Célia Correia Loureiro lançou a terceira obra, A Filha do Barão, pela editora Marcador no início de 2014 e marcou a estreia dos Livros RTP. Das mãos da escritora portuguesa é dado a conhecer a história portuguesa na época de invasão das tropas de Napoleão Bonaparte como cenário da história de amor entre os protagonistas Mariana de Albuquerque e Daniel Turner. Trata-se de primeiro livro de uma saga histórica planeada por Célia Loureiro.

A Filha do Barão, o terceiro livro de Célia Correia Loureiro, é a obra de inauguração da iniciativa Livros RTP. A parceria criada com a Marcador tem como objetivo a divulgação de títulos e escritores nacionais e a escritora é a primeira dos doze autores escolhidos para a iniciativa. O trabalho de Célia Loureiro não é novo para o Espalha-Factos, pela entrevista realizada à escritora no início do ano passado. Quando a autora ainda tinha obras publicadas pela AlfarrobaDemência e O Funeral da Nossa Mãe – afirmou que pretendia escrever uma saga de romance histórico com quatro livros e que não poderia haver melhor forma de iniciar a coleção.

A Filha do Barão

O leitor é transportado para o Porto em 1805, mais precisamente para a Quinta do Lodeiro, e para a vida de Mariana de Albuquerque e Daniel Turner. A história começa a partir do momento em que o barão D. João de Albuquerque entrega a mão da filha Mariana ao inglês Daniel Turner, comerciante que investiga o potencial do vinho do Porto em terras lusitanas e com uma boa quantia de dinheiro para proporcionar uma boa vida à futura esposa. Um casamento arranjado, sem qualquer tipo de amor e com todas as consequências associadas à essa ausência de sentimento, por D. João ter os dias contados devido à peste cinzenta que lhe ataca os pulmões. Numa parte inicial existe até uma certa repugnância entre os dois, por Mariana ser uma simples menina com catorze anos, bem longe de ter maturidade suficiente para casar. Houve uma certa dificuldade na entrada na história, devido à grande quantidade de informação que é dada ao leitor e ao ambiente proporcionado do século XIX. Mariana, apesar das aparências enganarem, mostra-se como uma criatura recheada de mimos dados pelo pai e sem noção das boas maneiras. Essas boas maneiras que não foram ensinadas pela mãe, D. Sofia.

Esta é uma das melhores personagens, para além de Mariana e Daniel, ao longo das quase 600 páginas do romance. D. Sofia revela-se como uma mulher megera e amarga e até mesmo invejosa, pela forma como trata a filha. Ao longo do enredo vai revelando a visão que tem da própria filha, enrolada nos mimos do pai, e a forma como se sente trocada pelo marido. Pode dizer-se que são anos-luz que a separam do barão, que mantém a decisão de se afastar da mulher e enviá-la com Mariana para o Porto, de forma a casar-se com Daniel. É a última gota de água para D. Sofia. Apesar de ser a pessoa mais fria à face da Terra, acaba por transformar-se à medida que o tempo vai passando e torna-se numa das personagens mais ricas de A Filha do Barão. Se Célia Correia Loureiro explorava a profundidade do ser humano nas obras anteriores, ao terceiro livro esse estilo mantém-se. Apesar da dificuldade inicial em entrar na história, há um leque rico de personagens ao dispor de qualquer um: desde os protagonistas, passando por cada um dos empregados – especialmente o jovem – e terminando em Gustave.

A profundidade do ser humano é explorada em ambiente de guerra. Uma guerra instalada em Portugal pelas invasão dos franceses – na época, Napoleão Bonaparte reinava a Europa e tentava comandá-la -, inicialmente de uma forma amigável mas, numa segunda invasão, começam a chacinar e a destruir tudo o que conseguem no Porto. É em tempos de guerra que o ser humano é colocado à prova e todas as personagens nesta histórias são colocadas à prova, no momento em que a França de Bonaparte ameaça colocar todos em perigo de vida. Para além da riqueza em personagens, na descoberta de todas as camadas de cada uma, há também uma riqueza histórica.

A Filha do Barão é destinado a todos os que têm conhecimentos sobre a história do nosso país e aos que não sabem por Célia Loureiro colocar, de forma simplificada, todos os acontecimentos e cenários. E, para além de Mariana e Daniel, também o Porto é protagonista deste romance. São os recantos da cidade, dos arredores – como a Quinta do Lodeiro –, todos os pormenores desta tão bela cidade portuguesa estão tão bem descritos que são capazes de colocar o leitor no cenário.

É de louvar a iniciativa da RTP e da Marcador por divulgar mais uma talentosa escritora portuguesa no mercado literária. Talentosa pela simplicidade na escrita e pela forma como é capaz de agarrar qualquer leitor à história, apesar da grande quantidade de informação que fornece nas primeiras páginas. Resta saber se a história de Mariana, Daniel e também da pequena Amélia vai continuar.

Nota final: 8,5/10