Estava uma tarde quente e soalheira na cidade de Lisboa, já habituada ao rebuliço de turistas e transeuntes que, naturalmente, ocupam as ruas num dia como este. Adivinhando, dir-se-ia, que estávamos em junho. No entanto, o mês de outubro aproximava-se do seu fim e o Espalha-Factos refugiou-se do calor outonal no pátio do The Decadente, onde esteve à conversa com Miguel da Bernarda e Zé Valério, dos Brass Wires Orchestra. Falou-se de tudo um pouco: das origens e futuro da banda, do seu álbum de estreia, do processo criativo e até mesmo de palavras dificilmente traduzidas para Português.
Espalha-Factos:
 Vocês juntaram-se, oficialmente, como banda em 2011. Contem-nos como é que tudo isto começou; como é que se conheceram e quando é que se aperceberam de que conseguiam realmente criar música juntos?

Miguel da Bernarda: O processo começou com a ideia de criar uma banda, o que gerou uma vontade que se materializou. Comecei a ligar à malta, e, nas primeiras vezes em que ensaiámos juntos, sentimos logo que havia ali qualquer coisa de especial. Começámos a receber feedback positivo das pessoas e decidimos, em conjunto, que iríamos encarar isto de uma forma mais séria.

 EF: Mas já eram todos amigos?

MB: Não, só conhecia o Afonso [guitarra/banjo], que era ex-namorado de uma ex-namorada.

Zé Valério: E o Tommy, que depois não ficou na banda.

MB: E o Tommy, sim. Liguei ao Afonso e perguntei-lhe ”olha, conheces alguém que toque trompete?’‘, e então entrou o Camões [Luís Grade Ferreira – trompete]. Ele perguntou-nos se não queríamos mais um trompetista e um saxofonista, seus conhecidos, e fomos crescendo assim. Como tínhamos acabado de nos conhecer e de nos juntar num projecto musical ao mesmo tempo, a nossa energia era muito boa, estávamos quase como que apaixonados uns pelos outros; podíamos estar sempre juntos, a tocar na rua…

EF: Passaram muito rapidamente da rua para a ribalta: inicialmente, gravavam covers em miradouros lisboetas, e, menos de um ano depois, estavam a tocar no Hard Rock Calling, em Londres. Como é que surgiu a oportunidade de concorrerem ao Hard Rock Rising  e por que é que decidiram fazê-lo?

ZV: Foi o Miguel! Basicamente, tinhas de enviar uma faixa tua, original, para o Hard Rock. Havia uma seleção e só depois é que entravas para a fase de votações. O Miguel enviou sem nos dizer nada e aquilo estava um bocado mau. Inicialmente, ficámos um bocado chateados, mas passou logo. Pensámos ”pá, ’tá-se bem, conseguimos entrar’‘.

EF: Pelo que vi, eram milhares de bandas a concorrer…

ZV: Sim. A tua maquete era selecionada e entravas para uma votação no Facebook. Se ficasses entre os nove primeiros, ias tocar ao Hard Rock Café em Lisboa, a uma meia-final e, caso passasses, à final. Nós concorremos e ganhámos: fomos à meia-final e ganhámos, à final e ganhámos. Depois, fomos para outra votação a nível mundial, também no Facebook.

MB: Onde tinhas de concorrer contra 82 bandas de 82 países diferentes.

ZV: Ficámos em segundo lugar, mas a organização gostou tanto de nós que também nos levou a Londres.

MB: Mas foi como se tivéssemos vencido, porque ganhámos o mesmo prémio!

EF: O que é que sentiram, na altura?

ZV: Olha, eu e o Miguel começámos aos pulos do Hard Rock para fora!

