O Coliseu de Lisboa vestiu-se de negro para receber os Placebo, que ofereceram um concerto irrepreensível aos imensos fãs portugueses que esgotaram a sala. 

Na ressaca do grunge e da brit pop, a cena musical alternativa viu nascer, na segunda metade dos anos 90, bandas que viriam a marcar novamente toda uma geração. Com um lado mais glam e introspetivo, surgiam os Placebo, com o homónimo álbum de 1996 a arrebatar os fãs do pop e do rock com músicas que refletiam o espírito de uma geração. A isso acresceu a andrógena figura de Brian Molko, que rapidamente angariou fãs de ambos os sexos. Aliás, quando entrou em palco fez questão de saudar “ladies and gentleman and the ones in between“. Without You I’m Nothing (1998) e Black Market Music (2000) fizeram engrossar as fileiras de fãs que, por sucessivas vezes, receberam calorosamente a banda em Portugal.

Volvidos 18 anos, esses fãs estão agora mais responsáveis, maduros e capazes de olhar para os melhores discos de Placebo com um saudoso carinho. Com o tempo, os Placebo deixaram de fazer música com a qualidade daqueles primeiros lançamentos, tornando-se uma banda entre as demais, com pouco impacto no panorama musical global. Todavia, o que mostraram ontem em palco foi que, mesmo construindo músicas uns furos abaixo das do passado, ao vivo, estão melhores do que nunca.

O trio surgiu acompanhado em palco com mais três músicos de suporte e projetou imagens ao longo das 19 canções com que brindou o esgotado Coliseu de Lisboa. Com um enfoque nos álbuns mais recentes mostraram como mesmo músicas menores, tocadas com energia e emoção se podem tornar em músicas maiores.

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O concerto até se iniciou com B3, tema do EP de 2012, seguindo-se For What Is Worth de Battle For the Sun e ao terceiro tema Loud Like Love do registo homónimo de 2013. De seguida, um dos temas mais esperados: Every You and Every Me e uma viagem deliciosa no tempo. Não houvesse acesso à internet e a esperança de que os Placebo se deixassem ficar lá atrás teria ficado viva. Porém, não aconteceu e rapidamente percebemos que a banda procurou nesta tour tocar temas mais recentes, fazendo apenas uma incursão até Special K e The Bitter End.

Nesses temas o Coliseu poderia ter ido abaixo. Com as letras na ponta da língua, o público – maioritariamente fãs dos tempos em que os Placebo eram uma referência musical – saltou, cantou e aplaudiu ruidosamente a banda que foi efusivamente respondendo. Brian Molko confessou, aliás, estar em party mode e agradeceu por diversas vezes à bonita cidade de Lisboa aquela receção.

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O concerto de ontem, como aliás toda a tour que por este ano encerrou, teve um forte pendor para os registos mais recentes. Soaram Scene of The Crime, A Million Little Pieces ou Too Many Friends, entoadas em coro por toda a sala. Indo um pouco mais lá atrás, cantou-se One of a Kind, Meds (iniciada num tom arrastado da impecável voz de Molko) e Infra-Red já no encore. Foi também no encore que o momento Kate Bush teve lugar com a belíssima versão de Running Up That Hill (A Deal with God).

Seja por Molko não querer mexer no seu passado ou por a banda querer fazer uma segunda parte da sua própria história, a fuga dos três primeiros abençoados registos não pode ser coincidência. Seja como for, aquilo a que assistimos foi a um concerto intenso, de entrega total e comunhão entre banda e público. E isso não é nada pouco.

 

Fotografia: Beatriz Nunes