A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

É difícil não invejar o trabalho de certos atores. Ralph Fiennes é, com certeza, uma das vítimas dessa inveja alheia. O seu currículo é tão bem composto que até causa dormência mental, uma mistura de incredibilidade e deslumbramento. Este é um daqueles fantásticos atores que nos fazem respirar de alívio por ainda terem tantos anos de trabalho pela frente.

Ralph Nathaniel Twisleton-Wykeham-Fiennes nasceu a 22 de dezembro de 1962, em Ipswich, Inglaterra. Os seus pais, Mark Fiennes e Jennifer Lash trabalhavam ambos na área das artes: Mark era fotógrafo e ilustrador, Jennifer pintava e escrevia. Ralph é o mais velho de sete irmãos, e quatro dos quais, para além dele, seguiram carreiras também ligadas ao cinema e outras artes – Joseph é ator, Martha e Sophia são realizadoras, e Magnus é compositor. (Já agora, uma curiosidade: Ralph e o Príncipe de Gales, D. Carlos, são primos em oitavo grau).

Durante a infância e adolescência, a sua família mudou-se para a Irlanda e regressou a Inglaterra uns anos depois, onde Fiennes acabou os estudos. Foi só depois de ter entrado na Universidade de Artes de Chelsea para estudar pintura que descobriu que representar era a sua verdadeira paixão.

Estudou teatro na Real Academia de Arte Dramática entre 1983 e 1985 e, como tantos outros antes e depois dele, começou a sua carreira com interpretações shakesperianas, primeiro no Open Air Theatre, depois no Royal National Theatre, até à prestigiada Royal Shakespeare Company. O seu primeiro papel no grande ecrã chegou em 1992, em O Monte dos Vendavais, ao lado de Juliette Binoche.

Mas foi o ano de 1993 que ditou a sua carreira, com a participação em A Lista de Schindler. No aclamado filme de Steven Spielberg, Fiennes é Amon Goeth, um impiedoso comandante responsável por um dos campos de concentração nazis. O papel valeu-lhe a sua primeira nomeação aos Oscars, para Melhor Actor Secundário, e a vitória nos Bafta, na mesma categoria. Não tão prestigiante, mas ainda assim relevante, foi a sua entrada para a lista dos Melhores Vilões do Cinema, uma selecção feita pelo Instituto Americano do Cinema.

A Lista de Schindler

A Lista de Schindler

A partir daqui, os papéis começaram chover, nos mais variados géneros: mm 1994, participou em Quiz Show, de Robert Redford; dois anos depois, protagonizou o aclamado O Paciente Inglês, pelo qual recebeu a nomeação para Oscar de Melhor Actor; em 1998, emprestou a voz ao Príncipe do Egipto; no ano seguinte, protagonizou Sunshine; em 2002, participou em Spider, no romântico Encontro em Manhattan, no thriller Dragão Vermelho e ainda conseguiu fazer de Bom Ladrão; passou pela Terra de Cegos em 2006, e esteve Em Bruges em 2008. Entre toda esta azáfama, teve a oportunidade de trabalhar com dois dos seus irmãos em Onegin (1999). Martha realizou, Magnus compôs a banda sonora.

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O Paciente Inglês

O Fiel Jardineiro, de 2005, com Fiennes no papel principal, é um dos seus mais conhecidos trabalhos. O filme recebeu ótimas críticas por parte do público, tendo sido nomeado para vários prémios, entre os quais os Oscars, nas categorias de Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Edição e Melhor Atriz Secundária. Rachel Weisz venceu nesta última categoria. A história passa-se no Quénia, nas favelas de Kibera e Loiyangalani, e as condições de vida das populações chocaram tanto a equipa de produção que, no final das filmagens, decidiram criar um fundo de apoio para que as crianças dessas vilas pudessem ter acesso à educação básica. Fiennes foi um dos fundadores da causa.

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O Fiel Jardineiro

Fiennes apareceu, também em 2005, no quarto filme da saga sobre o rapaz-que-sobreviveu, Harry Potter e o Cálice de Fogo, encarnando Lord Voldemort, o inimigo mortal de Potter. Voltou a participar nos seguintes quatro filmes. O seu sobrinho, Hero Fiennes-Tiffin, trabalhou ao lado do seu tio no sexto filme da saga, no qual fez de Tom Riddle, Voldemort nos seus anos de estudante.

Harry Potter e o Cálice de Fogo

Harry Potter e o Cálice de Fogo

No ano seguinte, foi nomeado para um Tony pela sua performance na peça Faith Healer. Em 2008, aparece em Oedipus King, no Teatro Nacional em Londres. Nesse mesmo ano, entra em mais dois excelentes filmes: A Duquesa e O Leitor. Este último, muito bem recebido pela crítica,foi indicado para vários Oscars, Globos de Ouro, Bafta, entre outros. Kate Winslet teve uma participação brilhante, feito que lhe foi reconhecido pela Academia com o Oscar de Melhor Atriz.

Fiennes prosseguiu na sua carreira com mais filmes memoráveis como The Hurt Locker (2009), de Kathryn Bigelow; Clash of the Titans (2010), no qual protagoniza Hades; e Skyfall (2012), de Sam Mendes, o vigésimo terceiro filme de James Bond. Fiennes irá aparecer nas próximas fitas sobre o espião mais famoso do mundo, onde irá substituir Judi Dench no papel de M.

Como se pode ver pelos títulos em que já trabalhou, Fiennes nunca se dedicou a papéis cómicos. Talvez seja por isso que a sua prestação em Grand Budapest Hotel esteja a surpreender, e muito, a crítica. Um dos melhores filmes deste ano, espera-se que receba várias nomeações na tão breve award season, entre as quais o Oscar de Melhor Ator para Fiennes, cuja performance se revelou merecedora.

The Grand Budapeste Hotel

Grand Budapest Hotel

 Se há pessoas que nasceram para representar, Fiennes é uma delas. Poderia ter-se saído bem na pintura, mas não está nada mal enquanto actor.