MB: Nós estávamos os dois lá e começámos aos abraços e aos pulos. Eu desci ao gabinete do Staff, porque já nos dávamos bem com eles, e perguntei se já sabiam alguma coisa, porque sabíamos que os resultados saíam naquele dia e ainda não sabíamos nada. Eles também estavam à espera. Entretanto, liga-me o Nuno, o nosso contrabaixista, e diz-nos ‘‘olha, saiu agora o resultado e não ganhámos”. E eu: ‘‘fogo, então?”. Ele respondeu ”mas vamos a Londres na mesma!”. Entrámos no site, e tínhamos ficado em segundo, runner-up, e tínhamos ganho o mesmo prémio.

 EF: Não sentiram que estava tudo a acontecer muito depressa?

MB: Sim, sim; nós ainda só tínhamos uns cinco ou seis originais.

ZV: Tínhamos cinco e fizemos mais um para ir a Londres.

MB: Pois foi; ”The Life I Chose”. Tínhamos cinco originais e já estávamos a ir tocar a um grande festival em Londres, estás a perceber? Tivemos essa sensação de que estava tudo a acontecer muito rápido. Ainda por cima, lá, foi mesmo tratamento VIP. Foram oito voos para lá, tínhamos não sei quantos motoristas para nos transportarem, levaram-nos para um hotel de cinco estrelas… Foi assim mesmo à grande!

EF: Não vos colocou muita pressão em cima dos ombros? Até para depois pensarem em ter de gravar o álbum?

ZV: Pressão, não digo, mas elevou-nos um pouco a expectativa, a fasquia. A questão de gravar álbum já tinha sido pensada quando começámos a fazer cada vez mais originais. Ainda não havia uma data definida, mas já sabíamos que era o caminho a seguir.

MB: Exatamente, era uma coisa que nós queríamos que acontecesse. Não tínhamos ainda bem a noção de quando, mas sabíamos que iria acontecer.

EF: E as dinâmicas de trabalho num grupo de nove pessoas, certamente com personalidades muito diferentes, como é que funcionam? Como é que se gerem os diferentes egos?

ZV: Já foi mais complicado!

MB: Sim, mas sempre se geriram com alguma facilidade, com uma ou outra readaptação, mas nada de grave, nada que pusesse em causa a continuação da banda. Em termos de disponibilidades é que acho que é a maior barreira…

ZV: A malta vai-se desdobrando e vai fazendo…

MB: Sim, alguns de nós têm trabalhos a tempo inteiro. Em relação aos egos, acho que nunca houve grande problema, eu acho que as coisas se resolvem com muita facilidade, muita tranquilidade…

ZV: Sim, sempre na desportiva.

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EF: Mesmo no processo de criação, não há ninguém que lidere sempre e que dê as ideias todas?

MB: Não, as músicas começam sempre com uma base, com um trabalho de casa. Geralmente, sou eu quem se chega à frente com esta parte, mas depois toda a gente contribui com aquilo que sabe melhor: o traz os seus arranjos de saxofone, por exemplo. Cada um tem o seu arranjo e sabe bem a função que tem e não há nunca uma sobreposição.

ZV: Sim, todos temos tendência a opinar sobre o trabalho dos outros, fazer sugestões, mas nunca a mandar abaixo.

MB: Sempre de forma construtiva, nunca há nenhum a puxar mais pela sua brasa. Nós todos trabalhamos em prol do produto final e da música, estás a perceber? Por exemplo, o Afonso, que toca banjo, simplifica-o para…

ZV: Dar espaço a outras coisas.

MB: Exatamente, para que dê espaço, porque ele podia ter mais protagonismo como banjoísta…

ZV: Ou como guitarrista…

MB: Mas ele simplifica um bocadinho a parte dele para depois também dar espaço para as outras coisas respirarem.

EF:O vosso disco de estreia, Cornerstone, foi gravado nos Black Sheep Studios pelo Makoto e o Fábio dos PAUS,  e acabou de ser masterizado em Abbey Road, pelo Frank Arkwright, em Junho de 2013. O que é que aconteceu, entretanto, para só ser lançado um ano depois? 

ZV: Em fevereiro…

MB: De 2012!

 EF: Ok, então ainda pior! Ia perguntar-vos o que aconteceu entretanto para só ser lançado agora em Junho.

