Daniel Radcliffe voltou ao género da fantasia, desta vez ao seu lado mais obscuro e… irritante. Cornos é um título que poderia ser fascinante mas o seu exagerado sentido de humor torna a sua visualização cansativa e desconfortável. Estreia hoje em Portugal.

Ig acabou de perder o amor da sua vida após Merrin ter sido brutalmente assassinada. Perseguido pela imprensa e acusado de ter cometido o crime, Ig ganha inexplicavelmente um par de cornos na testa. Todas as pessoas à sua volta começam a comportar-se de uma maneira estranha mas, aquilo que começa por ser bastante estranho para o rapaz, acaba por se tornar uma mais valia para descobrir quem matou a sua namorada.

Ao início pode soar um pouco estranho ver um par de cornos a nascer do nada na cabeça do herói do filme. Mesmo pelo trailer e pelas imagens promocionais da fita os chifres parecem dar um ar ridículo a Radcliffe (que continua a descolar-se do seu Harry Potter mostrando o seu lado mais sombrio numa das melhores performances da sua carreira), mas a verdade é que esses dois novos constituintes da anatomia de Ig acabam por ser muito interessantes e ao mesmo tempo assustadores, sem nunca (ou quase nunca) se tornarem risíveis, oferecendo inclusivamente um grande tom de originalidade à personagem principal de Cornos.

Esta particularidade do protagonista era claramente um bom ponto de partida para uma longa-metragem cativante que transportasse o género do fantástico até ao século XXI em tom de crítica à nossa sociedade. E há uma intenção óbvia de fazer essa crítica expondo por vezes a forma como as pessoas tendem em esconder o que realmente sentem e a paranóia dos media em cobrir exageradamente os acontecimentos mais escandalosos. Mas aquilo que nos primeiros momentos do filme ainda consegue ser minimamente tolerável vai ficando progressivamente mais idiota.

O que leva o filme por tais caminhos é uma espécie de cegueira do realizador Alexandre Aja e do argumentista Keith Bunin que os impede de ver onde está o limite que separa o humor negro do total exagero. As ditas piadas do filme tentam ser satíricas mas acabam por se tornar em momentos inapropriados onde reinam o (mau) non-sense, o recurso constante a anedotas sexuais de pedofilia, homossexualidade, etc., e o humor característico de Family Guy ou de outras séries televisivas politicamente incorretas que só resulta mesmo em desenho animado.

Assim se desaproveita um enredo muito bom, com alguns aspetos curiosos aqui e acolá. Quando tentam ser sérios e deixam de lado as suas falhadas tentativas de fazer rir quem quer que seja, Aja e Bunin até conseguem construir segmentos agradáveis em Cornos. Por muito cliché e longos que sejam, os flashbacks de Ig são as cenas mais bem construídas a nível emocional de toda a longa-metragem e os confrontos que este tem com os potenciais assassinos da sua namorada ganham pela violência explícita e visceral que faz lembrar remotamente um estilo “Tarantinesco”.

E Aja mostra inclusivamente alguma competência na sua realização. Não nas partes cómicas, como é óbvio, mas sim nas cenas de maior suspense que ganham maior relevo na segunda metade do filme. No geral não se pode dizer que tenha tido um trabalho excepcional atrás das câmaras, mas nos momentos da intriga onde era pedido um clima mais sinistro digno de um thriller, Aja apresentou-se ao serviço. E se se ignorarem por vezes os simbologismos demasiado óbvios que o realizador inclui em Cornos é possível apreciar um ou outro plano mais interessante e até inventivo.

Por momentos até faz esquecer o seu extenuante e desapropriado sentido de humor. Mas mal os créditos finais começam a rolar voltam a vir-nos à memória cenas de total infantilidade que em nada favoreceram uma narrativa, admita-se, interessante. Cornos pode ser visto como uma tentativa de dar um novo ar ao fantástico e, infelizmente para o espectador, não passa disso mesmo: uma tentativa… que nem pode ser levada a sério.

4/10

Ficha Técnica

Título: Horns

Realizador: Alexandre Aja

Argumento: Keith Bunin

Elenco: Daniel Radcliffe, Max Minghella, Juno Temple, Joe Anderson

Género: Comédia, Drama, Fantástico

Duração: 119 minutos