Depois de terminada a saga Batman, o trabalho de Christopher Nolan volta aos cinemas e desta vez com uma épica aventura espacial. Interstellar afirma-se desde já como um dos grandes blockbusters do ano e um dos mais ambiciosos filmes da carreira deste realizador norte-americano, suplantando o trabalho feito por Gravidade e afirmando a ficção científica como um dos géneros mais poderosos no panorama cinematográfico actual. 

Num mundo distópico, em que a subsistência humana é posta em causa graças às drásticas mudanças climáticas que fizeram com que a escassez de alimentos fosse uma constante, temos Cooper (Matthew McConaughey). Um ex-piloto da NASA que se viu obrigado a tornar num agricultor numa sociedade onde não há espaço para o investimento na ciência e investigação. No entanto, com o nosso tempo no planeta Terra a aproximar-se do fim, uma equipa de exploradores, incluindo Cooper, é enviada na missão mais importante da história da humanidade: viajar para além da nossa galáxia para descobrir se a humanidade tem futuro entre as estrelas.

Depois de na última edição dos Oscars o Gravidade ter levado para casa sete galardões e ao surpreender tudo e todos com as suas astronómicas receitas de bilheteira ninguém se atreveria, pelo menos num futuro próximo, a lançar mais um épico espacial, assim pensávamos nós. Mas Christopher Nolan tinha já em vista o seu Interstellar e, em menos de um ano após a estreia do colossal de Alfonso Cuarón, ele próprio lança a sua mais recente jornada espacial. Este seu mau timing poder-lhe-ia ser facilmente fatal, mas Interstellar afirma-se antes como um confirmar da predominância da ficção científica no panorama cinematográfico actual e não como um último grito de um género em desgaste.interstellar+trailer

O risco foi na verdade enorme. Esta é um género extremamente arriscado e os realizadores que o exploram estão condenados a andar sobre vidro e a viver assombrados por clássicos do passado que fazem já parte dos cânones da História do Cinema, como o incontornável 2001: Odisseia no Espaço. A crítica especializada pode facilmente despedaçar as aspirações de realizadores contemporâneos com comparações à obra-prima de Kubrick. Elas são acima de tudo pertinentes, mas o que poderia ser feito de uma forma construtiva é apenas usado e abusado pela generalidade da crítica para denegrir qualquer outra obra de temática espacial que não seja o 2001: Odisseia no Espaço. Este moroso e chato debate fomentado pela crítica, que constantemente opõe toda e qualquer obra deste género contra o épico de Kubrick, tem de acabar simplesmente pelo facto de já chatear. Gravidade foi talvez dos únicos filmes posteriores ao Odisseia que conseguiu, finalmente, reunir um positivo consenso na crítica global. E agora, qual é o papel de Interstellar no meio desta conjuntura?

Com as portas que Gravidade abriu o ano passado e ao acordar os espectadores para o género, o filme de Nolan agora não só tem de ser comparado à película de Kubrick como à de Cuarón, mas na verdade principalmente à última dada a proximidade temporal. O facto é que Interstellar, para mim, é sem qualquer dúvida superior ao épico protagonizado por Sandra Bullock, mas para o resto do mundo este filme estará condenado a viver nas sombras de Gravidade e nunca reunirá tanto consenso como o filme de Cuarón reuniu.

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Nolan foi, antes de tudo, inteligentíssimo na construção deste plot. Interstellar é dos filmes com maior potencial de blockbuster desde Avatar, digo isto porque não só combina a perfeição da parte técnica, a temática espacial e as cenas carregadas de acção como também harmoniza isso tudo com uma profunda dose de sentimentalismo que, ao contrário no que aconteceu em Gravidade, não é barato nem pouco credível. Por incrível que pareça o argumento é mesmo um dos pontos mais fortes do filme – é também um dos mais fracos e acaba por ser onde a longa-metragem tropeça, mas já falaremos disso – digo isto porque temos mais um interessante caso de um argumento labiríntico muito ao estilo de Nolan, depois de começar a explorar verdadeiramente esse estilo em Memento, consolidando-o em A Origem, finalmente o consegue entregar em pleno neste seu Interstellar.