ZV: Burocracias…

MB: Pá, foi muito complicado porque nós queríamos lançar por nossa conta, mas entretanto envolvemo-nos com um sponsor que decidiu pagar-nos o estúdio e as gravações, deu-nos a ideia de lançarmos com uma editora, depois voltámos à ideia de lançarmos sozinhos outra vez, e depois voltámos para outra editora… Foi um ping-pong de burocracia que dificultou o processo.

EF: Foi, então, o principal desafio com que se depararam em todo o processo que sucedeu à concepção do álbum?

MB: Sim, foi a parte mais complicada, mesmo a nível anímico e motivacional. Gerou alguma ansiedade, porque estávamos a ver o tempo a passar e as coisas não aconteciam.  O que decidimos fazer foi continuar a trabalhar em coisas novas e a escrever outras músicas.

EF: O álbum tem um grafismo belíssimo. Pensaram em conjunto? Ou houve alguém que tivesse tido a ideia?

ZV: Primeiro falámos com a Sara Feio, que faz parte do projeto Pernas de Alicate. Ela é ilustradora e tem uns desenhos muito giros, e nós aparecemos com uma ideia, que não agradou a toda a gente…

MB: E eu então falei com um amigo meu, o Tiago Albuquerque, que já tinha feito um trabalho para mim, e pronto, fomos trabalhando em conjunto, fui sempre mostrando à banda o progresso e as coisas acabaram por ficar assim.

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EF: E tem algum significado especial?

MB: Não, não tem assim um significado especial…

ZV: É mais o contexto da nossa música.

MB: O contexto estético, sim. Achamos que a nossa música remete muito para esse imaginário.

EF: Já tiveram a oportunidade de o apresentar ao vivo. Como é que têm sido as reações?

MB: As reações são sempre positivas. Nós achamos que em cada concerto ganhamos fãs. Achamos que realmente a dificuldade é chegar às pessoas, ou seja, divulgar o trabalho, até porque hoje em dia há muita oferta…

EF: Pois, nos dias de hoje, na internet, é muito fácil pôr uma música no Youtube, ganhar popularidade…

MB: E no dia seguinte já não ser ninguém…

EF: Pois, exato. Eu não me queria intrometer nas vossas questões financeiras, mas viver da música, hoje em dia, em Portugal… 

MB: É possível!  Neste momento, se calhar Brass Wires ainda não nos dá possibilidade para tal, mas temos outros projetos.

ZV: Que nos ajudam a auto-sustentarmo-nos.

MB: Há cada vez menos apoio.

ZV: E também há a questão dos gostos mudarem; se calhar, hoje em dia, as pessoas preferem ter um DJ a tocar, do que ter uma banda de nove membros. E isso às vezes complica um bocado o nosso trabalho e dá-nos menos datas…

MB: Sim, porque nós quando começámos isto e quando decidimos ter muitos músicos, pensámos nisto numa forma muito despretensiosa. Queríamos oferecer música de qualidade e queríamos que fosse uma festa, percebes? Essa visão um bocadinho ”hippie” do que é a música acabou por nos prejudicar um bocadinho nesta fase, se calhar. Como não queremos abdicar de nenhum músico nem da qualidade que criámos, dificulta as nossas viagens, as marcações de concertos…

ZV: Mas há-de resultar. Vai resultar!

EF: As vossas playlists pessoais no Spotify demonstram que têm gostos musicais que vão muito para além daquelas bandas a que são constantemente comparados (Beirut e Mumford & Sons) e do folk na sua generalidade. Está nos vossos planos experimentarem e enveredarem por outros géneros?

ZV: Eu acho que a música evolui…

MB: E os gostos.

