã), recebe ordens para vigiar o escritor Georg Dreyman, suspeito de actividades ilícitas, extremamente puníveis na Alemanha soviética. Algum tempo depois de ter começado a espiá-lo, Wiesler descobre que parte do objetivo da sua missão é incriminar o escritor, da forma que for possível, para que a sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland, fique livre para um dos seus superiores. Wiesler acaba por criar empatia e afeto pelo casal, chegando a mentir e a enganar a Stasi para os proteger. O escritor é salvo pelo espião em várias ocasiões, sem sequer o saber.

Adeus, Lenine (2003)

Um grande filme de Wolfgang Becker, Adeus, Lenine! aborda as vivências daquela altura de uma forma mais descontraída e com algum humor pelo meio. A mãe de Alex, comunista “ferrenha”, sofre um ataque cardíaco quase fatal e entra em coma após ver o filho ser detido pela polícia por participar num protesto contra o governo. Enquanto a mãe dorme, o impensável acontece: o muro de Berlim cai, a Alemanha começa o processo de reunificação e o capitalismo instala-se na cidade.

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Alex, com medo que a mãe volte a sofrer um ataque, omite-lhe essa informação, agindo como se tudo estivesse na mesma, apesar de já nada ser como antes. Com o passar do tempo, mentir à mãe começa a tornar-se mais difícil, mas com a ajuda da irmã, vai conseguindo iludi-la: criam um falso bloco de notícias de televisão; livram-se de tudo o que não é “socialista”; escondem produtos de marcas capitalistas, como a Coca-Cola; usam roupas mais antigas e decoram a casa de forma mais sóbria; no fundo, o filme satiriza o estilo de vida da Alemanha soviética, que era monótono, severo e triste.

O filme, nomeado para vários prémios de cinema europeus, foi muito bem recebido pela crítica, pois conseguiu caraterizar bem aquela realidade, servindo-se de humor e muitas referências culturais para o fazer.

Asas do Desejo (1987)

Pairando sobre a capital alemã, anjos observam as pessoas, os seus movimentos, as suas histórias. Um deles, Damiel, acompanha uma trapezista de circo, solitária, por quem acaba por se apaixonar. Cansado de “olhar” apenas, Damiel abdica da sua imortalidade para poder viver na terra como os outros seres humanos e ser capaz de sentir, sofrer e amar.

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Asas do Desejo faz mais do que contar uma história de amor: o filme, que tem lugar na parte ocidental de Berlim, reflecte sobre o passado, o presente e o futuro da capital alemã. Enquanto anjos, Damiel e Cassiel, seu amigo, têm acesso aos pensamentos das pessoas, um dom que acaba por lhes trazer muita frustração, uma vez que não conseguem interagir com os humanos quando tal se revela urgente (para evitar um suicídio, por exemplo).

O filme recebeu nomeações para vários prémios, e venceu o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes em 1987. Asas do Desejo, muito aclamado, sofreu um remake norte-americano, Cidade dos Anjos, com Nicolas Cage e Meg Ryan que, apesar de se basear na mesma premissa, é diferente em muitos aspectos.

Cortina Rasgada (1966)

Da autoria do mestre Alfred Hitchcock, Cortina Rasgada é um autêntico thriller político. O filme conta a história de um cientista norte-americano que finge passar para o lado do inimigo. No entanto, tudo não passa de um estratagema para obter a confiança e, posteriormente, informações da comunidade cientista russa sobre os seus meios de ataque militar.

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Este é um filme capaz de deixar o público inquieto, e que conta com as performances excelentes de Julie Andrews e Paul Newman. Cortina Rasgada não é o filme mais conhecido de Hitchcock, mas não deixa de ser um óptimo thriller: o filme consegue mostrar a razão pela qual a Guerra Fria foi, mais do que tudo, um jogo de ameaças e uma guerra psicológica, um medir de forças que, apesar de não se ter concretizado no terreno, criou um clima de medo e insegurança por todo o mundo.

Cycling the Frame (1988) & The Invisible Frame (2009)

Este documentário de duas partes, divididas por um período de vinte e um anos, exibe um retrato muito próximo daquilo que foi muro e a vida em Berlim. A primeira parte, Cycling the Frame, filmada um ano antes da queda do muro, em 1988, segue uma ciclista (Tilda Swinton) ao longo da “cortina de ferro”, do lado ocidental de Berlim. Durante os 30 minutos do documentário, a realizadora, Cynthia Beatt, consegue mostrar as diferenças culturais e ideológicas entre as duas metades da cidade. A ciclista é mais do que uma mera observadora, tecendo comentários críticos relativos ao muro e ao que ele representa.

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Em The Invisible Frame, o “depois” da queda, Beatt e Swinton voltam a percorrer o muro, desta vez mostrando os dois lados da cidade, uma vez que já não estão limitadas a apenas um. Juntas, ciclista e realizadora oferecem uma reflexão sobre a história de Berlim, as memórias que ficaram daquele período e a noção de liberdade e independência, drasticamente diferentes desde então. Juntos, os dois documentários trazem uma visão crítica sobre aquele que foi um dos períodos mais importantes do século XX.