O argumento tem muito que se lhe diga. Ele tem, na minha franca opinião, um dos melhores plots do mundo do blockbuster e um potencial gigante junto das bilheteiras. A humanização das personagens no primeiro acto do filme é essencial para esse mesmo potencial de êxito de bilheteiras. É nesta parte em que nada de fantástico acontece que vamos criar grandes laços com duas das personagens centrais: Cooper e Murph (Mackenzie Foy e Jessica Chastain). Vemos a cumplicidade entre pai e filha a aumentar, o primeiro excelentemente representado por Matthew McConaughey que se encontra no auge da sua carreira, a segunda encarnada primeiramente pela jovem Mackenzie que entrega uma adorável prestação e, depois, por Jessica Chastain numa performance que lhe enche totalmente as medidas. É esta grande ligação entre estes dois seres que serve de mote para todo o filme e é a forma de demonstrar como o amor é, sem dúvida, a maior força que move toda a nossa existência enquanto seres humanos. Ao juntar a este grande propósito na storyline de Nolan temos a mensagem intervencionista do realizador e um claro chamar de atenção lançado directamente ao espectador, ao demonstrar que os nossos actos individuais são, em primeira análise, o que nos acabam por condenar enquanto espécie humana.

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Por outro lado, são as palavras dos irmãos Nolan que acabam, também, por revelar algumas fragilidades nesta película. O grande erro de Interstellar foi o não se preocupar com os pequenos detalhes. O argumento é tão inteligentemente estratificado e construído que o mais basilar aspecto foi renegado para segundo plano. Esse aspecto são os diálogos. Há uma certa ingenuidade na escrita destes diálogos, por vezes soam a infantil ou até pouco credíveis. Acima de tudo, parecem eles ou demasiado cliché, com algumas frases feitas a cair no meio das cenas, ou demasiado complexos, recheados de vocabulário científico que prometerá fazer a cabeça em água de alguns espectadores.

 E, mesmo não se afirmando como um filme artístico, Interstellar consegue-nos entregar das mais bonitas cinematografias do cinema feito em 2014 e planos deliciosos de uma beleza fora do normal. Tudo neste nível foi pensado ao mais íntimo pormenor, desde a paleta de cores ao enquadramento escolhido. A componente técnica, na verdade, não tem falhas. Efeitos visuais e sonoros ao nível de Gravidade, uma fotografia deslumbrante e, no topo do bolo, o mais inspirado trabalho de Hans Zimmer numa obra de Christopher Nolan até à data. A sua arrepiante e, ao mesmo tempo, magistralmente dócil banda-sonora completa de uma forma perfeita as imagens de Nolan e a acção da película.

Em suma, Interstellar é um competentíssimo blockbuster que se afirma como um dos grandes filmes do ano. Com um elenco eficaz mas sobretudo apoiado em Matthew McCounaughey e Jessica Chastain, este é um filme que promete trazer as lágrimas até aos menos susceptíveis e fazer com que o público sustenha a respiração no meio da mais acutilante acção. Um filme que se prolonga por quase três horas mas que em momento algum se arrasta ou perde fôlego, aliás, ele tem exactamente o tempo que necessitava de ter. Uma obra encabeçada por um dos maiores nomes da indústria americana, Christopher Nolan que nos entrega em Interstellar o seu mais sólido desempenho enquanto realizador.

8.5/10

Ficha Técnica

Título: Interstellar

Realizador: Christopher Nolan

Argumento: Christopher Nolan e Jonathan Nolan

Elenco: Matthew McCounaughey, Jessica Chastain, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Matt Damon

Género: Aventura, Mistério, Ficção Científica

Duração: 169 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945