ZV: E os gostos, claro. A música que nós ouvíamos em 2011, quando nos juntámos, não é a mesma que ouvimos agora, não é? Logo, quando vamos compor, já não vamos levar as mesmas influências que levámos naquela altura. Portanto, acho que sim. A nossa música tem tendência a evoluir e já temos algumas noções do caminho que queremos seguir, mas de certeza que vão surgir algumas coisas de que não estamos à espera. E isso é muito por culpa da evolução dos tempos. À medida que o tempo vai passando, a música muda, os gostos mudam, tudo muda, e nós temos de acompanhar este processo para nos mantermos como banda.

EF: Então, para um segundo álbum, estão a pensar integrar assim uns sintetizadores, uns pedais de efeito?

MB: Sim, eu acho que sim, acho que caminhamos nesse sentido, sempre com o ”dedo” dos instrumentos que nós temos, que são muito característicos, como o banjo, os sopros, o contrabaixo… Queremos manter esta estrutura, mas explorar esses elementos a fundo, até porque sabemos que o acústico, em si, tem algumas limitações. Então queremos explorar essa faceta mais de efeitos…

ZV: Mais eletrónica.

MB: Mas sempre com o nosso cunho, com a nossa base.

 EF: E como é que reagem a estas comparações?

MB: No início, encarávamos com alguma leveza e até achávamos graça, mas como nos assumimos como banda e entidade criativa, gostamos cada vez menos de comparações, até porque o nosso som tem evoluído, e, lá está, como já temos dito noutras entrevistas, por falta de comparação em Portugal, acabamos sempre por ser associados a essas bandas, com as quais achamos que nem temos muito em comum.

ZV: Pois, se calhar no início… Eu acho que isto também advém de nós termos feito aqueles vídeos das covers dessas bandas; começamos por ser conhecidos por isso, por aquelas duas covers de Mumford e de Beirut. É claro que depois fizemos uma coisa parecida, mas pá, lá está, eram as nossas influências na altura. Mas acho que, mesmo sendo parecido – eu posso concordar que é -, nós temos uma coisa nossa, própria. Damos muito mais ênfase aos sopros, às vozes. Acho que acaba por ser diferente.

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EF: Que perspetivas de futuro para os Brass Wires Orchestra? O segundo álbum está nos vossos planos a curto ou médio prazo?

ZV: Não fazemos ideia…

MB: Sim, não fazemos ideia, mas queremos muito. Há uma grande vontade. Até porque pelo álbum ter demorado tanto a sair, temos já vontade de ter um set completamente novo ao vivo e tocar coisas novas e de realmente dar aos nossos fãs coisas novas. Até porque sentimos que os novos temas que temos composto e o nosso próximo trabalho nos destacará como identidade.

ZV: Sim, vai-nos ajudar a afirmar como uma banda própria.

MB: Achamos que as novas músicas estão muito mais maduras e têm um estilo muito mais…

ZV: Nosso.

EF: Para terminar, pensei em desafiar-vos a descreverem o vosso primeiro álbum, esta ”pedra basilar”, numa palavra.

ZV: Numa palavra?! Eu acho que Cornerstone é uma palavra! (risos) Numa palavra é muito complicado!

MB: Nós somos muitos…

ZV: (risos) Pois, têm de ser muitas palavras!

(silêncio)

EF: Isto foi provavelmente a pergunta mais ingrata e idiota que me ocorreu… Não pensem muito, digam a primeira coisa que vos venha à cabeça!

ZV: Genuinidade… Não, não…

MB: (silêncio) Pois, não sei!

ZV: Numa palavra é mesmo muito complicado…

MB: Porque é que tem de ser numa palavra? Só porque sim? Uma palavra tem graça? Tu queres, basicamente, que os músicos descrevam o seu trabalho de anos numa só palavra…

ZV: Qual é que era a tua sugestão?

MB: Sim, dá-nos tipo quatro opções.

EF: Epá, também não sei…

MB: É muito complicado.

ZV: Eu acho que o nome do disco, por si só, já o descreve. É em inglês, mas é só uma palavra. O disco é muito o significado dessa palavra; é a pedra-mãe de uma grande obra que nós queremos fazer… É isso…

MB: Agora procuras uma língua que tenha uma palavra que signifique tudo isto!