O Lisbon & Estoril Film Festival volta a trazer a melhor programação cinematográfica à cidade de Lisboa e do Estoril. Esta sua oitava edição conta com imensos artistas e os mais prestigiados filmes do passado ano. O Espalha-Factos foi à grande abertura e viu os dois filmes que abriram as hostes ao festival: O Saint Laurent no Estoril e o Sono de Inverno, a mais recente Palma de Ouro, em Lisboa.

Saint Laurent – 8/10

Excêntrico, visionário, moderno, melancólico e boémio. São estas as palavras que descrevem um dos maiores ícones do mundo da moda. Saint Laurent, a obra biopic de Bertrand Bonello, que homenageia o estilista, teve a honra de desfilar perante os olhos dos espetadores portugueses na sessão de abertura do Lisbon & Estoril Film Festival ’14. Por ventura por não ter a aprovação de Pierre Bergé, o último companheiro do estilista, tal como fora Yves Saint Laurent de Jail Lespert, o filme de Bonello ganhou ampla notoriedade e é um dos potenciais candidatos ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sem tabus, Saint Laurent retrata de uma forma pouco ortodoxa o período áureo e decadente do criador da moda entre 1967 e 1976.

De dia perfecionista aberrante, de noite errante pelos sentidos, neste filme o espetador viaja pelo íntimo de Yves Saint Laurent entre os seus ímpetos de inspiração e demónios implacáveis. Entramos no seu estúdio, uma indústria que almeja a perfeição de cada vinco, cada dobra e cada medida. As modelos, manequins sem vida, são apenas um número que enverga a sua obra de arte andante.

Em contraste, Betty e Loulou são, ao contrário das manequins, as suas musas inspiradoras, que o amparam nas quedas do trabalho e o projetam na loucura da noite. Pierre Bergé, o seu amante das horas vagas, é a consciência firme do estilista que não o deixa vacilar pelas ilusões noturnas e investe no seu grande nome, marca invejável. Jacques é o lado lunar de Saint Laurent, a força que o leva a explorar o seu ângulo mais selvagem e mórbido. Ele é o milagre que dá a vida que Yves sempre procurou, como também é a desgraça que o prende ao corpo fraco e o previne de criar. Saint Laurent percorre os dramas de um génio cansado do seu próprio reflexo e de já não conseguir suplantar-se a si próprio. “Não tenho competição, é esse o meu drama” opinava o estilista, enquanto afagava a baixa auto-estima das suas clientes.

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O filme consegue com os seus planos aproximados, zooms, travellings e retratos captar as tormentas e vitórias do estilista. Os contrastes de luz e som, as salas vazias ou adornadas com um toque exótico dos anos 60, e os planos divididos mostrando vários cenários em simultâneo projetam brilhantemente os ambientes ambivalentes do filme. Por um lado, o ritmo acelerado e frenético dos desfiles e das discotecas, por outro a lentidão e a melancolia dos leitos vazios e do recomeço de trabalho após noites de loucura e insónia.

Saint Laurent ganha pontos com a performance inesquecível de Gaspard Ulliel, que encarna na perfeição o estilista, não só nas sua aparência física semelhante, como também nos seus trejeitos, postura e linguagem. Para além da sua prestação, a construção ambígua do filme dividida em vários fragmentos que nos transportam do passado para o futuro num ápice, conjugam bem com a personalidade de Saint Laurent oscilante e incerta. A cena final do desfile grandioso ao som de Maria Callas foi o momento climático do filme, interpelado por vários momentos fundamentais da vida de Saint Laurent que irrompem em frente dos nossos olhos como rasgos de memória imbutidos na tela gloriosa.

 

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Em contrapartida, o filme peca pela pobre atuação de Helmut Berger, que interpreta o estilista na sua velhice. Apesar de ter sido um dos atores notáveis nos filmes de Visconti, Helmut não deu ares da sua graça e não convenceu na pele de Saint Laurent mais idoso. Para adicionar, a voz de Helmut não aparentava ser a sua, mas uma pós-produção mal conseguida da voz de Gaspard Ulliel, que por ventura fora introduzida à posteriori nas falas de Helmut. A dessincronização notória da voz aos movimentos bocais de Helmut também em nada ajudou para melhorar a sua prestação. Outro grande pormenor, que infelizmente não brilhou foi o tempo indeterminado de certas cenas que em nada acrescentavam à narrativa, como as reuniões intermináveis entre Pierre Bergé e os investidores da marca YSL ou as cenas de discoteca que por vezes se prolongavam para a banda sonora dar a sua entrada triunfal.

No geral, Saint Laurent com o seu toque vanguardista, tal como o próprio estilista que retrata, foi sublime no ecrã e merece claramente o lugar de destaque ocupado no LEFFEST ’14. Aguardemos pelo veredicto nos Óscars, pois as chances de ser vencedor são notoriamente elevadas. O filme irá continuar no festival hoje, dia 8 de Novembro, às 14h, no Monumental, seguido da discussão integrada na secção Cinema e a Moda, intitulada O filme e a obra de Saint Laurent.

Sono de Inverno – 7/10

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Magistralmente filmado e escrito, Sono de Inverno chega finalmente a Portugal pela mão do LEFFEST’14. Com uma das fotografias mais espantosas do cinema feito em 2014, o mais recente trabalho do realizador turco Nuri Bilge Ceylan serviu como filme de estreia de mais uma edição do festival, depois de ter conquistado o galardão máximo na última edição do Festival de Cannes.

Um Sono de Inverno é antes de tudo um ensaio sobre a consciência, e assume-se quase como que uma peça no grande ecrã. A acção propriamente dita é quase nula mas o que o rege e faz funcionar são as maravilhosas trocas de diálogos entre as personagens, deliciosamente escritas. O espectador está constantemente a ser bombardeado com estas interacções de escárnio, de necessidade exacerbada de criticar, de aflição de protecção, de insulto iminente, de sátira acusatória…

E são mesmo estes diálogos que conseguem prender o espectador à grande tela. É magnifico o efeito que Nuri Bilge Ceylan e os restantes argumentistas conseguiram criar, o público pode até estar um pouco à deriva na sala de cinema, principalmente passadas duas horas do início da película, pode até puxar do telemóvel para ver as horas e alongar-se com a sms de alguém, começar a olhar para o tecto ou simplesmente fechar os olhos. Mas a desatenção do espectador é quase sempre combatida por este argumento, há sempre algum momento nele, nem que seja por uma simples troca de palavras mais bruscas, que faz despertar novamente o público e fazer com que o mesmo se cole novamente no ecrã.

Still from Winter Sleep, Nuri Bilge Ceylan's latest Cannes contender

E se o trabalho tanto de argumento como de actores é extremamente bom, o mesmo já não pode ser dito do controlo de tempo. O grande problema de Sono de Inverno é mesmo o da sua duração e, apesar de usufruirmos a história e a narrativa, não conseguimos sair da sala e pensar que a usufruímos de uma forma completa. Saímos da sala e só queremos um pouco de ar fresco, parece que estivemos uma vida inteira dentro de um auditório às escuras. Este sentimento resulta claro não só do filme ter perto de três horas e 20 minutos de duração como, para mim o factor mais importante, não justificar de todo, esse excessivo alongamento. O filme ficaria muito bem se cenas fossem encurtadas e se rondasse as duas horas, o grande estigma contemporâneo de se fazer filmes longuíssimos por vezes irrita e neste caso até faz o espectador revirar os olhos e suplicar por um intervalo para voltar a respirar o ar frio deste Outono.

Artigo redigido por Sara Alves e Ricardo Rodrigues