Vindo das mãos de uma realizadora estreante em longas-metragens e protagonizado por um elenco sem muita experiência no cinema, Sara Prefere Correr é um drama que mostra uma grande inteligência e maturidade. Chega hoje às salas portuguesas.

Sarah (Sophie Desmarais) é uma amante de atletismo e uma das melhores corredoras da terra. Quando recebe uma proposta para ir para o melhor clube de atletismo universitário, faz as malas e ruma com o seu amigo Antoine (Jean-Sébastien Courchesne) para Montreal. Visto que não tem trabalho, a jovem decide casar com Antoine para receber um subsídio do estado. Mas à medida que o tempo vai passando, ela apercebe-se que nem tudo vai correr como tinha planeado.

Depois de algumas curtas-metragens, Chloé Robichaud estreia-se com Sara Prefere Correr nos filmes de longa duração. Muitos outros cineastas que já se aventuram no género dramático há uns anos podiam por olhos nesta novata, que foi lentamente criando em torno da sua personagem principal um conjunto de dificuldades e obstáculos de forma bastante realística e nada melodramática. O filme conta com cenas incrivelmente intimistas do quotidiano de Sarah, que nos aproximam dos seus problemas e nos ajudam a criar uma maior afeção por ela.

Talvez a realizadora se concentre em demasia no drama de Sarah, visto que não há muito espaço para comic rliefs. E a forma como ela quer mostrar a jornada que a atleta atravessa dentro e fora de pista acaba por ser muito densa em certas ocasiões. Quando as dificuldades que a personagem atravessa chegam ao seu clímax, Robichaud decide fazer desses pontos altos cenas longas, muitas vezes com recursos a planos sem cortes, praticamente imóveis e de longa duração, o que lhes tira um pouco o impate desejado pois tornam-se ligeiramente aborrecidos.

Mas é nestes momentos que a inteligência de Robichaud se destaca.Ciente da monotonia de que sofre o seu trabalho a dada altura, a realizadora consegue atenuar o efeito colocando conversas telefónicas de fundo que Sarah tem com família e amigos ou então escolhendo um tema musical que se adeqúe a cada cena. É claro que ainda há alguns momentos de Sara Prefere Correr onde reina o silêncio ou simplesmente o som das personagens e do espaço onde elas estão, mas compreende-se que alguns deles são essenciais para demonstrar cruamente aquilo que a protagonista principal está a viver.

Para aqueles que esperam deste título um espécie de sports movie estão muito enganados. Se os primeiros minutos (e a cena inicial especialmente) mostram um grupo de raparigas a correrem e a treinarem para as suas provas, o foco do filme muda lentamente para a vida fora de pistas que a protagonista principal leva. Isto acontece paralelamente ao desenvolvimento do enredo da história, que nos seus momentos iniciais mostra uma Sarah concentrada no atletismo, dizendo que é a sua verdadeira paixão, mas que será obrigada a enfrentar algumas situações mais delicadas e muito emotivas, que deixarão ninguém ter qualquer sentimento de apatia pelo que vê.

É um verdadeiro character study que descobrimos no trabalho de Robichaud. E em vez de termos a evolução psicológica de Sarah presente somente no argumento, esta é-nos também apresentada visualmente, graças à excelente realização da canadiana. Na primeira metade do filme, a jovem é filmada de costas quando confrontada com situações que não são do seu agrado e só vemos a sua cara nos tempos de maior alegria. Mas entrando na segunda parte, a câmara mostra Sarah de frente nos episódios mais delicados que esta vive, visto que é agora obrigada a encará-los de frente sem nenhuma alternativa.

A surpreendente Sophie Desmarais é outra das principais responsáveis por esta evolução resultar. A atriz, também ela em início de carreira, tem uma excelente performance que capta a essência da sua personagem em todos os pontos. Se as câmaras de Robichaud conseguem filmar Sarah de maneira a mostrar o que vai na sua cabeça é porque Desmarais também se consegue expressar maravilhosamente. Jean-Sébastien Courchesne, com quem contracena, pode não ter estado à altura da sua parceira, mas foi mesmo assim protagonista de algumas das cenas mais fortes do filme, nas quais conseguiu sempre trazer as emoções do seu Antoine ao de cima.

É um filme que evidencia uma das novas vozes no panorama dramático, que promete vir a dar que falar no futuro, e apresenta ainda um elenco fantástico dos quais esperamos novos trabalhos. Estes dois fatores fazem de Sara Prefere Correr um título muito interessante, com uma história emocionante contada delicadamente. Se a personagem principal prefere correr para a vitória, também não faltam razões para o público se apressar até às salas.

7/10

Ficha Técnica

Título: Sarah préfère la course

Realizador: Chloé Robichaud

Argumento: Chloé Robichaud

Elenco: Sophie Desmarais, Jean-Sébastien Courchesne, Geneviève Boivin-Roussy

Género: Drama

Duração: 97 minutos