A Festa do Cinema Francês aterrou agora nas Caldas da Rainha e a sua primeira sessão foi Attila Marcel, um filme simples e delicado mas ao mesmo tempo surpreendente graças ao seu ambiente invulgar.

Conta a história de Paul (Guillaume Gouix), um rapaz mudo cuja educação ficou a cargo das suas tias, após a morte trágica dos pais quando tinha apenas dois anos de idade. A sua vida é totalmente dedicada ao piano, não por vontade própria, mas porque as tias assim o obrigaram. Mas quando Paul conhece a sua vizinha Madame Proust (Anne Le Ny), vai finalmente reencontrar-se com o passado e conhecer realmente os seus pais.

Attila Marcel parece ser mais um daqueles dramas ligeiros cuja narrativa lenta pode impossibilitar um maior interesse pela sua história. E, de facto, não se pode afirmar que o seu ritmo seja muito acelerado, havendo inclusivamente algumas cenas aborrecidas. Mesmo assim, o filme acaba por compensar a sua “lentidão” com meia dúzia de personagens bastante engraçadas e caricatas que vão protagonizando uma série de situações ora mais comoventes ora mais cómicas, vividas em cenários muito bem construídos, cheios de cor e objetos bizarros e, ao mesmo tempo, cativantes.

Sylvain Chomet, mais conhecido pelos seus trabalhos no cinema de animação, assinou não só a realização mas também o argumento de Attila Marcel, conseguindo conjugar eficazmente a originalidade dos seus planos mais ambiciosos com alguns dos seus diálogos mais profundos. Por vezes, há que admitir, Chomet toma decisões menos acertadas na construção do seu trabalho, como quando, por breves momentos, deslocou o foco da história de Paul para Madame Proust sem que muito o justificasse, e perde-se facilmente o interesse no filme.

Mas também se tem de dar um enorme mérito ao realizador pela originalidade com que foi desenvolvendo a narrativa. Nunca se satisfazendo com uma realização convencional, Chomet foi criando momentos muito curiosos, nomeadamente os flahbacks que Paul tem da sua infância. Aquilo que poderiam ser segmentos melodramáticos e banais acabaram por se tornar em belíssimas cenas musicais e teatrais (caraterizadas por uma excelente fotografia e algumas danças divertidamente coreografadas) que oferecem inclusivamente alguns plot twists muito bem orquestrados.

Há ainda cenas surreais que aliam os sonhos e a imaginação de Paul à realidade, tornando o ambiente de Attila Marcel ainda mais único e peculiar. E os momentos comic relief são dotados de um humor inteligente e delicado (e por vezes um bocadinho negro), capazes de contrastar com o drama do filme oferecendo-lhe um novo fôlego. Bernadette LafontHélène Vincent, as duas tias de Paul, são as atrizes que mais contribuem para a faceta cómica da fita, com as suas divertidas e “simétricas” performances, juntamente com o fantástico Luis Rego, ator nascido em Portugal que fez carreira em França.

No entanto, é Guillaume Gouix a maior estrela de todo o elenco com uma dupla atuação que alterna entre o minimalista e o explosivo. Como Paul, conseguiu desempenhar o papel de um rapaz mudo de forma brilhante, numa interpretação recheada de pormenores e detalhes que ajudaram o público a perceber cada sentimento da sua personagem mesmo sem esta falar. Já na pele de Marcel, pai de Paul que vemos nas suas recordações, Gouix demonstrou uma energia incrível e contagiante, para além de um enorme estilo à anos 70.

Não é, de todo, um filme inesquecível, e às vezes não se consegue libertar da sua narrativa parada. Mas não deixam de ser vários os aspetos interessantes de Attila Marcel, desde o seu grande elenco até ao seu ambiente caraterístico e original, sem pôr de lado uma boa e delicada carga dramática e um ligeiro toque de comédia.

7/10

Ficha Técnica:

Título: Attila Marcel

Realizador: Sylvain Chomet

Argumento: Sylvain Chomet

Elenco: Guillaume Gouix, Anne Le Ny, Bernadette Lafont, Hélène Vincent, Luis Rego, Fanny Touron

Género: Drama, Comédia

Duração: 104 minutos